Nos últimos anos, tenho feito investigação no campo da Inteligência Artificial (IA). Contudo, isso não tem provocado (espero) uma adesão acrítica às novas tecnologias e às suas possibilidades. Aliás, dei por mim a pensar no impacto da digitalização da vida e do trabalho a que temos assistido nas últimas décadas. Além dos evidentes benefícios, parece que, como sociedade, ainda não aprendemos o suficiente sobre os efeitos que têm nas nossas vidas. Deixo três considerações. Serão basicamente negativas, já que as positivas são mais conhecidas.
Um dos efeitos mais expressivos da digitalização (principalmente da Internet) é a quantidade de informação a que agora temos acesso. E, além da quantidade, a imediatez e o baixo custo, que muitas vezes é nulo. Este fenómeno faz pensar.
Depois de séculos em que o acesso à informação implicava enormes desafios, somos uma sociedade que tem acesso a tudo, imediatamente e de graça (exagerando um pouco, naturalmente). A IA é mais um passo neste caminho. Não tenho, neste momento, espaço para elaborar sobre as consequências desta mudança, tanto no âmbito profissional como no pessoal. Pensemos apenas nas possíveis perdas de tempo e de foco, na dispersão mental que tantos dados podem provocar ou nos potenciais bloqueios à decisão. Gerir esta abundância é difícil.
Mas a informação não esgota a questão. Além de informação, temos acesso a todo o tipo de aplicações e funcionalidades. Uma das mais preocupantes é o jogo online. O fenómeno é o mesmo: o que antes exigia deslocações, restrição a determinados horários, maior facilidade em controlar a idade, maior exposição social, é atualmente obtido com toda facilidade e privacidade.
Devo dizer que fiquei surpreendido quando, já há meses, li na comunicação social sobre o aumento acentuado das autoexclusões do jogo online em Portugal, que abrangia na altura mais de 326 mil pessoas (2025). Um fenómeno desta magnitude atinge certamente as empresas e reduz a produtividade. E a adição do jogo é apenas uma das muitas dependências que a digitalização facilita. Também poderíamos referir as redes sociais e os problemas associados, nomeadamente na juventude.
Na terceira e final consideração, podemos falar dos telemóveis. Antes de existirem e terem acesso à Internet, os temas que vimos atrás tinham uma barreira natural: se estávamos fora de casa ou do escritório, ficávamos necessariamente afastados do mundo digital. A situação mudou radicalmente. A digitalização acompanha-nos quase 24 horas por dia. Se o descontrolo no acesso à informação era fácil, agora é facílimo. Se as adições eram gravosas, agora podem ser terríveis. É mais difícil separar a vida pessoal e familiar da vida profissional. A tirania das notificações não nos dá descanso. E o verdadeiro descanso parece mais difícil, bem como as relações humanas cara-a-cara.
Este texto é propositadamente negativo. A conveniência e a agilidade do digital são sobejamente conhecidas. As consequências negativas também são sabidas, mas julgo que não estamos a reagir o suficiente. De algum modo e apesar das décadas que já passaram, parece que tudo isto ainda é muito novo. Avançamos no uso da tecnologia, atraídos pela sua conveniência, e só mais tarde descobrimos o outro lado da moeda. Algo de semelhante irá acontecer com a IA.
O que podemos fazer? A tecnologia e as suas possibilidades são claramente para aproveitar. Mas devemos ser nós a controlar a digitalização e não ser controlados por ela. Muitas coisas concretas se poderiam dizer. A título de exemplo: desligar as notificações no telemóvel (pelo menos nalguns momentos), detetar o começo de adições e procurar contrariá-las no início, ser rigoroso no aproveitamento do tempo (o scrolling infinito no Instagram ou no LinkedIn), ter um momento de jejum digital, conjugado talvez com o contato com a natureza e o convívio em família.

