Ao ler, um destes dias, uma analista a defender a curiosa ideia de fechar um partido político como forma de evitar a polarização, veio-me à cabeça a necessidade imperativa de juntar num livro as crónicas de António Barreto sobre democracia (publicadas no jornal Público). Sempre valeu a pena ler António Barreto (AB), mas neste momento […]
Ao ler, um destes dias, uma analista a defender a curiosa ideia de fechar um partido político como forma de evitar a polarização, veio-me à cabeça a necessidade imperativa de juntar num livro as crónicas de António Barreto sobre democracia (publicadas no jornal Público). Sempre valeu a pena ler António Barreto (AB), mas neste momento esse não é apenas um exercício gratificante: é realmente necessário. Explico porquê.
Num tempo de vozearia, AB é uma voz ponderada, com sagesse. As suas crónicas são profundamente pessoais. Não seguem agendas definidas por outrem. Não pretendem ser explosivas. Não seguem as lógicas das redes sociais. Estes já me parecem motivos importantes para as seguir com entusiasmo. Além disso, a sua coleção de crónicas tem-se vindo a constituir como um manual sobre democracia. AB é uma das pessoas que nos ensina o que é a democracia, de uma forma não enviesada nem instrumental. A democracia é um campo de tensões e de tolerâncias. Acabar com partidos que detestamos parece uma péssima ideia.
Juntar as crónicas de AB sobre a democracia num único volume é por isso, repito, uma necessidade e uma forma de serviço público. Uma vez concretizada a ideia, se o viesse a ser, o livro deveria ser de leitura obrigatória nas escolas e no parlamento, neste nosso mundo, no qual a deslegitimação e a desqualificação moral do adversário se tornaram uma tática normal. AB tornou-se uma voz de sabedoria, um bem escasso neste tempo de guerras culturais veiculadas por redes estridentes.

