Costuma-se dizer que em cada fim há um recomeço. E foi essa ideia que entreteve o físico matemático Roger Penrose, Nobel da Física em 2020. Como vimos no capítulo anterior, a expansão exponencial do Universo fará com que a entropia chegue ao seu nível máximo. Ou seja, não há mais nenhum sistema que liberte energia, […]
Costuma-se dizer que em cada fim há um recomeço. E foi essa ideia que entreteve o físico matemático Roger Penrose, Nobel da Física em 2020. Como vimos no capítulo anterior, a expansão exponencial do Universo fará com que a entropia chegue ao seu nível máximo.
Ou seja, não há mais nenhum sistema que liberte energia, como estrelas ou buracos negros, pelo que o cosmos morreu. Neste ponto, a temperatura do Universo é constante, a zero absoluto, sobrando apenas fotões, as partículas de luz, à deriva. E é precisamente neste ponto que entra a Cosmologia Cíclica Conforme de Roger Penrose, que nos diz que pode haver vida além da morte do nosso Universo. Segundo Penrose, neste limbo em que o Universo se encontra, acontecem duas coisas:
1 • À medida que o Universo expande cada vez mais e mais, a matéria que os buracos negros irradiaram à medida que evaporaram é espalhada numa região cada vez maior;
2 • A única entidade presente são estas partículas de luz, que estão espalhadas numa região cada vez maior, e o movimento destas partículas, que neste momento é o único fator dominante. Posto isto, Penrose criou um conceito muito interessante, que vou tentar explicar de forma criativa. Como as partículas de luz não têm massa, neste futuro remoto o Universo fica sem ponto de referência e esquece-se do seu tamanho.
Neste momento, ser grande ou ser pequeno é irrelevante para o Universo, porque já não há coordenadas de massa, nem de tamanho, que o situem. Posto isto, agora imaginemos o seguinte cenário:
1 • Este Universo, aparentemente infinito graças à expansão exponencial, tem uma vasta quantidade de matéria dispersa nessa área infinita.
2 • Uma vez que a única entidade presente (luz) não tem massa, o Universo deixa ter referência e esquece-se do seu tamanho. Aqui, ser grande ou ser pequeno é irrelevante.
3 • Neste ponto, Penrose sugere que nada impede o Universo de se comportar como uma singularidade: preservando os ângulos (ou a conformidade) da dimensão anterior, o Universo pode converter-se num ponto infinitamente pequeno, quente e denso, de partículas de luz e com o remanescente da matéria irradiada que outra estava dispersa numa região infinitamente grande, fria e pouco densa. Este ponto infinitamente pequeno, denso é precisamente aquilo que especulamos que tenha existido antes do Big Bang, provocando o nascimento do nosso Universo.
Tal como quando expandimos infinitamente um mapa ou uma grelha digital, ou ainda um ficheiro vetorial, a Cosmologia Cíclica Conforme de Roger Penrose sugere que o nosso Universo é como um painel que expande, estica e dá origem a um novo painel, num ciclo infinito em que cada Big Bang é resultado da expansão infinita do Universo anterior.
A estas diferentes sucessões de Universos, Roger Penrose atribui o nome de Éon, que se desdobram conforme vemos na gravura abaixo. Para ajudar a compreender o modo como uma estrutura grande pode manter a proporção quando convertida numa estrutura menor, Penrose gosta de usar o exemplo do Círculo de Escher, como vemos na gravura à direita. Os morcegos mais pequenos têm exatamente a mesma escala dos maiores, e preservariam essa escala se fizéssemos zoom infinito na imagem. Outro recurso visual para ajudar a compreender este ciclo infinito de Éons é visualizar o Triângulo Fractal de Sierpinski ou o Conjunto de Mandelbrot: por mais que estiquemos as figuras geométricas, uma pequena com a mesma escala é gerada, num ciclo infinito.


Este artigo consiste num excerto adaptado, do livro As 100 maiores curiosidades sobre o cosmos (Oficina do Livro, 2024), de Fábio da Silva, com o consentimento do autor.


