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Viver sem certezas: quando a “polycrise” transforma trabalho, mente e sociedade

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11 Fevereiro, 2026 | 6 minutos de leitura

Vivemos num tempo que a ciência já descreve como "polycrise": um emaranhado de choques económicos, sociais, ambientais e geopolíticos que se acumulam, amplificam-se mutuamente, criando um clima persistente de incerteza. O impacto vai além das políticas públicas e dos mercados e começa a limitar a própria capacidade coletiva de projetar o amanhã.

Uma análise recente do The Guardian sustenta que 2026 poderá ficar marcado precisamente por essa sensação difusa de «perda de futuro», em que indivíduos, empresas e instituições passam a decidir sem horizontes claros. Segundo psicólogos como Dr. Steve Himmelstein (alunos de Viktor Frankl), a sobreposição de instabilidade económica, mudanças climáticas, tensões geopolíticas e insegurança laboral exerce um efeito cumulativo: radical uncertainty, ou incerteza radical — um estado em que o cérebro humano simplesmente deixa de conseguir projetar o futuro com clareza.

No estudo original, pessoas que pensaram num futuro incerto produziram 25% menos planos possíveis para si mesmas e demoraram mais a fazê-lo — um sinal de que a incerteza está a afetar não só a economia, mas também a nossa saúde psicológica básica.

No fundo, a polycrise é um fenómeno que se sente no quotidiano: o gestor que adia contratações porque o mercado muda todos os meses, o jovem que troca planos de carreira por trabalhos temporários para manter liquidez, a família que evita decisões de longo prazo porque teme novos choques económicos ou climáticos. Não há um único momento de rutura — há antes uma fadiga contínua, silenciosa, que se infiltra nas conversas de café, nos e-mails de segunda-feira e nas escolhas mais banais. A polycrise sussurra todos os dias que o futuro é incerto e, aos poucos, ensina-nos a viver com horizontes cada vez mais curtos.

Dados oficiais portugueses que evidenciam uma crise psicológica estrutural

Vários indicadores recentes de instituições portuguesas e fontes reconhecidas revelam que a saúde mental em Portugal está sob pressão e que problemas psicológicos são uma realidade crescente na população.

De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2024 quase um terço da população com 16 ou mais anos apresentou sintomas de ansiedade generalizada, sendo que 10% relatou sintomas graves como ataques de pânico ou palpitações. Os dados mostram diferenças significativas entre géneros: 38,2% das mulheres e 24,7% dos homens relataram ansiedade, com níveis severos mais frequentes entre elas.

O mesmo INE tem também apresentado dados internacionais comparáveis que colocam Portugal entre os países com resultados mais baixos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) em indicadores de saúde mental. No maior inquérito internacional sobre a utilização dos serviços de saúde (PaRIS), apenas 67% dos utentes portugueses avaliaram positivamente a sua saúde mental, um dos valores mais baixos entre os países da OCDE, segundo dados apresentados em Lisboa.

A Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) contribui com estatísticas que apontam para uma elevada prevalência de condições psicológicas entre a população adulta: cerca de 22% dos portugueses apresentam problemas de saúde mental, percentual acima da média europeia, e 4% da população adulta sofre de doença mental grave, como esquizofrenia ou perturbação bipolar, com redução significativa da expectativa de vida e impactos sociais importantes.

Esses dados oficiais convergem para um quadro em que uma parte considerável da população enfrenta sintomas de ansiedade ou outras perturbações psicológicas, ao mesmo tempo que o país fica abaixo de muitos parceiros europeus em perceção de bem-estar mental — fatores que reforçam a importância de olhar para a crise psicológica como um fenómeno estrutural e não apenas individual.

O lado corporativo: quebra de confiança e produtividade em risco

O impacto da ansiedade, do stress e da crescente desconexão entre trabalhadores e empresas já se faz sentir de forma concreta no mercado português, com implicações que vão além de números isolados e que começam a moldar a forma como organizações pensam o seu futuro.

Um dos artigos mais recentes da Líder sobre o mercado de trabalho em 2026 revela um fosso significativo entre a confiança dos empregadores e a perceção dos trabalhadores sobre o futuro profissional. Segundo os resultados do Workmonitor 2026, praticamente 100% dos empregadores em Portugal acreditam no crescimento em 2026, mas apenas 46% dos profissionais partilham essa visão — um valor abaixo da média global. Este desalinhamento não é apenas um dado estatístico: é um sintoma claro de desconfiança e de fragilização da relação laboral que pode afetar coesão, compromisso e desempenho dentro das empresas.

Os números refletem um mercado de trabalho em transformação acelerada, em que expectativas relativas à autonomia, flexibilidade e equilíbrio entre vida profissional e pessoal são centrais para os trabalhadores. No estudo referido, 42% dos profissionais afirmam que não aceitariam um novo emprego sem flexibilidade de local de trabalho, e 41% rejeitariam uma função sem horários adaptáveis — fatores que se tornaram mais relevantes para a retenção do que a própria segurança no emprego ou benefícios tradicionais.

A crise de confiança corporativa manifesta-se também nas ambições e perceções de carreira: apenas 39% dos profissionais ainda desejam seguir um percurso tradicional e linear, enquanto uma parte crescente procura modelos de carreira mais flexíveis ou portfólios de funções, refletindo uma resposta adaptativa à instabilidade e à incerteza no próprio mercado de trabalho.

No conjunto, estes indicadores apontam para um impacto real da ansiedade e das condições emocionais no desempenho organizacional. A discrepância entre a visão otimista das empresas e a perceção mais cautelosa dos trabalhadores trata-se de um risco estratégico para a produtividade, retenção de talento e cultura organizacional, que exige respostas estruturais de liderança, gestão de RH e políticas que tratem da confiança e do bem-estar como fatores centrais de competitividade.

Perder o futuro para reencontrá-lo

A policrise cortou a linha que nos ligava ao amanhã. Mas isso não significa que o futuro desapareceu. É um aviso: precisamos de o reconstruir, tijolo a tijolo, com resiliência comunitária, planos flexíveis e um reconhecimento real do valor das pessoas.

Nas palavras do psicólogo Dr. Steve Himmelstein, «a maioria dos seus clientes já não fala muito sobre o futuro… muitos simplesmente não têm planos» — uma imagem crua do bloqueio que sentimos. Olhar para frente com medo já não serve. Portugal tem de transformar esta sensação de bloqueio num novo contrato com o futuro — mais real, mais humano, mais ousado. Talvez essa seja a história mais importante de 2026: aprender a andar de olhos abertos num terreno instável, sem deixar que o medo dite cada passo.

Marcelo M. Teixeira,
Jornalista

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