A grande lição da pandemia

2020 ficará nas nossas memórias e na História como o ano da pandemia. Cada um viveu a pandemia à sua maneira. Num extremo, ela foi desvalorizada; no outro foi um drama, experimentado ou pressentido. Para alguns foi tempo de confinado recolhimento caseiro; para outros, um tempo de risco na realização de trabalho agora descrito como essencial. Uma coisa parece certa: o chamado “novo normal” foi uma interrupção da normalidade. Mas essa é a condição da normalidade: o tempo entre acontecimentos extraordinários.

Uma lição fica para o futuro: se Harari já falava de um Homo Deus a caminho de uma imortalidade desenhada pelo próprio Sapiens, a pandemia veio mostrar que essa é uma ideia mais marcada pela hubris do que pelo realismo. Um simples vírus, talvez a mais modesta das criaturas, veio mostrar quão vulneráveis somos na nossa humana fragilidade.

Os mistérios do universo são tão insondáveis que mesmo uma introdução simples à natureza do Universo, como a que encontramos em A mecânica quântica, de Luís M. Aires (Edições Sílabo), revela a dimensão da nossa ignorância. Por isso, em vez de assumir que estamos a caminho da imortalidade harariana, aceitemos a nossa ignorância e consideremos as lições de Attenborough: tratemos a natureza com o respeito que ele exige. Essa é, possivelmente, a grande lição de 2020. Bom ano novo!

 


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

 

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