No palco da Leading People – International HR Conference 2026, realizada no Centro Cultural de Cascais, a historiadora Raquel Varela não levou ao auditório um discurso optimista sobre inteligência artificial, produtividade ou inovação empresarial. Levou números, alertou sobre o conflito que vivemos e deixou uma pergunta desconfortável: que futuro pode existir para o trabalho quando o presente já é marcado pela exaustão, pelos baixos salários e pela degradação das condições de vida?
«A primeira nota para iluminar o futuro do trabalho é talvez dizer-vos o que é o presente do trabalho», começou por afirmar, antes de traçar um retrato duro da realidade laboral portuguesa, lembrando que mais de um milhão e duzentos mil trabalhadores recebem o salário mínimo nacional e que apenas «2,5% ganham mais de dois mil euros líquidos por mês».
Para a historiadora, Portugal vive um processo de compressão salarial que está a transformar o salário mínimo numa espécie de salário padrão, empurrando uma parte crescente da população ativa para situações de sobrevivência permanente.
«A maioria dos portugueses não consegue viver com o salário que tem, embora trabalhe oito horas por dia», afirmou.
Assista ao momento completo:
Assédio moral tornou-se «forma de gestão corrente»
Um dos momentos mais fortes da intervenção surgiu quando Raquel Varela abordou a normalização do assédio moral nas empresas, descrevendo-o como uma ferramenta estrutural de gestão laboral.
«O assédio moral no trabalho tornou-se a forma de gestão corrente», disse, citando estudos realizados junto de dezenas de milhares de trabalhadores portugueses, segundo os quais cerca de quarenta por cento afirmam sentir-se alvo desse tipo de pressão no emprego.
A historiadora ligou ainda o aumento da precariedade ao crescimento dos horários prolongados, defendendo que o trabalho extraordinário deixou de ser excepcional para passar a integrar a rotina de milhares de trabalhadores.
«Mais de metade da força de trabalho em Portugal trabalha cinquenta a setenta horas por semana», afirmou, alertando para as consequências devastadoras dessa realidade ao nível da saúde física e mental.
Emigração, baixos salários e um país montado para exportar mão-de-obra
Ao longo da intervenção, Raquel Varela insistiu várias vezes na ideia de que Portugal continua preso a um modelo económico assente em baixos salários, turismo e trabalho de reduzido valor acrescentado.
«Aquilo que se faz cá é montagem e depois reexportação», disse, referindo-se à indústria automóvel instalada no país, defendendo que grande parte da produção nacional continua dependente de tarefas industriais menos qualificadas, enquanto o desenvolvimento tecnológico e científico permanece concentrado noutros países.
Nesse contexto, apontou a emigração como consequência inevitável.
«Temos uma emigração constante da força de trabalho qualificada e da força de trabalho não qualificada», afirmou, lembrando que muitos trabalhadores conseguem ganhar em poucos meses no estrangeiro aquilo que demorariam quase um ano inteiro a receber em Portugal.
«A tecnologia não é neutra»
O debate sobre inteligência artificial acabou por ocupar o centro da reflexão da historiadora, mas num tom muito distante da visão triunfalista que domina boa parte das discussões sobre inovação tecnológica.
Para Raquel Varela, o problema não está na existência das máquinas, mas no modelo económico e político que decide como elas são utilizadas.
«A questão fundamental da tecnologia é perguntar para quem é que se produz essa tecnologia, ao serviço de quem», afirmou.
Segundo a investigadora, a automação e a digitalização já começaram a atingir profissões tradicionalmente associadas à autonomia intelectual, incluindo médicos, professores, jornalistas e advogados, num processo que poderá aprofundar a degradação dos serviços públicos e acelerar novas formas de exclusão laboral.
O trabalho como essência humana
Numa das passagens mais filosóficas da intervenção, Raquel Varela recuperou o debate entre William Morris e Edward Bellamy para discutir aquilo que considera ser a grande questão do século XXI: abolir o trabalho ou transformá-lo.
«O trabalho era a nossa própria humanidade», afirmou, evocando também o pensamento de Karl Marx para defender que o trabalho vai além do da sua dimensão económica, sendo também um elemento central da construção humana, da criatividade e da participação social.
A historiadora rejeitou ainda a ideia de uma sociedade sustentada apenas por rendimento básico universal e substituição massiva de trabalhadores por inteligência artificial.
«Pior do que um mau trabalho seria o não trabalho de todo», disse.
«Educação não é entregar um produto»
Já perto do final, a intervenção ganhou um tom quase político, transformando-se numa defesa clara da dimensão humana do trabalho contra a lógica puramente produtiva da automação.
«Educação não é entregar um produto, é transformar pessoas», afirmou.
Foi também aí que deixou uma das frases mais fortes da conferência.
«Podemos utilizar a IA para acabar com o trabalho das senhoras que limpam casas de banho e transformá-las em professoras de filosofia. Não devemos utilizar a tecnologia para acabar com os trabalhos como professor de filosofia.»
E terminou com outra questão: «Qual é o sentido do trabalho? Porque essa pergunta é: qual é o sentido da humanidade?»
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Além disso, à chegada, todos receberam a mais recente edição da revista Líder. Dentro do tema de capa – Condição Humana – encontram-se reflexões, entrevistas e artigos que aprofundam o debate deste dia.


