Em julho de 2026, numa sessão com gestores, vi um líder pedir a um assistente de inteligência artificial que criticasse a estratégia que acabara de apresentar. Recebeu elogios e uma sugestão menor. Agradeceu, satisfeito. Ninguém na sala reparou no que tinha acontecido: a máquina não avaliou a estratégia, leu o tom da pergunta e devolveu o que ele queria ouvir.
Quem hoje lidera pessoas vai amanhã liderar equipas híbridas, pessoas e agentes no mesmo processo. E chega a esse ponto com um problema por resolver. Aquele assistente foi sensível ao tom e cego ao problema. A isso chamo sensibilidade artificial. O problema já existia antes da IA – os modelos apenas entraram num mundo empresarial onde já era mais seguro concordar do que discordar. Em abril de 2025, a sensibilidade artificial chegou ao limite: a OpenAI teve de reverter uma atualização do seu modelo mais usado por se ter tornado excessivamente concordante. Corrigiu-se depressa porque era público e mensurável. Nas empresas, ninguém mede isso. E cada agente que entra amplifica a concordância: na pessoa, na equipa, na organização inteira.
Liderar equipas híbridas muda quatro coisas. Em cada uma, comece por aqui. Liderança: peça o argumento mais forte contra, em vez de pedir uma opinião. Comandar quem nunca discorda é uma competência nova. Cultura: exija ao agente o que exige a um colega, porque cultura híbrida não é ter agentes no processo. A segurança psicológica passa a incluir a IA: a equipa que não contradiz os agentes, também não o contradiz a si. Decisão: registe quem assina em cada decisão apoiada por um agente. A responsabilidade não se delega em software. Adaptação: conte quantas vezes alguém disse não nas reuniões deste mês. Se der zero, a empresa não está a adaptar-se, está a repetir-se.
Nos últimos dois anos passaram pelas salas da Nova SBE Executive Education mais de dois mil gestores portugueses. Quase todos usam IA todas as semanas, quase nenhum sabe dizer quando foi a última vez que a IA lhe disse que estava errado. E são gestores que decidiram formar-se em IA, os mais atentos ao tema. Isto é o melhor cenário, não a média. O risco não é a docilidade das máquinas, é a que já existia. A vantagem competitiva não vai para quem tiver mais agentes, vai para quem mantiver, dentro de casa, pessoas e sistemas dispostos a discordar.
Sensibilidade, inteligência e propósito não se instalam com tecnologia.
O propósito é o que decide para onde apontamos os agentes, e continua a ser a nossa parte do problema.
É esse o trabalho que fazemos na Nova SBE: devolver a capacidade de pensar e de discordar. Nem yes men, nem yes agents.
Peça hoje ao seu assistente que destrua a sua melhor ideia. E repare no que sentiu ao ler a resposta.
Este artigo foi publicado na edição nº 34 da revista Líder, cujo tema é ‘Depois do Amanhã’. Subscreva a Revista Líder aqui.

