Os desastres climáticos derivados das alterações e fenómenos extremos são o novo normal e estima-se que continuem a piorar com o passar dos anos. Pouco atrás ficam as ameaças cibernéticas e a instabilidade geopolítica que agravam o cenário de catástrofe, o que torna urgente reforçar a cooperação internacional e promover uma estratégia de resiliência global.
Em 2024, os eventos climáticos extremos causaram 320 mil milhões de dólares em prejuízos ao redor do mundo, mas menos de metade (44%) foi coberta por seguros, de acordo com o Fórum Económico Mundial. Em Portugal, desde 2017, o Estado gastou mais de 3,5 mil milhões de euros no combate aos incêndios, mas as seguradoras continuam a ter uma presença ineficaz nas regiões que mais padecem de fogos florestais.
Este desfasamento crescente ameaça a estabilidade económica mundial e exige um reposicionamento estratégico por parte das seguradoras, governos e instituições financeiras. Se não for resolvido, os mercados correm o risco de continuar a desestabilizar, aprofundar a desigualdade e prejudicar o progresso em direção às metas climáticas e de desenvolvimento. O que tem de mudar?
Reforçar e preservar a segurabilidade num mundo em aquecimento
O aumento da frequência e da gravidade dos eventos climáticos extremos está a criar uma pressão inédita sobre os sistemas de seguros globais. Este cenário tem dois impactos especialmente graves:
- No Sul Global, as populações mais vulneráveis enfrentam um défice crónico de proteção, dado que os prémios de seguro são elevados e as soluções de cobertura escassas;
- No Norte Global, as seguradoras estão a retirar cobertura de zonas de risco elevado devido ao aumento dos sinistros, elevando os prémios e dificultando o acesso à proteção.
Esta realidade gera um ciclo vicioso: quanto menos pessoas e empresas são seguradas, maior é o risco residual, o que aumenta os custos para os restantes e ameaça a estabilidade económica.
Um dos principais problemas está no subinvestimento global em Redução do Risco de Catástrofes (DRR). Atualmente, 88% do financiamento internacional destina-se à resposta pós-desastre, deixando a prevenção para segundo plano. Porém, segundo o U.S. Department of Commerce, cada dólar investido em resiliência pré-desastre gera 13 dólares em benefícios económicos a longo prazo.
Soluções eficazes passam por parcerias público-privadas que incentivem a prevenção e adaptação climática. Um exemplo disso é o modelo IBHS Fortified Standards, que integra seguradoras, reguladores e setor imobiliário para reforçar a resiliência das habitações. A sua aplicação na reconstrução de áreas afetadas por incêndios e cheias nos EUA mostra como os seguros podem atuar não só como proteção financeira, mas também como catalisadores da redução de risco.
Redefinir o papel do seguro como parceiro estratégico da resiliência
Tradicionalmente, o setor segurador era visto apenas como um amortecedor financeiro — pagando indemnizações após um desastre. Hoje, essa perspetiva está a mudar rapidamente.
As seguradoras têm acesso a enormes volumes de dados climáticos, modelos de risco avançados e capital de longo prazo, colocando-as numa posição única para influenciar decisões estratégicas que afetam a resiliência coletiva. Exemplos práticos incluem:
- Proteção de ecossistemas costeiros: assegurar mangais e recifes de coral que atuam como barreiras naturais contra cheias;
- Produtos paramétricos para agricultores: pagamentos automáticos baseados em índices de seca ou cheias, garantindo liquidez imediata em cenários de crise;
- Inclusão financeira: soluções de microseguro para trabalhadores informais e pequenas empresas que, de outra forma, ficariam excluídas da proteção.
Além disso, os preços dos seguros e a avaliação de riscos têm um impacto direto nos comportamentos empresariais e governamentais. Ao incorporarem inteligência de risco no planeamento urbano, nas cadeias de abastecimento e nas decisões de investimento, as seguradoras tornam-se parceiras estratégicas para decisões mais adaptativas e sustentáveis.
Mobilizar investimentos em infraestruturas resilientes em larga escala
Um dos maiores desafios da próxima década será financiar infraestruturas resilientes capazes de suportar os impactos climáticos extremos. Isto é especialmente crítico nos países em desenvolvimento, que enfrentam os riscos mais elevados, mas têm menos recursos para os mitigar.
Para responder a esta necessidade, o Insurance Development Forum (IDF) lançou o Infrastructure Resilience Development Fund. Este fundo alia capital da indústria seguradora, análise de risco e consultoria técnica para implementar hábitos como identificar projetos de energia limpa, sistemas de água e transportes resilientes;
Foca-se também em reduzir riscos para investidores privados, através de modelos de financiamento misto (blended finance) e atrair investimento internacional para as regiões mais vulneráveis.
O impacto é duplo: reduz o risco para investidores e, ao mesmo tempo, aumenta a capacidade de adaptação das comunidades. Este modelo está a ganhar escala e poderá servir como referência global para acelerar a transformação sustentável.
As seguradoras estão mesmo a tornar-se numa ferramenta de transformação sistémica que pode redefinir a relação entre risco, resiliência e crescimento sustentável. Resta fazer com que passem de um papel reativo para uma função proativa, em conjunto com instituições e governos.


