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África

Bonga: As mensagens das minhas canções «foram mais longe do que o discurso dos políticos»

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2 Junho, 2026 | 4 minutos de leitura

O icónico cantor angolano passou pelo Coala Festival, que decorreu nos dias 30 e 31 de maio, em Cascais. A ‘Líder’ conversou em exclusivo com o compositor de êxitos como ‘Mariquinha’ e ‘Olhos Molhados’.

Há artistas que não se circunscrevem a fronteiras ou gerações. Bonga é um destes ícones e provou-o ao subir ao palco do Coala Festival, aos 83 anos de idade, com um concerto que celebrou a lusofonia e, nas suas palavras, a «africanidade». Ao fim da tarde de sábado, não houve quem resistisse ao ritmo da sua dikanza, tradicional reco-reco angolano, e balanço da banda.

Mas o seu percurso na música foi tudo menos fácil. José Adelino Barceló de Carvalho chegou a Portugal antes de ser Bonga, nome que significa ‘aquele que vê’. Nascido em Angola em 1942, na província do Bengo, veio a convite do Sport Lisboa e Benfica, aos 23 anos, para correr pelo clube. Destacava-se nas provas de 100, 200 e 400 metros.

Bonga atuou no Coala Festival, no Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais, no dia 30 de maio.

Envolvido nos movimentos de resistência à colonização portuguesa em Angola, viu-se forçado ao exílio enquanto vivia em Portugal e foi aí que a música se instalou na sua vida. Encontrou nas canções uma forma de preservar a identidade cultural angolana e dar voz às aspirações de liberdade do seu povo. Gravou o primeiro disco ‘Angola 1972’ nos Países Baixos, que atravessaram oceanos e se tornaram símbolos de revolução e luta.

Mas apenas após o 25 de abril descobriu a dimensão das suas canções e pôde, finalmente, começar a cantá-las. E fê-lo porque, nas suas palavras, «havia coisas para dizer». «Cantando foi a melhor forma que encontrei e tive condições e garganta para isso!», referiu, à Líder.

Essas mensagens foram muito mais longe que os discursos dos políticos.

Levar o quimbundo para o mundo

Apesar de um início conturbado, a sua relação com Portugal é pautada por emoção e orgulho. Não só está radicado em Lisboa há vários anos, como criou «amizades e afinidades» que marcaram a sua história no país. «Foi ma-ra-vi-lho-so», acrescentou, sempre com uma boa disposição que dissimula a idade.

E viu nas línguas que compõem a lusofonia as portas para o mundo. «Fui conhecer outros lugares, claro, como não podia deixar de ser, levando comigo tanto a língua portuguesa como a língua quimbundo, do banto, da minha Angola querida».

Apesar de levar o país de nascença no coração e na garganta, não deixa de lamentar «o estado em que está». Mas vê o futuro com bons olhos, especialmente pelas eleições que se avizinham, em 2027. «Espero que haja um contributo das pessoas de bem e democráticas. Para que, de facto, possamos sentir a mudança e a felicidade nas pessoas. Isso para mim é fundamental.»

Celebrar a ‘africanidade’ com foco na família

O Coala Festival veio do Brasil – onde acontece desde 2014 – para Portugal há três anos, na esperança de criar um ‘irmão mais novo’ para celebrar a música cantada em português. Bonga é o primeiro a reconhecer o poder da lusofonia na união de Portugal e os PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa), mas não apenas pelo português. «Com o calão, com a gíria e com o dialeto nós vamos muito longe. Esta língua leva-nos muito longe. Temos comunicabilidade e até há estrangeiros que seguem, aprendem e tiram cursos para falar», disse.

Ritmos como o semba, popularizados por Bonga numa época em que os ouvidos portugueses estranhavam tais sonoridades, abriram portas a inúmeros artistas que hoje fundem géneros e culturas sem receios. O cantor não esconde o orgulho pelo caminho que trilhou, mas faz questão de incentivar os jovens músicos angolanos a conquistar o seu próprio lugar. «Muitos ficam à espera de ajuda, mas a única ajuda é você. Trabalha, abre o buraco, abre a porta, abre a janela, viaja, contacta com as pessoas. Isto é o mínimo que eu posso desejar a todos os jovens que querem seguir uma carreira musical.»

E quanto aos temas das canções, pede que se foquem no que, segundo ele, caracteriza a cultura africana. «Deve ser focada na família. Nós, os africanos, somos muito de família. Somos muito terra-terra. O pai do outro é teu pai também, a mãe do outro é tua mãe, é tua tia, tia do outro. Essa ‘africanidade’ deve existir todos os dias», relembrou.

Urge ainda a que não esperem pelo que já é mediático e conhecido. «Não devemos ficar à espera de ver coisas da televisão, sobretudo americanas, que não nos interessam nada. Nós temos tradição», concluiu.

 

Fotografias: Vai Véi

Leonor Wicke,
Jornalista e Coordenadora Editorial

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