Apenas este ano visitei, pela primeira vez, Veneza. Veneza é uma daquelas cidades que todos vimos inúmeras vezes. Por causa disso, do excesso de turistas e de uma certa ideia de se tratar de uma cidade para turista ver, deixei-me conquistar pelo preconceito. Estava errado. Explico-o em sete razões. A cidade pode ter sido […]
Apenas este ano visitei, pela primeira vez, Veneza. Veneza é uma daquelas cidades que todos vimos inúmeras vezes. Por causa disso, do excesso de turistas e de uma certa ideia de se tratar de uma cidade para turista ver, deixei-me conquistar pelo preconceito. Estava errado. Explico-o em sete razões.
- A cidade pode ter sido redirecionada para o turismo, mas é um caso extraordinário de identidade urbana: só Veneza é como Veneza, nenhuma outra cidade se lhe compara. Vista de qualquer ângulo, a cidade é uma mistura única de reconhecimento do que já conhecemos e de descoberta de um local onde não estivemos antes.
- A História sente-se a cada passo. A Sereníssima República dominou o mundo e esse poder está presente na urbe. A bandeira do leão alado continua presente como no tempo dos doges. Veneza é uma cidade antiga com o charme das cidades com camadas de História.
- A história de Veneza fez-se na encruzilhada entre dois mundos: Ocidente e Oriente. Essa identidade de encruzilhada (seja de que forma for) marca algumas das mais interessantes cidades (Tóquio ou Quioto, Sarajevo, Moscovo, Istambul) e é particularmente visível nas cúpulas da Catedral de São Marcos, reminiscentes de Bizâncio.
- A presença do passado persiste, em particular em espaços como o gueto, o bairro judeu, onde se vislumbram memórias da cidade descrita por Shakespeare em O Mercador de Veneza. Uma espécie de Jerusalém à beira de água.
- O passado encontra-se também na gastronomia. Provando umas sardinhas à maneira de Veneza, “Sarde in saor”, feitas para as barricas dos navios, penetramos naquela dimensão em que a comida se cruza com a memória.
- Esta é uma cidade de contrastes: a cidade das máscaras e do Carnaval e a cidade que no passado enviava assassinos atrás dos artesãos do vidro que se atrevessem a abandonar a Sereníssima.
- Finalmente, para quem aprecia a beleza como expressão paradoxal, Veneza é um local obrigatório. Eis uma descrição, extraída de Veneza, de Jan Morris: “a eterna disputa veneziana entre modernizar ou preservar Veneza (…) O conflito entre o antigo e o novo, entre o belo e o lucrativo, entre o progresso e a nostalgia, entre a energia e o motor”.
Em resumo, mesmo para os preconceituosos, Veneza vale mesmo a pena. Descobri-o tarde, mas mais vale tarde do que nunca.
Três livros para descobrir Veneza
“Veneza”, de Jan Morris, é um mergulho extraordinário na cidade e na sua História. Cheio de passagens como a citada, é por vezes descrito como “o” livro sobre Veneza. Talvez seja justo. A tradução de Raquel Mouta merece todos os aplausos. Outro livro interessante, na verdade uma reportagem de jornal transposta para livro, é “Veneza, um interior”, de Javier Marías. Trata-se obviamente de uma declaração de amor à cidade – tal como no caso de Jan Morris. Finalmente e noutro registo, “City of Fortune, How Venice won and lost a naval empire”, de Roger Crowley, mergulha na história da Sereníssima e poderosíssima república, mostrando como os impérios se ganham e se perdem.





