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Home Internacional Notícias Sustentabilidade Um buraco na Terra: tempestades, calor e um mundo fora de medida

Sustentabilidade

Um buraco na Terra: tempestades, calor e um mundo fora de medida

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28 Abril, 2026 | 6 minutos de leitura

O céu parece ter perdido a memória da medida. Primeiro vieram as tempestades súbitas, pesadas, quase furiosas, a rasgar o país de norte a sul. Rajadas de vento, descargas elétricas, ruas inundadas em minutos. Casas danificadas, infraestruturas fragilizadas, e um território que ainda hoje, meses depois, continua a tentar recompor-se do impacto: estradas degradadas, acessos condicionados, falhas persistentes em zonas onde a recuperação não chegou ao mesmo ritmo do dano. Mas a história não acaba na nossa costa. O que acontece aqui faz parte de um retrato maior, mais inquietante.

Do outro lado do mundo, no Japão, os meteorologistas já precisaram de inventar uma nova palavra para explicar o calor extremo que se repete todos os verões: ‘kokushobi’, algo como calor brutal. Dias seguidos acima dos 35 graus, cidades onde o asfalto parece respirar fogo e hospitais a receber pessoas desidratadas antes mesmo do meio-dia.

Entre estes dois extremos, a água que destrói e o calor que sufoca, desenha-se um padrão que já não parece episódico, mas contínuo. Um sistema climático em que a exceção se aproxima cada vez mais da regra.

 

Portugal sob pressão: as tempestades do início do ano

As tempestades que atingiram Portugal deixaram um rasto de destruição disperso mas consistente. Em vários distritos do continente, registaram-se inundações súbitas, derrocadas de encostas, estradas cortadas e falhas prolongadas de energia. Houve quem tivesse perdido a vida, e outros ainda não a viram devolvida. O padrão repetiu-se: precipitação intensa num curto espaço de tempo, seguida de saturação dos solos e incapacidade de resposta das infraestruturas locais.

No norte e centro do país, os impactos foram particularmente visíveis no território rural. Pequenas vias ficaram intransitáveis, estruturas agrícolas foram danificadas e várias explorações reportaram perdas significativas de produção. Em algumas zonas, os danos não resultaram apenas da intensidade da chuva, mas da repetição de episódios num intervalo curto, sem tempo de recuperação entre eventos.

As autoridades de proteção civil alertaram para a acumulação de ocorrências associadas a depressões sucessivas, sublinhando que a vulnerabilidade não está apenas na força de cada tempestade, mas na sequência contínua de fenómenos extremos. Este encadeamento tem vindo a aumentar a pressão sobre municípios com menos recursos técnicos e financeiros.

Como alertou o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, a crise climática é «um código vermelho para a humanidade», num cenário em que os fenómenos extremos deixam de ser exceção e passam a padrão.

 

Calor extremo: o caso do Japão e a normalização do limite

Enquanto a Europa ocidental enfrentou precipitação extrema, outras regiões já estão a lidar com o extremo oposto. No Japão, os últimos verões têm sido marcados por ondas de calor persistentes e temperaturas acima dos limites históricos, com impacto direto na saúde pública e na organização urbana.

O fenómeno levou as autoridades meteorológicas a reforçarem a comunicação de risco e a introduzirem terminologia específica para episódios de calor extremo prolongado: ‘kokushobi’. Em várias cidades, a combinação de humidade elevada e temperaturas elevadas tem resultado em alertas recorrentes para risco de insolação e colapso físico.

A repetição destes episódios está a alterar a forma como o país gere o verão: horários de trabalho ajustados, restrições em eventos ao ar livre e campanhas permanentes de prevenção. O calor deixou de ser sazonal para se tornar estrutural em determinados períodos do ano.

 

Seca e desigualdade: quando o impacto não é distribuído

Nos países mais vulneráveis economicamente, os efeitos das alterações climáticas assumem frequentemente formas mais severas e menos mitigáveis. Secas prolongadas em regiões da África Subsariana, partes do Sul da Ásia e América Latina têm comprometido colheitas, reduzido o acesso a água potável e aumentado a insegurança alimentar.

A irregularidade das chuvas e a intensificação de períodos secos prolongados afetam sobretudo populações dependentes da agricultura de subsistência. Nestes contextos, a ausência de sistemas de irrigação robustos ou de redes de proteção social agrava o impacto de fenómenos meteorológicos extremos.

O resultado é um padrão recorrente: os países menos responsáveis historicamente pelas emissões são frequentemente os mais expostos aos efeitos mais severos. A desigualdade climática torna-se, assim, também desigualdade estrutural.

 

Respostas globais: conferências, metas e limitações

A resposta internacional ao agravamento dos fenómenos climáticos tem-se centrado em conferências multilaterais, acordos de redução de emissões e mecanismos de financiamento climático. No entanto, a distância entre compromissos e execução continua a ser uma das principais fragilidades do sistema global.

As conferências das Nações Unidas sobre o clima têm reforçado a necessidade de adaptação, especialmente para países mais expostos. Ainda assim, os relatórios mais recentes apontam para um desfasamento entre os objetivos definidos e a trajetória real das emissões globais.

Assim, e pelo bem da humanidade, organismos internacionais insistem na necessidade de acelerar medidas de mitigação e reforçar os mecanismos de solidariedade climática, mas o processo continua dependente de consensos políticos lentos e assimétricos.

O que se prepara: cidades entre adaptação e sobrevivência

Em Portugal e na Europa, a adaptação deixou de ser um conceito técnico para passar a ser uma linha de planeamento urbano: gerir cheias, calor extremo, falhas de drenagem e pressão sobre infraestruturas críticas. Em Lisboa, por exemplo, os instrumentos municipais de adaptação têm vindo a integrar cenários de ondas de calor, precipitação intensa e inundações urbanas, com a revisão de sistemas de drenagem, espaços verdes e zonas de retenção de água como resposta direta ao aumento de eventos extremos. A Câmara Municipal de Lisboa tem vindo a enquadrar esta estratégia na lógica de resiliência urbana e proteção de população vulnerável.

Este movimento não é isolado. A nível europeu, a adaptação climática está a ser incorporada no planeamento urbano como prioridade estrutural, com cidades a desenvolverem planos próprios de resiliência, soluções baseadas na natureza e sistemas de alerta mais rápidos. A União Europeia tem reforçado o papel das cidades como linha da frente da adaptação climática, precisamente porque é aí que os impactos se tornam mais imediatos e mais caros de corrigir.

Em várias cidades europeias — de rotas fluviais como Amesterdão a zonas costeiras no sul da Europa — a resposta passa por redesenhar o espaço urbano. Mais permeabilidade do solo, mais retenção de água, mais sombra e menos exposição térmica.

Ainda assim, a distância entre planeamento e realidade continua visível. Os planos existem, os cenários estão identificados, mas a velocidade dos eventos extremos continua a testar a capacidade de execução no terreno.

Marcelo M. Teixeira,
Jornalista

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