Escolhi escrever este texto por dois motivos. Primeiro, a Asa tem estado a publicar as aventuras de Tintin, a grande obra de Hergé, em volumes com vários originais. A chegada de Tintin, seja qual for o formato, é sempre uma festa.
O segundo motivo foi a descoberta de um texto de Manfred Kets de Vries, no site Medium com o título Tintin: The psychology of the boy who refuses to accept a broken world. O artigo está acessível de forma gratuita.
Tintin interpretado por Kets de Vries, um professor de liderança com lente psicanalítica, é demasiado bom para se perder a oportunidade de ler, comentar e recomendar. O texto ajudou-me a perceber porque gosto tanto de Tintin desde que me conheço e o conheço a ele. Tintin habita um mundo como o nosso, cheio de vilões narcisistas, autoridades com propensão para a burocracia, fanatismos vários, fumos de guerra. Mas ele nunca desiste de endireitar o mundo. É isso que faz em cada livro, sendo que cada problema resolvido é apenas um problema a menos num mundo onde os problemas não param de, como diriam no Brasil, pipocar.
Mas o que torna interessante este personagem tão certinho é o curioso grupo que o acompanha: um cão que tem as dúvidas que o dono não tem, um amigo alcoólico descontrolado, dois detetives apatetados, um cientista aluado e uma cantora lírica que faz tremer os vidros. No fundo, podemos ler Tintin como uma lição de liderança: um personagem tão certinho só tem interesse no meio dos seus opostos, com os quais ele aliás se relaciona sem a tentação do julgamento. Um lição intemporal, que talvez explique a longevidade deste herói para jovens dos 7 aos 77.

