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Trabalhar a partir de casa: impulsionou a igualdade de género e a saúde humana?

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18 Novembro, 2022 | 7 minutos de leitura

Um amigo meu (vou chamá-lo Jon) partilhou comigo um incidente que lhe aconteceu enquanto trabalhava em casa, durante a pandemia. O Jon estava numa chamada de vídeo. A filha entrou a correr (aparecendo no ecrã), aos berros, com o cotovelo ensanguentado. Embora as lágrimas de uma criança de 7 anos não sejam algo de extraordinário, o que é digno de nota é como a equipa do Jon reagiu: «É a tua filha?», «Oh, uau, tinha-me esquecido que eras pai».

Certo. Supomos, reforçados pelas notícias sobre como a pandemia afetou as carreiras das mulheres, que cuidar é um papel exclusivamente feminino. Um estudo global da Deloitte concluiu que 7 em cada 10 mulheres acreditam que o seu progresso na carreira desacelerou porque o equilíbrio entre vida profissional e pessoal foi alterado durante o período de trabalho forçado em casa. Horas mais longas e cuidados extras significaram tensões na saúde física e mental, especialmente para as mulheres.

As reuniões de vendas e os pontos de situação com os funcionários aconteciam ao mesmo tempo, e no mesmo local, da troca de fraldas e da preparação do jantar. O New York Times considerou os confinamentos globais um golpe ao feminismo e um retorno aos papéis tradicionais de género. Os homens continuavam a trabalhar e as mulheres também, mas estas eram mais propensas a cancelar os planos de férias, a gerir as compras e fazer stock de medicamentos, a ajudar as crianças no estudo em casa e a tentar pôr uma refeição na mesa três vezes por dia. E um estudo da Kaiser Family Foundation concluiu que as mulheres sofreram mais stress do que os homens.

Não há dúvida de que um retorno forçado à domesticidade afetou as mulheres trabalhadoras (assim como todos!). Mas o efeito sobre as carreiras das mulheres é universalmente negativo? Eu não o considero, e aqui está o porquê.

Por muitos anos, tenho feito estudos sobre como o papel de cuidadora das mulheres é desvalorizado e como isso pode afetar negativamente o progresso das suas carreiras, especialmente na procura de funções de liderança. Um estudo que eu e os meus colegas fizemos numa empresa Fortune 100, nos Estados Unidos da América, descobriu que mesmo quando as mulheres trabalhadoras não eram casadas e não tinham responsabilidades com filhos ou idosos, os seus chefes presumiam que o trabalho delas seria perturbado pela família. E, por causa desse “viés de conflito família-trabalho”, esses chefes consideravam as mulheres como menos promovíveis do que os homens. Assim, ser mulher, simplesmente significa que se assume que haverá responsabilidades urgentes de cuidado, e o papel de cuidador ainda resulta na crença dos outros de que as mulheres não são matéria para assumir a liderança.

Apesar de livros como “Mother Leads Best”  e “Lean In”, tanto homens como mulheres abrigam preconceitos profundamente enraizados, muitas vezes subconscientes, contra as mulheres com base em normas tradicionais de género. Quando um homem sai do escritório às 15 horas, os seus colegas tendem a pensar que ele tem uma reunião fora. Mas quando uma mulher sai às 15 horas, os colegas de trabalho podem concluir que ela está a pôr a família à frente da carreira.

Consciente ou inconscientemente, as mulheres com experiência na progressão de carreira, por vezes, escondem e, muitas vezes, minimizam os seus papéis familiares enquanto estão no trabalho. Quanto mais alto na escala organizacional os homens sobem, mais fotografias de família têm nas suas secretárias. Para as mulheres, muitas vezes, é o oposto. Se um homem exibe fotografias de crianças, a sua humanidade é realçada, algo chamado de “prémio de paternidade”. Para as mulheres, as fotografias de família lembram aos outros que ela tem “lealdades divididas” e talvez não seja capaz de servir a sua empresa a 100 %. Esta é a “pena da maternidade”.

Nos países com maior igualdade de género, como a Dinamarca e a Suécia, onde cuidar não é considerado apenas trabalho das mulheres — é algo que todos fazem —, cuidar é menos estigmatizado. Ou seja, as pessoas veem menos a prestação de cuidados como depreciativa para a carreira profissional. O viés “pensar líder-pensar homem” é menos forte quando não se assume que são as mulheres que devem ter a cargo toda, ou a maior parte, do cuidado da casa e da família.

No meu estudo publicado, escrevi que somente quando o maternal se tornar o parental, em todos os lugares, as mulheres deixarão de sofrer penalidades nas suas carreiras por se envolverem (ou se assumir que se envolverão) em papéis familiares.

 

Então, o que tem tudo isto que ver com a COVID-19?

Como o que aconteceu ao meu amigo Jon, para muitos de nós, trabalhar em casa significou uma colisão caótica entre carreira e cuidado. Chamadas de vídeo e de telemóvel foram feitas da cozinha e do quarto do bebé, o que tornou os nossos colegas de trabalho e chefes mais conscientes do que nunca dos papéis que desempenhamos fora das paredes do escritório. A minha colega, Prof. Courtney Masterson admitiu que antes da COVID, se ela tivesse uma teleconferência e o seu filho estivesse em casa, preparava um lanche e vários programas infantis no seu iPad. Mas, a trabalhar em casa durante a pandemia, pensou: «Mas que raio?» e apresentou-o em vídeo a todos os seus colegas de trabalho. Uma decisão muito «novo normal».

O importante aqui é que o novo normal da COVID significou que estávamos a ver mulheres, mas também homens, a desempenhar os seus papéis familiares, às vezes ao vivo, nos nossos computadores e ecrãs de TV. Vimos pais a falar na BBC enquanto os seus filhos, ao fundo, brincavam no chão. Vimos homens a receber os seus parceiros, profissionais médicos, em casa, depois de um dia de trabalho duro, com uma muda de roupa e uma refeição na mesa. Antes do confinamento, os papéis domésticos e familiares dos homens estavam longe da vista e longe do pensamento, mas, agora, os nossos colegas de trabalho evidenciam esses papéis externos em primeira mão.

Talvez pela primeira vez, os papéis familiares de homens e mulheres estejam a ter “tempo igual”. As nossas suposições sobre quem cuida dos filhos e da casa estão em construção, por assim dizer: o que costumávamos pensar como um comportamento materno está agora a tornar-se um comportamento parental. Como agora vemos mais claramente que todos têm uma vida e responsabilidades importantes fora do trabalho, o cuidado pode estar a tornar-se menos associado apenas às mulheres. O poder do papel cuidador em diminuir o potencial de carreira das mulheres está a ser neutralizado. Dessa forma, finalmente, a igualdade de género pode estar a ganhar impulso no local de trabalho, com consequências importantes e positivas para a saúde mental de todos.

 

Este artigo foi publicado na edição de outono da revista Líder

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Jenny M. Hoobler,
Professora de Gestão da Nova School of Business and Economics

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