A conciliação entre carreira e parentalidade exige uma mudança cultural no mercado de trabalho e novas respostas por parte do Estado, das empresas e da sociedade.
Atualmente, em Portugal, sete em cada 10 jovens desejam ser pais, mas sentem-no apenas quando percebem reunir as condições certas. Os dados avançados pelo Barómetro FutURe 2025, e um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, vieram à tona no âmbito da conferência Carreira + Família: Sonhar não é ter de escolher, promovida pela Merck, em parceria com a Universidade Europeia e o apoio do Movimento +Fertilidade.
O adiamento da parentalidade resulta de um contexto profissional exigente, marcado por instabilidade, pressão social e desigualdade na distribuição das responsabilidades familiares.
Ao longo do debate, que reuniu decisores públicos, especialistas e figuras públicas para debater soluções para um dos maiores desafios sociais do país, os participantes defenderam uma maior valorização do equilíbrio entre vida profissional e pessoal, horários mais flexíveis e a normalização da parentalidade como parte integrante do percurso de vida.
Foi também sublinhado que organizações mais amigas da família são mais capazes de atrair e reter talento, contribuindo para uma resposta mais sustentável aos desafios demográficos e sociais.
Para Rita Sá Machado, diretora-geral da Saúde, este adiamento sucessivo tem consequências diretas na saúde reprodutiva. A responsável alerta para o aumento dos problemas de fertilidade e para o facto de muitos casais procurarem ajuda médica já numa fase tardia, quando as opções clínicas são mais limitadas. Defende ainda a importância de falar de forma mais aberta sobre fertilidade, preservação da fertilidade e saúde reprodutiva, sublinhando que escolhas de estilo de vida, níveis elevados de stress e condições laborais exigentes têm impacto direto na capacidade reprodutiva e no bem-estar dos jovens.
Também Carla Tavares, presidente da Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE), destaca que a conciliação entre vida profissional, pessoal e familiar continua a penalizar sobretudo as mulheres, refletindo desigualdades estruturais persistentes no mercado de trabalho. Apesar da elevada participação feminina no emprego, subsistem diferenças salariais e uma sobrecarga das tarefas de cuidado que condicionam a progressão profissional e reforçam escolhas forçadas entre carreira e família. Para a responsável, o combate aos estereótipos de género e a promoção de políticas efetivas de conciliação são determinantes não apenas do ponto de vista social, mas também para a competitividade das organizações.
Do lado empresarial, Rita Reis, Government and Public Affairs Senior Director da Merck Portugal, sublinha o papel das empresas na criação de ambientes mais inclusivos e ajustados às diferentes fases da vida. Segundo a responsável, organizações que investem em políticas de conciliação, igualdade de género e apoio à parentalidade revelam maior capacidade de adaptação, níveis mais elevados de motivação interna e um contributo mais positivo para a sociedade.
O painel Carreira e Parentalidade contou ainda com a participação de Carlos Afonso, chefe de cozinha, e Rodrigo Gomes, radialista da RFM, que partilharam experiências pessoais sobre a pressão social associada às escolhas familiares, a corresponsabilização entre homens e mulheres e a inexistência de um “momento ideal” para ter filhos. Os testemunhos reforçaram a ideia de que criar condições favoráveis, em vez de exigir escolhas impossíveis, é essencial para inverter tendências demográficas e sociais.
Foi também neste enquadramento que Pedro Moura, diretor-geral da Merck Portugal, alertou para o facto de Portugal enfrentar atualmente “um verdadeiro inverno demográfico: passámos de mais de 200 mil nascimentos por ano, nos anos 60, para pouco mais de 80 mil. Esta realidade tem impactos profundos no sistema social, na economia e na capacidade de as empresas atrair e reter talento. A conciliação entre carreira e parentalidade não é apenas um desafio do Estado, mas uma responsabilidade partilhada entre empresas, instituições e sociedade civil, que exige uma mudança cultural consistente.”
A conferência culminou com a realização de uma mesa-redonda do projeto FutURe com a discussão de recomendações concretas por jovens especialistas, reforçando a importância de envolver as novas gerações na definição de políticas públicas e práticas organizacionais que promovam uma conciliação efetiva entre carreira e família.


