Vivemos uma era de aceleração tecnológica sem precedentes, e há uma questão que nenhum indicador consegue capturar: que herança estamos a construir para o futuro? A inteligência artificial deixou de ser uma promessa para se tornar numa infraestrutura do nosso quotidiano, presente nas decisões que se tomam e nos cenários que se antecipam. No entanto, quanto mais estes sistemas ganham autonomia, mais evidente se torna aquilo que apenas a consciência humana pode oferecer, nomeadamente o discernimento, a empatia e o propósito que nenhuma máquina consegue replicar.
Prefiro, por isso, falar de aliança, e não apenas de parceria, entre a mente humana e a tecnologia. Uma parceria pressupõe interesses que se cruzam, enquanto uma aliança assenta num destino que se partilha. A liderança aumentada que se desenha no horizonte com a adoção alargada das tecnologias de IA, não é sinónimo de delegar as decisões na máquina, mas significa antes uma oportunidade de amplificar a inteligência humana através de sistemas que nos libertam das atividades repetitivas e que nos dão a possibilidade de regressarmos à nossa essência, restituindo-nos o tempo necessário para dedicarmos à reflexão profunda, ao pensamento crítico e à criação de valor com significado.
Esta convicção encontra eco no mais recente estudo do Capgemini Research Institute, publicado em 2026, e intitulado The multi-year AI advantage, que inquiriu mais de mil e quinhentos líderes empresariais, em quinze países. Mais de metade das organizações encara a IA como um recurso estratégico de longo prazo, com horizontes de investimento superiores a cinco anos, e prevê afetar-lhe em média 5% do seu orçamento anual em 2026 (3% em 2025). Curiosamente, uma das principais conclusões do estudo, não é, porém, de âmbito financeiro, mas, sim, humano. O estudo identifica aquilo a que denomina de Human-AI Chemistry, a capacidade de desenhar sistemas em que os seres humanos mantêm o controlo das decisões críticas, como condição sine qua non para extrair valor da tecnologia, e revela que 66% das organizações que cultivam esta colaboração apresentam melhorias mensuráveis na produtividade e na qualidade das decisões. A tecnologia escala, mas o valor nasce da confiança entre quem decide e o sistema que o assiste/apoia.
Transformar a regulação inteligente numa vantagem competitiva
No entanto, sabemos que, em rigor, a IA não é neutra. Nasce de dados que refletem o mundo tal como ele é, com os seus múltiplos vieses, assimetrias e relações de poder. Ignorá-lo seria ingenuidade, tal como demonizá-lo seria abdicar da possibilidade de moldar a tecnologia. Reconheço que a Europa é frequentemente acusada, sobretudo quando comparada com os EUA, de regular em excesso e de asfixiar a inovação, e essa crítica deve ser tida em consideração. Mas o desafio que o Regulamento Europeu sobre Inteligência Artificial nos coloca não é o de escolher entre regular e inovar, é o de transformar a regulação inteligente numa vantagem competitiva.
O estudo What Matters to Today’s Consumer 2026, do Capgemini Research Institute, baseado num inquérito a 12 mil consumidores de 12 países, é esclarecedor a este propósito: 76% defendem a existência de regras claras sobre as circunstâncias em que um assistente de IA pode agir em seu nome, enquanto 71% manifestam preocupação quanto à utilização dos seus dados. Por outro lado, a mensagem dos mercados é inequívoca: sem transparência não há adoção, e sem adoção não há retorno.
A confiança constrói-se com governação responsável, com supervisão humana e com aquilo que denominamos de legal by design
– a incorporação da conformidade jurídica e da ética desde o momento da conceção dos sistemas, integrando a IA na estratégia e não apenas na tecnologia. Na Capgemini, acreditamos que todas as tecnologias podem gerar progresso para todos se forem, antes de mais, concebidas por e para as pessoas.
A progressiva incorporação da Physical AI – a nova geração de sistemas que abandona o ecrã para habitar o mundo tangível, dos robôs humanoides aos agentes autónomos que partilharão connosco o espaço comum – torna esta exigência ainda mais premente. Quando a inteligência artificial ganha corpo e presença, a fronteira entre assistir e agir esbate-se, e a questão da consciência deixa de ser um exercício filosófico para se tornar um imperativo de conceção.
A lição das marcas centenárias permanece atual: sobreviveram a guerras, crises e revoluções tecnológicas porque souberam mudar sem se trair. A sua longevidade nasce da capacidade de fazer evoluir processos, ferramentas e modelos de negócio, preservando valores, história e identidade.
Num mundo acelerado, as empresas centenárias mostram-nos que a verdadeira vantagem competitiva não reside apenas na velocidade, mas na consistência com propósito, e que a tecnologia deve amplificar a sua essência, nunca diluí-la.
Performance e propósito são indissociáveis; não há perenidade sem viabilidade económica, nem crescimento sustentável sem consciência. Construir um futuro mais inclusivo e regenerar o planeta exigirá lideranças renovadas, menos centradas no poder e mais no serviço, na colaboração e na capacidade de mobilizar a energia humana.
O meu desejo é simples de enunciar, mas exigente de cumprir: que as gerações futuras, ao recordarem este momento em que mente, máquina e significado se encontraram, reconheçam que soubemos escolher; que fizemos da tecnologia uma aliada da humanidade, e não o contrário; que soubemos crescer com alma e competir com consciência. Porque o futuro não se prevê: constrói-se. E constrói-se hoje, com a lucidez de quem sabe que o amanhã começa agora.
Este artigo foi publicado na edição nº 34 da revista Líder, cujo tema é ‘Depois do Amanhã’. Subscreva a Revista Líder aqui.

