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24 Janeiro, 2022 | 7 minutos de leitura

Pensemos no dinheiro. Y. N. Harari convida-nos a pensá-lo como “o sistema mais pluralista de confiança mútua já existente”. Como, usando e mediatizando abundante conhecimento, nos convida a reflectir sobre como a nossa capacidade de relação, de abstracção e de envolvimento em torno de ideias não claramente tangíveis como a amizade, o amor, o passado […]

Pensemos no dinheiro. Y. N. Harari convida-nos a pensá-lo como “o sistema mais pluralista de confiança mútua já existente”. Como, usando e mediatizando abundante conhecimento, nos convida a reflectir sobre como a nossa capacidade de relação, de abstracção e de envolvimento em torno de ideias não claramente tangíveis como a amizade, o amor, o passado e o futuro ou a ideia de comunidade nos permitiram um caminho de evolução. Foi assim ao longo de centenas de milénios, desde as primeiras e os primeiros Homo sapiens. Foi assim nos últimos séculos, com a emergência e desenvolvimento da ciência e da cultura, com forte impacto na quantidade e qualidade de vida. Foi assim nas últimas décadas, com a emergência e desenvolvimento dos direitos humanos, com forte impacto na possibilidade de bem-estar e de equidade.

É-o assim hoje.

Pensemos – através da pandemia COVID-19 que ainda vivemos, mas com olhos nos complexos desafios societais que se avizinham e que incluem a crise climática e demográfica, as migrações ou a transição digital – em tudo quanto aqui nos trouxe, à sociedade como hoje a conhecemos, com o que de bom e de menos bom tem. Tudo, ciência, cultura, direitos humanos, futuro assenta nessa nossa capacidade de nos relacionarmos (e na capacidade sucessiva que temos de empatizar com outras e outros) e de abstração (e na capacidade sucessiva que temos de confiar).

A empatia influencia e é influenciada pela confiança num diálogo essencial à coesão e ao propósito das sociedades, elementos fulcrais em contexto de prolongada incerteza como o que vivemos e que resulta da convivência com uma pandemia que, além da imprevisibilidade que comporta, implicou e acelerou significativas transformações e revelou e aprofundou também significativas vulnerabilidades. A empatia e a confiança são fundamentais à adopção de comportamentos pró-saúde e pró-sociais de cada pessoa e à adesão a recomendações, complementares a medidas restritivas e logo assentes no comportamento individual, como o distanciamento físico, a (boa) utilização de equipamentos de protecção individual e a vacinação. Estes comportamentos, com especial destaque para o exemplar (porque por muitos países estudado e desejado) processo de vacinação português, permitem-nos, ao dia de hoje, ser um dos países da Europa com menores medidas restritivas e que mais faz depender a resposta ao momento ainda difícil da pandemia do comportamento de cada cidadão e cidadã.

Por isso, pelo que representa e significa, não nos surpreendemos que “vacina” seja “palavra do ano”, superando a muito badalada segunda posicionada – “resiliência”. No futuro, quando recuarmos à palavra do ano de 2021, espero que lembremos quanto a confiança (nas vacinas) e o quanto a empatia e relação, por oposição à estigmatização ou exclusão (também de quem tem dúvidas legitimas sobre o processo de vacinação), foram garantes neste período de crise e pilares da coesão social. Em como estas fundamentais abstrações se concretizaram num processo complexo, que respondeu a um problema das pessoas e da sociedade.

E, se assim é na resposta à COVID-19, com os resultados cuja democrática distinção entre factos e opiniões e entre ciência e não-ciência tornam evidência, é-o também com outros desafios societais e com desafios e problemas complexos de organizações, do presente e para o futuro. Aqui, a relação, a empatia e, principalmente, a confiança são base para a concretização de projectos, programas ou acções que respondem a problemas concretos do seu dia-a-dia, como foi a necessidade de passagem ao teletrabalho ou a manutenção da actividade em período de pandemia ou são e serão os desafios da digitalização e automação, transição energética, os crescentes riscos psicossociais do trabalho, a conciliação vida pessoal-profissional e o bem-estar das pessoas.

Ser consequente com esta consideração implica que métricas que procurem aferir valor e produtividade de organizações incluam a necessidade de avaliar e validar a “abstracção” confiança como garante de capacidade de resposta a problemas e desafios e como factor diferenciador e protector no presente e de futuro. Implica, também, que a cultura organizacional verdadeiramente assuma a confiança como valor maior a defender, estimular e disseminar, não apenas, mas também, a partir das suas lideranças. Que se desenhem processos, procedimentos, construam relações e se invista (também recursos), primeira e prioritariamente com base na confiança e não na desconfiança, porque mais empoderador. Que se use do conhecimento de que as pessoas tendem a envolver-se mais no que se sentem auto-eficazes e quando sentem consequente a sua participação, criando agenciamento sobre a confiança na organização, valorizando ao invés de penalizar, quem confia e promove a confiança. Que, afinal, se entenda a confiança como um direito (de todas e todos) e não como dever (de alguns e algumas).

Se assim for – como quando investem em locais de trabalho saudáveis e na promoção do bem-estar das pessoas – as organizações estarão simultaneamente a ganhar valor, a cumprir-se, a preparar o futuro e a contribuir significativamente para a coesão social e para a equidade. E porque, como desconfiança gera desconfiança, mas confiança também gera confiança, para o desenvolvimento de outros poderosos “sistemas pluralistas de confiança mútua” como a ciência, a democracia, os direitos humanos e até a paz.

Voltemos às vacinas. Aquando do último fórum do G20, António Guterres referiu-se-lhes afirmando que “ciência está sobre ataque e a solidariedade desaparecida” pela hesitação face às mesmas e pela dificuldade da sua disseminação a todo o Mundo, sublinhando que “um surto de desconfiança e de desinformação está a polarizar as pessoas e a paralisar as sociedades”. Desinformação que Roberta Metsola, no primeiro discurso como nova presidente do Parlamento Europeu, afirma “alimentar um cinismo fácil e soluções baratas de nacionalismo, autoritarismo, proteccionismo e isolacionismo”. É, assim é, com as consequências que conhecemos.

Invistamos na confiança e no direito a confiar como recurso do país. Como um mineral precioso do tempo que vivemos, que (ainda) temos em Portugal e que escasseia e está em risco Mundo fora. Como um recurso que, porque base para parte significativa das concretizações que podem contribuir para mitigar e resolver problemas das pessoas, das organizações e das sociedades, pode ser diferenciador das nossas organizações e do nosso país, valorizando-as e valorizando-o hoje e para o futuro. Preservemos e invistamos na confiança a partir das organizações enquanto estímulo e exemplo para o país e a partir de Portugal enquanto estímulo e exemplo para o Mundo. Para o Mundo e por um Mundo que continue a evoluir e a garantir maior possibilidade de bem-estar, de equidade e de paz para todas e todos.

 


Por Tiago Pereira, Coordenador do Gabinete de Crise COVID-19 e Membro da Direção da Ordem dos Psicólogos Portugueses

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