A geografia condena alguns lugares à importância. O estreito de Ormuz, entre a costa meridional do actual Irão e a península Arábica, estreita passagem marítima que liga o Golfo Pérsico ao oceano Índico, funciona há séculos como uma espécie de garganta por onde passam riquezas, exércitos, mercadores e impérios. Há quinhentos anos, porém, Ormuz era mais do que uma passagem: era uma das dobradiças do mundo. E foi precisamente aí que Portugal decidiu fincar a sua bandeira.
No início do século XVI, quando a Europa ainda começava a compreender a dimensão planetária das viagens oceânicas, os portugueses já haviam descido a costa africana, dobrado o Cabo da Boa Esperança e alcançado a Índia. A expansão deixara de ser apenas uma sucessão de viagens marítimas e começava a adquirir a arquitectura de um império. O objectivo era controlar os pontos nevrálgicos por onde circulavam as mercadorias que alimentavam as economias do Oriente: especiarias, pérolas, tecidos, pedras preciosas, seda e, sobretudo no caso de Ormuz, cavalos.
A ilha era pequena, árida e aparentemente pouco generosa. Mas a sua posição fazia dela uma jóia estratégica. Afonso de Albuquerque percebeu-o com uma lucidez quase brutal.
A ilha onde se encontravam três mundos
Quando os portugueses chegaram a Ormuz, em 1507, encontraram uma sociedade mercantil cosmopolita, ligada às costas da Pérsia, da Arábia e da Índia. A cidade de Ormuz constituía um dos grandes entrepostos comerciais do Golfo Pérsico, beneficiando precisamente da sua posição entre diferentes circuitos marítimos e terrestres.
A importância da ilha ia além do que produzia, e consistia no que conseguia fazer circular. Ali chegavam mercadorias provenientes do interior da Pérsia, da Índia e da Península Arábica. Dali partiam navios para diferentes portos do Índico. O poder de Ormuz assentava, portanto, numa forma sofisticada de intermediação: quem controlasse a ilha podia exercer influência sobre as artérias comerciais que convergiam para o Golfo.
Albuquerque compreendeu que não precisava de possuir todos os territórios por onde passavam as mercadorias. Se controlasse as portas, isso bastar-lhe-ia. Em Setembro de 1507, uma esquadra portuguesa comandada por Afonso de Albuquerque apareceu diante de Ormuz. A superioridade da artilharia portuguesa revelou-se decisiva. Depois do confronto, o soberano local reconheceu a soberania do rei D. Manuel I e aceitou pagar um tributo anual de 15 mil ashrafis. Albuquerque iniciou também a construção de uma fortaleza junto ao palácio real.
Era o primeiro acto de uma história que haveria de durar mais de um século. Mas Albuquerque ainda não possuía a ilha verdadeiramente.
O primeiro erro e o regresso
A conquista de 1507 foi imperfeita. Em Fevereiro de 1508, problemas dentro da própria armada obrigaram Albuquerque a abandonar Ormuz antes de a fortaleza estar concluída. A presença portuguesa ficou, durante alguns anos, suspensa entre a ameaça e a promessa.
Entretanto, o mundo político em redor de Ormuz transformava-se. Na Pérsia, a dinastia safávida, fundada por Shah Ismail I em 1501, consolidava um novo Estado e estabelecia o xiismo como religião oficial. O equilíbrio regional tornava-se mais complexo. A oeste estava o Império Otomano; a leste, diferentes poderes disputavam territórios e rotas; no Golfo, Ormuz continuava a ser uma peça cuja importância nenhum soberano podia ignorar. Albuquerque percebeu que Ormuz deixara de ser uma questão de comércio para se converter numa questão de poder, e que, por detrás da circulação das mercadorias, se jogava afinal a posse das artérias geopolíticas que ligavam o Índico à Pérsia.
Se Ormuz caísse sob influência safávida, Portugal poderia perder uma das suas posições essenciais para o controlo do comércio entre o Índico e a Pérsia. A ameaça era tanto económica como estratégica. Por isso, em 1515, Albuquerque regressou. Desta vez, não vinha para negociar. Vinha para ficar.
1515: Portugal instala-se à porta da Pérsia
Em Março de 1515, Albuquerque retomou Ormuz e estabeleceu definitivamente o domínio português sobre a ilha. A presença portuguesa haveria de prolongar-se até 1622, mais de cem anos.
É difícil imaginar hoje a dimensão dessa permanência.Durante mais de um século, Portugal, um pequeno reino situado no extremo ocidental da Europa, manteve uma posição militar e comercial numa ilha situada à entrada do Golfo Pérsico, a milhares de quilómetros de Lisboa.
Não se tratava, contudo, de uma simples colónia no sentido moderno da palavra. O sistema português no Oriente assentava numa rede de fortalezas, feitorias, portos e alianças, procurando dominar os circuitos marítimos mais do que ocupar extensivamente o território continental. Ormuz era uma das peças fundamentais dessa arquitectura.
A fortaleza era, por isso, a materialização de uma vontade de poder, uma arquitectura erguida não apenas contra os homens e os canhões, mas contra a própria incerteza das fronteiras. Naquela pedra batida pelo calor e pelo sal, Portugal inscrevia a sua presença no extremo do mundo conhecido, fazendo da permanência uma forma de ameaça e da ameaça uma forma de diplomacia. Aos mercadores, dizia que aquele mar passara a ter dono; aos soberanos da Pérsia, que uma potência vinda do outro lado do mundo se instalara à sua porta; à Europa, enfim, que o pequeno reino atlântico que aprendera a navegar para Oriente já não se limitava a alcançar o mundo e começava a querer governá-lo.
A construção da fortaleza começara em 1507, ainda de forma rudimentar, e foi profundamente ampliada e modernizada depois do regresso de Albuquerque em 1515. A história portuguesa de Ormuz torna-se especialmente interessante quando se percebe que Portugal não estava sozinho naquele tabuleiro.
Do outro lado encontrava-se a Pérsia safávida. Shah Ismail I não via com bons olhos a conquista portuguesa. Ormuz mantinha relações tributárias com poderes continentais e reconhecera a soberania safávida. A chegada dos portugueses introduzia uma potência marítima estrangeira num espaço que os soberanos persas consideravam parte da sua esfera de influência. Mas a relação entre portugueses e safávidas foi mais ambígua do que uma simples oposição. Ambos tinham razões para desconfiar dos otomanos. E durante algum tempo Lisboa imaginou que poderia construir com a Pérsia uma aliança contra o Império Otomano. Albuquerque chegou a enviar Fernão Gomes de Lemos numa missão diplomática junto de Shah Ismail, procurando uma convergência estratégica. A história, contudo, não ofereceu aos portugueses a aliança que desejavam.
Em 1514, os otomanos haviam derrotado Shah Ismail na batalha de Chaldiran. A derrota mostrou a vulnerabilidade militar safávida e alterou o equilíbrio político da região. Quando a diplomacia portuguesa tentou aproximar-se do soberano persa, Ormuz já constituía uma ferida aberta entre os dois poderes. Shah Ismail via a presença portuguesa na ilha como uma afronta cometida por um suposto aliado.
Portugal queria a Pérsia como aliada. A Pérsia queria Ormuz de volta. A contradição era insolúvel.
O preço do mar
O domínio português não significou o fim da vida comercial de Ormuz. Pelo contrário: a ilha continuou a prosperar sob a administração portuguesa, embora tenha conhecido revoltas locais e ataques de outras potências. Os portugueses compreenderam rapidamente que o poder marítimo não se exerce apenas com navios.
Exerce-se com impostos, alfândegas, fortalezas, acordos, ameaças e capacidade de interromper o comércio. A própria costa continental passou a ser integrada nessa estratégia. Pouco depois da conquista de Ormuz, os portugueses construíram uma fortificação em Šahrū, na costa persa, local que viria a ser associado a nomes como Gombroon e, mais tarde, Bandar Abbas. O lugar funcionava como ponto de ligação entre a ilha e o continente.
A lógica era simples e sofisticada: a ilha precisava do continente para sobreviver; o continente precisava da ilha para participar plenamente das redes comerciais do Golfo. Controlar ambos significava controlar uma parte substancial da circulação. E foi essa lógica que tornou Portugal uma potência no Golfo Pérsico.
O homem que descobriu que a distância não era uma fronteira
Afonso de Albuquerque morreu em 1515, pouco depois de consolidar a presença portuguesa em Ormuz. A sua figura permanece associada à brutalidade e à visão estratégica da expansão portuguesa. Não foi um conquistador movido apenas pelo desejo abstracto de glória. Albuquerque compreendia que o império português dependia da geometria dos mares: Goa, Malaca, Ormuz, Socotorá, Aden, pontos dispersos que, ligados entre si, permitiam a Lisboa interferir nos grandes circuitos comerciais asiáticos. Ormuz era fundamental porque fechava uma das portas do Índico. Não era necessário conquistar um território quando se podia controlar a passagem que lhe conferia importância. Ormuz valia precisamente por isso, pela capacidade de transformar uma estreita garganta de mar numa alavanca sobre um mundo muito maior do que a própria ilha.
A supremacia portuguesa, contudo, nunca foi absoluta. Os otomanos atacaram os interesses portugueses no Golfo; Ormuz conheceu uma revolta em 1521-1522 e sofreu ataques navais otomanos em 1552 e 1581. Mais importante ainda, o poder safávida acabaria por crescer. No século XVII, Shah Abbas I compreendeu que os portugueses constituíam um obstáculo à sua própria política no Golfo. A presença portuguesa deixara de ser uma curiosidade distante e transformara-se numa estrutura imperial instalada à porta do seu reino. A fortaleza de Ormuz tornara-se o símbolo dessa intrusão.
Em 1622, a longa experiência portuguesa chegou ao fim. As forças safávidas, apoiadas pelos ingleses, conseguiram cortar o abastecimento marítimo da ilha. Ormuz caiu. A fortaleza que durante mais de cem anos testemunhara a bandeira portuguesa passou para mãos persas. Portugal perdeu assim uma das suas mais importantes posições no Golfo. Mas a história de Ormuz não terminou nesse momento. Porque aquilo que Portugal deixou para trás foi mais do que uma fortaleza em ruínas. Tinha sido fundada uma marca na cartografia política do Oriente.
O pequeno país que chegou ao fim do mundo
Há uma espécie de ironia histórica na aventura portuguesa de Ormuz. Portugal chegara à ilha vindo de muito longe, atravessando o Atlântico, contornando África e cruzando o Índico. Durante mais de cem anos, uma pequena potência europeia manteve uma posição estratégica num dos lugares mais disputados do planeta. Não conquistou a Pérsia. Não dominou o Golfo inteiro. Não conseguiu transformar Ormuz numa extensão permanente do reino. Mas durante um século conseguiu fazer com que a política de uma ilha perdida entre o deserto e o mar tivesse de contar com Lisboa.
É por isso que Ormuz merece ser lembrada como um dos lugares onde nasceu a primeira política verdadeiramente global da Europa. Ali, há quinhentos anos, o mundo começou a parecer-se com aquilo que hoje conhecemos. Os mares deixaram de separar os impérios e passaram a ligá-los. E Portugal, com os seus navios, as suas fortalezas e a sua obstinação quase quixotesca, percebeu isso antes de quase todos os outros.



