De 13 a 28 de junho, o Festival Espanto regressa para uma nova edição dedicada ao tema do Desejo, reunindo pensadores, escritores, artistas e académicos nacionais e internacionais em vários encontros, conversas e momentos de reflexão.
Entre os convidados está Onésimo Teotónio de Almeida, ensaísta, filósofo e uma das vozes mais influentes do pensamento português contemporâneo. Antes de subir aos palcos do festival, falou à Líder sobre identidade, saudade, pertença, diálogo e os desafios intelectuais de um mundo cada vez mais fragmentado.
Viveu décadas entre dois mundos – os Açores, Portugal, os Estados Unidos. O desejo de pertença e o desejo de partir são forças contraditórias ou complementares?
São aparentemente contraditórias, mas ao longo de uma vida constantemente a atravessar o largo Rio Atlântico (antes da pandemia, cheguei a fazer ida e volta dez vezes num ano) acabaram por ser complementares. Desejei sempre experienciar o melhor dos dois lados e tive a sorte de conseguir. Hoje, aposentado, tornou-se ainda bem mais fácil: durante metade do ano a base é em Providence, Rhode Island, nos EUA, e a outra metade é nos Açores, em S. Miguel. Disse “base”, porque, na prática. Há que continuar cruzando o Atlântico de um lado para o outro.
A sua obra questiona a «obsessão da portugalidade». Há algo de desejo nessa obsessão – um querer ser que nunca se resolve?
Sim, Portugal confronta-se há muito com um problema de identidade. Obviamente que essa preocupação se reflete nos escritos e na conversação de uma minoria mais voltada para debates para além das matérias do quotidiano. E ela surge naturalmente entre as pessoas que se confrontaram com outros países, sobretudo os que viveram algum tempo no estrangeiro, porque é no confronto direto de culturas que estas questões surgem. Um transmontano que nunca saiu da sua aldeia nunca tem problemas de identidade cultural.
Os recuos em Portugal face o mundo que uns quantos navegadores abriram nos séculos XIV e XV. A tocha da abertura à modernidade passou para o centro e norte da Europa, provocando um atraso crescentemente significativo. Quando, passados dois séculos, a diferença se tornou notória, o problema da identidade começou a emergir nos debates sobre o país, o nosso passado e os rumos a seguir. Mas nas últimas décadas essa questão perdeu acuidade. O meu trabalho tem sido apenas o de esclarecer confusões (há muitas!) procurando fazer alguma luz, e não propor receitas.
Critica há muito os mitos identitários portugueses, da saudade ao sebastianismo. São esses mitos formas de desejo ou formas de fuga ao desejo?
Colocado em termos de desejo, poderíamos resumir assim: saudade é um desejo de se ficar no passado; o sebastianismo é um desejo de um novo futuro, mas que se fica apenas na espera sonhadora sem nada se fazer para que esse futuro aconteça. É uma simplificação exagerada, reconheço. O sebastianismo de Fernando Pessoa não cabe nesta síntese. Mas já escrevi um livro inteiro sobre isso a explicar a diferença – Pessoa, Portugal e o Futuro (Lisboa: Gradiva, 2014).
O pensamento filosófico português tem sido incluído no diálogo filosófico internacional ou continua a olhar demasiado para dentro de si próprio?
Não posso generalizar pois muita atividade filosófica é praticada longe dos olhares do grande público e em revistas especializadas. Não tenho a veleidade de conhecer tudo o que é publicado. Embora as questões filosóficas de fundo continuem as mesmas de sempre, há grandes tradições que divergem entre si na abordagem. No mundo anglo-americano predomina a tradição analítica, que faz um salto dos gregos para Descartes e Kant, mas depois praticamente abandona a conversação com a Europa continental e entronca essas questões no empirismo inglês de Locke e Hume, e desembocando na filosofia analítica que domina todo o mundo anglo-americano. A filosofia portuguesa foi sempre muito avessa a essa tradição. Hoje em Portugal há um pequeno grupo que a segue, mas ela é tão especializada e tão ligada à língua inglesa que não é fácil para alguém que não conheça a fundo a língua inglesa integrar-se nela, mas dialogam entre si nesse paradigma. É mais expressivo o grupo que segue a tradição europeia continental. Aí, a diversidade é grande e confesso que não vejo atualmente nenhuma tradição predominante, mas sim intervenções individualizadas seguindo uma variedade de tradições. A conversação nacional é conduzida por alguns expoentes de qualidade nas suas áreas específicas. A nível internacional, ela ocorre de forma um tanto restrita ao mundo ibero-americano.
Estamos ainda presos a modelos demasiado eurocêntricos de pensamento ou essa questão já mudou substancialmente desde que a colocou pela primeira vez?
Portugal está hoje aberto ao mundo e há muita gente altamente informada e culta. Tenho, todavia, a impressão de que muitos dos pensadores desistiram de intervir publicamente por falta de espaço público. Desapareceram os suplementos culturais e as revistas transversais, abertas a ensaios de mais fôlego do que os 5 mil caracteres das crónicas. O número de leitores dispostos a ler ensaios também diminuiu imenso porque toda a gente tem uma miríade de curtos textos que se sente impelida a ler para estar a par. Infelizmente, não creio que isso aconteça apenas em Portugal.
O que acontece quando pessoas de culturas e geografias diferentes se juntam para pensar em conjunto? Há um desejo comum que emerge?
O desejo de dialogar é grande. Todavia, quanto mais cheia é a praça pública onde se dialoga, mais difícil é conseguir-se um diálogo profícuo. O mundo moderno explodiu em todas as direções e a conversação tornou-se quase impossível por falta de uma linguagem comum. O tempo necessário para aferir linguagens entre interlocutores, de modo a partilharem o vocabulário, pelo menos os termos-chave, ultrapassa o tempo disponível por parte dos mesmos e, muito menos ainda, da parte do auditório. Por mim, prefiro sempre dialogar com grupos pequenos e, sobretudo, com pessoas que aceitaram ler previamente um texto para ser debatido. É o ideal que se consegue numa sala de aula. Ora, isso é quase impossível de ser replicado fora dela.
No fim de um encontro como este, o que espera que fique nas pessoas?
Primeiro, venho sempre com um espírito aberto e cheio de curiosidade para descobrir e encontrar pessoas interessadas em dialogar sobre as questões que me interessam. Descubro sempre gente interessante com quem dá gosto dialogar e também costumo levar sugestões de leitura que devo fazer. Mas – e não vou esconder este segundo aspeto – também gosto de me encontrar com leitores que conhecem os meus escritos e têm dúvidas e objeções, o que proporciona bons momentos de conversa. Já vou fazer oitenta anos, mas felizmente tenho tido bastante saúde para ainda sentir muito prazer no diálogo direto com o público interessado. Neste caso, o encontro é menos generalista do que é ohabitual noutro tipo de festivais e, por isso, estou ainda bastante mais curioso e motivado.
O tema da edição anterior do Espanto foi o medo. Tem medo dos tempos que vivemos?
Sou um otimista nato, quase inveterado. Sei que há razões para se ter medo, particularmente quando temos consciência das capacidades de autodestruição existentes hoje no planeta. Mas o medo é um estado de espírito que pode levar tanto à inação quanto a atitudes loucas. Um pessimista dizia-se otimista, afirmando que ao menos hoje é melhor do que amanhã. Eu acho, porém, que, se deixarmos de desejar um amanhã melhor do que hoje, contribuiremos para a autodestruição que todos receamos.



