A marca finlandesa nasceu longe das tecnologia e telecomunicações, com um primeiro produto bastante frugal: o papel.
A origem da empresa finlandesa remonta a 1865, quando o engenheiro Fredrik Idestam fundou uma fábrica de pasta de papel junto às margens do rio Nokianvirta, no sul da Finlândia.
Numa Europa em plena industrialização, a produção de papel era um setor estratégico, impulsionado pela expansão da imprensa, da administração pública e da alfabetização. A localização da fábrica não foi um acaso: o acesso à energia hidroelétrica e à matéria-prima florestal fazia da região um polo industrial promissor.
Uma empresa moldada pela indústria pesada
Durante décadas, a Nokia esteve associada à indústria tradicional. Para além da pasta de papel, a empresa expandiu-se para áreas como a produção de borracha e cabos industriais, acompanhando as necessidades de uma economia em transformação. No início do século XX, a Nokia fabricava desde pneus e botas de borracha até cabos elétricos, essenciais para a eletrificação do país, após a fusão de empresas diferenciadas.
Esta diversificação não era estratégica no sentido moderno, mas sim pragmática: responder à procura, aproveitar competências técnicas e garantir estabilidade financeira num contexto económico volátil. A marca consolidava-se como um grupo industrial sólido, ainda longe de qualquer ligação ao mundo da eletrónica de consumo.
Do papel à eletrónica e aos telemóveis do futuro
A viragem decisiva só aconteceria na segunda metade do século XX. Após a Segunda Guerra Mundial, a crescente importância das comunicações e da tecnologia levou a Nokia a investir progressivamente em eletrónica e telecomunicações. A experiência acumulada na produção de cabos revelou-se um ativo-chave para esta transição.
Alguns anos depois, a Nokia lançou o primeiro sistema celular internacional do mundo, chamado Nordic Mobile Telephone network, que ligava a Suécia, a Dinamarca, a Noruega e a Finlândia. Seguiu-se o lançamento do primeiro telefone para automóvel da empresa e do mundo, chamado Mobira Senator, que pesava cerca de 10 kg.

O lançamento dos primeiros telemóveis móveis marcou o início de uma nova era e o abandono gradual das atividades industriais tradicionais. Em 1984, a Nokia adquiriu a Salora e mudou o nome da sua unidade de telecomunicações para Nokia-Mobira Oy. O ano também marcou o lançamento do Mobira Talkman, que foi anunciado como um dos primeiros telefones transportáveis. Isso significa que ele podia ser usado tanto dentro como fora do carro, embora ainda pesasse cerca de 5 kg.

Três anos depois, a empresa lançou o seu primeiro telemóvel compacto, chamado Mobira Cityman 900, que também foi o primeiro telemóvel portátil do mundo. Apesar de pesar cerca de 800 g e custar cerca de US$ 5.456, vendeu como pão quente.
O primeiro passo antes do ícone
Décadas depois, a Nokia entraria para a história com um dos produtos mais icónicos da tecnologia de consumo: o Nokia 3310. Lançado em 2000, tornou-se um fenómeno global pela sua durabilidade, simplicidade e autonomia de bateria, simbolizando uma era em que o telemóvel era sinónimo de fiabilidade. Para muitos, foi o primeiro contacto com a telefonia móvel, e acabou por consolidar a Nokia como líder mundial num mercado que ajudou a massificar.

O sucesso global da Nokia, que culminou no domínio do mercado mundial de telemóveis, teve pouco de repentino. Foi o resultado de mais de um século de adaptação, aprendizagem industrial e reinvenção constante.
A história do primeiro produto da Nokia – o papel – revela uma lição essencial: grandes marcas raramente nascem no setor que as tornou famosas. Antes da inovação disruptiva, há quase sempre um período de construção silenciosa, feito de produtos simples, competências transferíveis e visão de longo prazo.
Imagens: Nokia
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