Numa altura em que todos falamos de sustentabilidade, uma viagem de carro elétrico com a família revela que o futuro exige mais do que boas intenções — exige mapas, snacks e nervos de aço. Viajar com crianças já é, por si só, um teste de resistência. Agora juntem-lhe um carro elétrico, temperaturas a rondar os […]
Numa altura em que todos falamos de sustentabilidade, uma viagem de carro elétrico com a família revela que o futuro exige mais do que boas intenções — exige mapas, snacks e nervos de aço.
Viajar com crianças já é, por si só, um teste de resistência. Agora juntem-lhe um carro elétrico, temperaturas a rondar os 40 graus e uma ideia algo romântica de “sustentabilidade na estrada” — e têm a receita para uma daquelas histórias que mais tarde se contam à mesa, entre risos e um leve trauma.
Foi exatamente isso que nos propusemos fazer: férias em modo elétrico. Trocar o avião ou o carro habitual por um Volvo EX90 novinho em folha, cedido pela Volvo Portugal, para ir de Lisboa até Cádis, em Espanha. A ideia era linda: conforto, inovação e zero emissões (ou quase). Até parecia que íamos salvar o planeta numa roadtrip com duas crianças e um porta-bagagens cheio de bonecos e bolachas.
A ida correu tão bem que começámos a achar que estávamos a viver um anúncio. Paragem estratégica em Mérida para carregar a bateria? Check. Almoço delicioso com croquetas e solomillo enquanto o carro ganhava energia? Check. Miúdos felizes, nós orgulhosos, planeta agradecido. Que maravilha esta coisa da mobilidade elétrica.
Mas depois veio o regresso. E aí… o filme mudou de género.
Saímos mais tarde, claro. Um dos miúdos estava com fome antes do previsto (quem diria?), e achámos que podíamos improvisar. Spoiler: não podíamos. Acabámos encalhados num restaurante de camionistas, com um carregador avariado e uma sala de refeições que parecia saída de um episódio esquecido dos anos 90. Dois cafés mornos e algumas lágrimas depois (algumas minhas, outras das crianças), lá seguimos viagem com mais uma paragem em Estremoz, onde a paciência começou a escassear mais depressa do que os quilómetros.
Conclusão prática: viajar num carro elétrico é espetacular — desde que se planeie tudo como se fosse um casamento. Ou uma invasão militar. O improviso, nesse cenário, não é um toque de espontaneidade: é uma receita para o caos.
Mas há uma lição valiosa aqui. A mobilidade elétrica não é apenas uma questão de trocar combustível por kWh. É uma nova forma de estar no mundo. É aceitar que fazer melhor implica mudar hábitos, abdicar de certas comodidades e, sim, fazer mais contas antes de sair de casa.
No fundo, o carro elétrico é o símbolo perfeito daquilo que precisamos de ser: mais conscientes, mais organizados, menos impulsivos. A urgência climática não se compadece com o “logo se vê”. E se queremos continuar a viajar, a conhecer, a explorar — temos de o fazer com outra mentalidade.
O setor do turismo representa cerca de 8% das emissões globais, e em Portugal o peso económico e ambiental é ainda maior. Já se fazem esforços sérios — dos Açores como destino sustentável às ferramentas de cálculo de emissões — mas o futuro depende, acima de tudo, das escolhas individuais. Não basta esperar que os outros façam. Cada um de nós é parte da equação.
Evitar a época alta, apoiar o que é local, reduzir o desperdício, optar por meios de transporte com menor pegada. Não é uma cruzada heroica. É o mínimo.
Voltando àquela noite num restaurante perdido entre pontos de carregamento, a verdade é que sim — repetiríamos tudo. Porque a aventura, os imprevistos e até os atrasos fazem parte da memória. E porque dar esse exemplo aos nossos filhos, mostrando que há outras formas de se mover pelo mundo, é mais importante do que chegar a horas.
Viajar continua a ser um privilégio. Mas hoje, mais do que nunca, é também uma responsabilidade. Improvisar pode estragar uma viagem. Ignorar o impacto coletivo pode estragar o planeta.
Portanto, sim: vamos continuar a viajar. Mas com um bom plano, a app do carregador atualizada e snacks — muitos snacks.

