Teletrabalho e crianças dependentes

Teletrabalho em tempo de confinamento e crianças dependentes não combinam. Tempos atípicos anunciam respostas atípicas, e temos que ver as coisas por aí.

Como manter a saúde mental dos pais e dos filhos em época de confinamento? Existem várias dicas, inclusive, por parte da Direção-Geral de Saúde (DGS) – a DGS lançou um calendário para os pais ocuparem os filhos durante o dia – em como mantermos os nossos filhos saudáveis e ocupados em época de confinamento. É distribuído um horário ao qual é atribuído atividades e tarefas, de hora em hora, como se os pais não estivessem em teletrabalho. É irrealista. E o que eu reconheço é que pais e filhos têm sido verdadeiros heróis.

Os pais, porque ao terem que atingir as metas da sua organização, no meio disso, têm de fazer comida, lavar, passar, arrumar, e, sobretudo prestar atenção aos filhos. E digo pais que reconhecem que o trabalho doméstico deve ser repartido, agora imaginem aquelas famílias em que só há a mãe ou o pai para fazer todas estas atividades. Dir-me-ão que depende do número de filhos. E é verdade, mas um filho é um mundo e somos nós que preparamos esse mundo. Ora se um mundo é muito, vários mundos, façam a ideia! A empresa exige que o trabalho seja feito, e, no meio de choradeira, repreensões, peso na consciência de não termos sido tão tolerantes quanto devíamos, lá vamos nós fazendo o trabalho. Frustrados muitas vezes também com o trabalho que não tem a qualidade que desejaríamos, que não se regula por um horário das 9:00 às 17:30 (ou 19:00), que após o jantar, lavar a louça e de colocar os miúdos para dormir ainda segue connosco até adormecermos.

Os filhos, porque perante a falta de atenção por parte dos pais se sentem frustrados e como forma de reivindicação utilizam a birra e a contrariedade. Que perante a aula que está a ser dada online, dia após dia, têm dúvidas e os pais não podem ou não conseguem esclarecê-las. Porque discutem com os irmãos, se os tiverem, e não há ninguém a arbitrar em tempo útil a situação. Porque não têm os amigos com eles, e, o refúgio na tecnologia acaba por ser o seu ponto de conforto.

Não somos perfeitos, somos humanos e temos de ter isso em atenção, tentamos fazer as coisas da melhor forma que conseguimos. Se somos heróis, é claro que sim! Uma das razões porque o super-homem consegue salvar o planeta de apuros, provavelmente é porque não tem de repartir o seu tempo com o tomar conta de crianças dependentes em situações de confinamento.

O que me sossega? “Bem ou mal. Bom ou mau. Tudo vai passar ou se acalmar”. (Demétrio).


Por Ana Pinto, Professora Universitária e Consultora em Recursos Humanos

 

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