O novo Presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), Armindo Monteiro diz emprestar a sua vocação associativa à CIP e ainda fazer bom uso de tudo o que a palavra liderança impõe, com a consciência da luta que tem pela frente na continuidade de uma empreitada de transformação no mundo empresarial. Este é o momento para implementar um novo Pacto Social e também chamar à Confederação um novo acrónimo – CEP.
Desde 30 de março, o dia em que assumiu a liderança da Confederação, que não quer ser conhecido como o patrão dos patrões e não deixa de parte o seu papel de empresário, Armindo está focado em redefinir alguns conceitos – o de valor acrescentado nas empresas e o de sofisticação do negócio – e alterar a carga fiscal em Portugal.
À margem da Leading People – HR Conference, Armindo aceitou falar com a Líder, e explicar-nos o seu desígnio e outras ideias à volta da liderança.
A liderança deve ser feita de que matéria?
A liderança nas empresas é como uma orquestra, se tiver apenas instrumentos de uma natureza, só de cordas ou percussão, fica sempre uma melodia imperfeita e incompleta. A liderança é sobretudo trazer para as empresas o que existe na sociedade e nas famílias. Começámos a fazer essa transformação nas famílias e na sociedade. Por que não a fazemos nas empresas? Muitas vezes, por causa dos tais preconceitos que se atribuem a determinadas questões, como por exemplo o achar-se que o feminino é frágil, o feminino não planeia, o feminino não executa, não entrega. Isto são só disparates!
Hoje, as lideranças e as competências não são só femininas ou masculinas, têm características femininas e masculinas. Numa empresa as pessoas são absolutamente o essencial. E num País como Portugal, onde não temos petróleo, nem esse tipo de recursos, se não formos performante ao nível das empresas, e isto significa encontrarmos projetos que se tornem globais e virados para fora, a nossa economia vai continuar a ser pobre.
Nós, de facto, em termos de riqueza somos o 4.º país mais pobre da Europa, isso não nos deve orgulhar e sobretudo deve dar-nos uma intranquilidade e ter um pouco mais de exigência com todos. Mas tudo começa pelas pessoas.
Se excluirmos as pessoas e dissermos que agora só vamos jogar com estes, estamos a limitar ainda mais a possibilidade de termos empresas performante.

As empresas devem ser reinventadas, disse há pouco no palco da Leading People – HR Conference. Na prática, o que é que isso significa?
O nosso sistema ainda é muito na base de patrões. Em Portugal, patrão tem uma conotação negativa. Patrão é o que tem sempre razão; o que pode, quer e manda; o que é omnipresente; e isto tudo são assuntos que deveriam ser do passado.
Depreendo que não queira ser conhecido como “o patrão dos patrões”.
Esse é um desígnio que este cargo carrega. Gostava de ser conhecido como a liderar líderes.
Hoje precisamos de lideranças e brilho nos olhos, de projetos que nos façam sentir parte das empresas e viver nas empresas. Não é apenas trabalhar nas empresas, mas viver nas empresas e isso consegue-se com outro tipo de mentalidade.
Os empresários têm de desenvolver muitas soft skills, que não têm apenas a ver com a propensão ao risco, mas com a parte da liderança, com a parte motivacional. “Vamos lá, vamos embora, vamos fazer das tripas coração! Vamos chorar, vamos rir”. Vamos fazer tudo nas empresas, porque isso é viver nas empresas.
E isto é a reinvenção que as empresas precisam, naturalmente com um fito e um propósito que é tornar as empresas eficientes e rentáveis. Sem o sentido de cumprimento de pena. É este o sentido, transformar tudo com respeito pelo outro e cumprimento de objetivos e missão da empresa. Não querendo formatar as pessoas, deixando-as respirar e ser livres.
Se se impuser muitos códigos, cânones e ortodoxias, estamos a coartar aquilo que o ser humano tem de mais especial: espontaneidade, criatividade, capacidade para resolver os problemas. Se nós nos formatarmos todos, vamos ficar muito robots, autómatos, e para isso já temos a IA.
O que podemos esperar do seu mandato 2023-2027?
Desde logo, um sentido de compromisso muito forte. Já tinha uma agenda bastante ocupada empresarial continuo a ser empresário, estou apenas emprestado a esta função associativa e aquilo que gostaria era de ajudar a transformar.
Sinto que, neste momento, precisamos de dar continuidade à transformação no mundo empresarial, de modo mais intenso. Estamos num momento de viragem.
A digitalização da economia não é uma abstração intelectual, não é uma quimera, um discurso, é apenas aproveitarmos a oportunidade em Portugal, uma vez que já falhámos e não tivemos uma verdadeira Revolução Industrial.
Hoje com a economia digital, ainda que sejamos um País periférico, um País pequeno, um País com uma economia frágil, o facto de termos todas estas ferramentas podemos ser globais. Hoje conseguimos vender para locais onde não estamos, recrutar talentos onde não estamos, ter inclusões na cadeia de produção onde não devemos estar, tudo isto é o digital que permite. A empresa pode ser pensada à escala global.
As cadeias de valor são muito longas e não nos preocupamos muito com isso, o just in time, o stock no outro lado do Planeta… Vimos com a pandemia que ficámos isolados. Isto está a obrigar as empresas a repensarem as suas bases de produção. Os EUA fizeram isso com o IRA, que no fundo é dizer que as empresas americanas que estão a investir lá fora regressem aos EUA que damos melhores condições. Isto está a fazer regressar muito investimento aos EUA.
Também a Comissão Europeia, com o conceito de autonomia estratégica, começou a fazer isso. Ou seja, as empresas europeias instalam-se de novo na Europa para produzir cá.
Nós, em Portugal, também precisamos. E isto não tem a ver com protecionismo, mas com conceitos mais parecidos com nearshoring. Acredito na economia global, mas estamos muito dependentes destas cadeias muito longas e complexas, hoje qualquer produto é construído em 50 países diferentes. E se pudermos ter em Portugal alguma desta autonomia ficamos menos frágeis, com fenómenos como a pandemia. Note que nessa altura não tínhamos máscaras, nem gel, nem ventiladores, não tínhamos rigorosamente nada. Depois lá conseguimos produzir máscaras e gel, mas se não conseguíssemos comprar ventiladores noutros locais não tinha corrido bem.
Não estou a defender um protecionismo, mas temos de ter alguma capacidade próxima de produção para conseguirmos ter autonomia estratégica.
Quais é que vão ser as suas grandes bandeiras na CIP?
A subida na cadeia de valor é absolutamente estratégica para que não seja uma comoção nacional sempre que se fala em aumentar salários. Os salários não podem ser aumentados por decreto têm de acompanhar o valor acrescentado. Para aumentar os salários temos de aumentar o valor acrescentado e o próprio negócio das empresas.
E as empresas não podem ter competitividade apenas com base nos custos de produção baixo, isto vai naturalmente desaparecer. Estamos na Europa e num mercado que quer ser de primeira divisão. Se estamos na primeira divisão como queremos competir com baixos salários e com fatores de produção baixo?
E, por último, a carga fiscal, seja para a família ou para as empresas, é a pior da Europa. E isso é algo que verdadeiramente tem de mudar. É um contrassenso sermos o país mais pobre e ao mesmo tempo termos a maior carga fiscal.
Não faz sentido que um salário de 2 mil euros tenha uma taxa de IRS de 40%. Ou que as empresas tenham um imposto maior que toda a OCDE. Diria que estes três pontos são absolutamente fundamentais e espero durante este mandato poder contribuir para eles.

Acredita que a importância de Confederações como a sua sai reforçada nos tempos atuais?
Acredito que a eficiência coletiva é essencial. O mundo das empresas é demasiado complexo para se estar sozinho. Sou particularmente sensível à ideia de criação de valor em conjunto, à ideia de fileira de valor. Outros países, fazem-no muito bem, quando exportam não vão sozinhos. E isso ajuda a penetrar no mercado e a conquistar mercado de forma muito mais eficiente do que se cada um for isoladamente.
Se conseguirmos, e a Confederação tem essa missão, servir de umbrella para juntar esses valores e forças individuais, acreditamos que fica mais fácil vencer a internacionalização. Qualquer país é maior do que o nosso, portanto a internacionalização traz uma escala grande.
A Confederação pode ajudar nisso. Pode ajudar na sensibilização do Governo para as exigências da vida empresarial, para a necessidade de trabalho em equipa no sentido de um País próspero precisar de empresas prósperas e isso só pode ser feito em conjunto. É verdade que somos muito individualistas em Portugal, mas também isso está a mudar, estas novas gerações de empresários também começam agora a perceber que “indo sozinho pode-se ir mais rápido, mas se formos em conjunto vamos mais longe”.
E o nosso tecido empresarial seguramente que ganha se houver mais participação e mais partilha, do que se houver long rangers ou comboys solitários. Todos ganhamos mais se formos em conjunto e espero que a Confederação consiga reforçar esse sentimento.
Vamos poder esperar uma nova CIP?
Creio que ela já está a acontecer. Nós vamos até ao final do mandato fazer algumas transformações e eu creio que rapidamente vamos anunciá-las.
Se reparar chama-se CIP, mas depois diz Confederação Empresarial de Portugal…
Neste momento, estamos empenhados no Pacto Social, que propusemos à sociedade civil, neste caso aos sindicatos. Achamos que as empresas e o País ganham mais se não estiverem sob a tutela do Estado, simplesmente para evitar este paternalismo que vem sempre do Estado, tem de estar em tudo, isto não é verdade. O Estado tem de ter uma função regulatório, que respeitamos e por essa razão desafiámos as Federações sindicais, como representantes dos trabalhadores, a discutir connosco um Pacto Social. Este Pacto Social tem a velha forma de Jean-Jacques Rosseau, que acreditava que a presença do Estado era prova da incompetência ou incapacidade de terceiros não se entenderem e aceito essa ideia. Se realmente os parceiros sociais se entendem não é necessário que o Estado esteja a regular relações. Se nós, sindicatos e representantes dos empregadores vivemos nas empresas porque não conversarmos, conhecermo-nos melhor e resolvermos os problemas de uns e de outros, porque naturalmente todos têm problemas que carecem de ser ouvidos e é nesse desafio que temos estado a trabalhar no Pacto Social.
Neste momento, está na fase de ser avaliado pelos sindicatos, que dirão se concordam com as medidas que propomos. São medidas relacionadas com um conjunto de questões – produtividade, política salarial, regulações do trabalho, tributações – que nos parecem importantes para dar o salto qualitativo que a nossa Economia precisa.
