Por vezes dou por mim a pensar. Sim, querido(a) leitor(a), por vezes essa desgraça também me acontece. Porque cada vez menos o mundo é para quem pensa, porque quem pensa, coloca em risco todos os outros pensamentos que não seguem na mesma linha. Curiosamente, vivemos tempos em que hipocritamente a liberdade de pensamento é permitida […]
Por vezes dou por mim a pensar.
Sim, querido(a) leitor(a), por vezes essa desgraça também me acontece. Porque cada vez menos o mundo é para quem pensa, porque quem pensa, coloca em risco todos os outros pensamentos que não seguem na mesma linha.
Curiosamente, vivemos tempos em que hipocritamente a liberdade de pensamento é permitida e até mesmo estimulada, mas só se for favorável à corrente.
Cada vez mais se ouve falar em pensar “fora da caixa”, cada vez mais se ouve falar de empresas que estimulam os seus colaboradores a serem criativos, proativos, inovadores, ousados, etc., mas, e aqui, como diz o bom povo brasileiro, “aqui é que bate o cego”. Tentem ser tudo isso, dentro do pensamento e da cultura da empresa. Ora, se não é para sair do espaço da baliza criada pela própria empresa, a tal caixa, o que pensará esta gente que significa “pensar fora da caixa”?
Vivemos tempos hipócritas. Quem ousa permitir este tipo de pensamento, tem de ter uma escuta ativa muito apurada, e uma mente aberta para novos desafios a todos os níveis.
Pensar de forma diferente, é uma atitude que carece da coragem de quem pensa, mas não só. Também quem ouve ou excuta deve ter a mesma coragem.
Ser ousado, é viver de acordo com princípios ou valores diferentes, que podem ser ou fazer a diferença, mas podem também ser uma tempestade devastadora.
Não é possível ser branco e negro, como não será também possível ser comunista e fascista, nem tão pouco conservador e liberal simultaneamente, é preciso assumir o caminho que queremos seguir, e é fundamental saber comunicar esse caminho assumido aos que nos rodeiam, de tal modo que a sintonia exista.
Saber e querer ousar a diferença, contrariar o vulgar, enfrentar as hostes de resistência à mudança, ser diferente num mundo de “mesmice”. Cada um de nós é o epicentro de uma existência, rodeada de muitos outros epicentros que são todas as existências que participam no nosso contexto, seja ele qual for… Pessoal, social, familiar, etc. Quando eu assumo algo de novo no meu, vou provavelmente chocar com outros epicentros, e talvez atrair outras e novas existências, de tal modo que umas levarei comigo na minha ousadia, outras se afastarão da minha corrente.
Esta é a Lei da viagem do pensamento. Por vezes solidão, outras, solitude, e outras ainda multidão.
Da história universal, constam muitos nomes que pensaram fora da caixa e desses, poderemos ver isto mesmo. Uns foram condenados à perda da vida deixando entre nós os seus pensamentos, outros foram condenados à perda da liberdade sem que jamais abdicassem dos seus pensamentos, outros ainda foram alvo de diversas outras tentativas de castração do pensamento deixando frustrados os seus agressores em qualquer das tentativas, no entanto, só muito tempo passado, muitas vezes já além das suas existências, esses pensamentos foram validados e respeitados. Mas isso foi noutros tempos… ou não?
Se nos focarmos nos tempos de hoje, veremos semelhanças com esses tempos ao nível do pensamento? Que evolução houve desde então?
Na minha opinião, essa castração do pensamento mantém-se atualmente, quase igual a esses tempos passados, senão talvez pior. Vemos isso a todos os níveis da nossa sociedade, dos temas mais pacatos, aos mais mediáticos.
Vivemos tempos em que todos os pensantes são conduzidos a pensar da mesma forma, os opinantes perdem o direito à opinião, os investigadores são obrigados a esconder os resultados das suas investigações, os honestos são ingénuos e os desonestos são génios.
As ditaduras crescem como ervas daninhas pelas formas mais dissimuladas, e as democracias transformam-se em autocracias. A essência está de dia para dia a perder terreno para o fútil, e as pessoas de plástico a vencer as pessoas que se recusam a ser o que não são.
Na minha vida, uso frequentemente uma frase saída de mais um dos meus devaneios: “Gosto de pessoas despidas de mundo, que apenas se vestem da essência de tudo.” Ou seja, gosto de pessoas que são exatamente quem são, não se deixando levar por correntes destruidoras da sua humanidade, e que se mantêm fiéis a si próprias, à sua essência, aos seus valores, ao seu corpo, às suas raízes, às suas gentes. Eu sei o que estão vocês a pensar neste momento… Que sou um lírico, que acredito em demagogias, talvez até que sou ingénuo. Serei. Não me importo de o ser, nem de ser exatamente aquilo em que acredito. Prefiro isso, a ser mais uma ovelha desprovida de pensamento, de vontade, de si, de vida, de existência, que se limita a alimentar-se, dormir, e seguir o rebanho.
Eu sou mais do que isso… sou essência! Sou o meu grito! Sou o criticado e o admirado, e até talvez em muitos casos o incompreendido. Não me importa, sou eu, e é este eu que quero e exijo a mim próprio continuar a ser, preferindo perder a vida a perder-me de mim.
E foi a pensar em Dezembro, e pensar no Natal que me surgiu este devaneio. Lembrei-me de propor um presente de Natal diferente para toda a gente.
Neste Natal, experimentem uma roupa nova: “dispam-se de mundo, e vistam-se apenas da essência de tudo”.
Votos sinceros de Festas felizes para todos os leitores da revista Líder.

