Durante quase um século, o dólar foi mais do que uma moeda. Foi o espelho do sonho americano, a promessa de que o progresso tinha língua e bandeira. Hoje, essa fé cambial vacila: o império que fez do consumo um credo e da confiança o seu ouro começa a confrontar-se com a fragilidade da própria […]
Durante quase um século, o dólar foi mais do que uma moeda. Foi o espelho do sonho americano, a promessa de que o progresso tinha língua e bandeira. Hoje, essa fé cambial vacila: o império que fez do consumo um credo e da confiança o seu ouro começa a confrontar-se com a fragilidade da própria crença. Lincoln, do canto da nota, não esconde a curiosidade: será que o sonho americano ainda se sustenta?
Em 2025, a queda da moeda norte-americana está a reescrever cenários económicos globais e a obrigar empresas, investidores e Estados a repensarem estratégias. Segundo a Schroders e a J.P.Morgan, a US dollar caiu cerca de 10% face a um conjunto de moedas fortes desde o início do ano. Para várias estimativas, este é o declínio anual mais acentuado do século até agora.
O quadro global
De acordo com a instituição Morgan Stanley, a divisa norte-americana perdeu cerca de 11% na primeira metade de 2025, marcando o fim de um ciclo de cerca de 15 anos onde o dólar havia sido relativamente forte. A U.S. Dollar Index (DXY), medida que compara o dólar com uma cesta de moedas importantes, registou a pior performance semestral em mais de cinco décadas.
Esse enfraquecimento não é apenas técnico ou passageiro. Como aponta o relatório do European Parliament sobre o papel do euro, há mudanças estruturais em curso: défices públicos nos EUA, dúvidas quanto à independência da Federal Reserve, e fluxos de capital que se deslocam para fora da zona-dólar.
O que isso significa para as economias e os mercados
A narrativa básica pode dividir-se em dois efeitos principais, mas com muitas tonalidades. Para os EUA: um dólar mais fraco pode alimentar retenção do ciclo económico — mais exportações relativamente baratas, mas ao mesmo tempo risco de inflação importada, e efeitos adversos sobre credibilidade financeira. Como destaca uma análise da Cresset Capital, «a queda do dólar reflecte preocupações mais profundas com a sustentabilidade fiscal e credibilidade institucional» nos Estados Unidos.
Para o resto do mundo (especialmente economias exportadoras de matérias-primas, mercados emergentes ou zonas com forte euro): um dólar mais fraco pode servir como impulso desinflacionário, via importações mais baratas, moedas locais mais fortes, inflação controlada, maior crescimento. Por exemplo, a análise da Charles Schwab Corporation refere que «o efeito do dólar mais fraco beneficiou investimentos estrangeiros ao converter ganhos em moeda estrangeira para dólares».
Contudo, a história não é linear: a maior força das moedas rivais pode provocar tensões comerciais (ex: exportações chinesas mais competitivas), medidas proteccionistas e alteração dos fluxos de capital. Alguns vencedores, muitos expectantes.
O despertar do dragão
À medida que o dólar enfraquece, o yuan chinês — ou renminbi — começa a afirmar-se de forma gradual no panorama internacional. Em 2025, a moeda chinesa atingiu máximos de seis meses face ao dólar, cotando-se a 7,2169 yuanes por dólar, o valor mais forte desde novembro de 2024.
Ao mesmo tempo, o Cross-Border Interbank Payment System (CIPS), sistema de pagamentos transfronteiriços chinês, registou um volume anual de cerca de 175,5 triliões de yuanes (aproximadamente 24,45 triliões de dólares) em 2024, um crescimento de 43% face ao ano anterior e mais do que triplo desde 2020.
Estes indicadores mostram que Pequim está a consolidar, passo a passo, uma moeda com cada vez mais relevância internacional. O yuan ainda não desafia o dólar, mas deixa de ser uma mera suplente, tornando-se num instrumento estratégico da diplomacia económica chinesa e numa referência crescente para fluxos comerciais globais.
Para a China, não se trata apenas de finanças: é também uma afirmação política. O ‘despertar do dragão’ acontece no momento exacto em que o império do dólar mostra fissuras. Pequim posiciona-se não como destruidora da ordem monetária, mas como alternativa gradual — pragmática, comercial e estratégica.
O caso português e a zona euro
Para Portugal, inserido na zona euro, o impacto assume contornos específicos. Embora o euro (Euro) tenha beneficiado da queda do dólar e isso seja observável nas estatísticas internacionais de taxas de câmbio.
O relatório do Parlamento Europeu conclui que, apesar das expectativas, a ascensão rápida do euro como moeda internacional não é iminente. Na verdade, o euro permanece principalmente regional. Para Portugal, isso significa que as empresas exportadoras para os EUA ou com componentes cotadas em dólares podem ver ganhos adicionais, dado que o dólar cai e o euro ganha. Por outro lado, bens importados cotados em dólares ficam mais baratos em euros, o que pode ajudar a conter custos para fabricantes ou negócios dependentes de matérias-primas.
Mas há risco: se o dólar continuar a perder valor, o turismo interno dos EUA torna-se mais caro para quem visita Portugal com dólares, o que pode ter impacto no sector. A dependência de financiamento internacional significa que taxas de juro e apetites de risco externo ficam sujeitos à percepção global sobre o dólar e os EUA. Em suma, se o dólar levantar dúvidas sobre a credibilidade dos EUA, isso pode aumentar o custo de capital para a Europa.
Relações com outras economias
Considerando termos mais amplos, nos mercados emergentes, a combinação de um dólar mais fraco, crescimento local e inflação decrescente pode sinalizar um novo ciclo de valorização de moedas. Para investidores globais, um dólar em queda altera a equação de retorno. Significa isto que investimentos fora dos EUA ganham não só em desempenho local mas também na conversão para dólares.
Em contrapartida, economias com forte dívida em dólares ou que dependem de financiamento externo em dólares podem enfrentar contracções de liquidez se o dólar cair por instabilidade e não por força competitiva.
E agora? Para onde vai o dólar?
As perspectivas são cautelosamente inclinadas para uma continuação da queda ou pelo menos para um período de fraqueza sustentada. A Morgan Stanley vê potencial de mais 10% de queda até ao final de 2026. Uma sondagem de analistas da Reuters indica que a maioria acredita que o dólar vai terminar 2025 mais fraco contra as principais moedas.
Entretanto, outras vozes, como a Cambridge Associates, recordam que quedas maiores já ocorreram no passado quando o dólar enfrentou crises estruturais. Resta saber se o actual ciclo é mais do que uma correção temporária.
Assim, para Portugal e para o cenário global, a queda do dólar é um sinal de rearranjo nos investimentos, no comércio e na percepção de poder económico. O eixo monetário pode estar a mudar. Se antes um dólar forte era sinónimo de hegemonia global, agora um dólar em fraqueza obriga a repensar: quem exporta, quem importa, quem financia, quem investe.
E para o leitor português — seja profissional, empresário ou investidor — perceber esta maré significa antecipar oportunidades (como exportações mais competitivas ou importações mais baratas) e riscos (exposição em dólares, financiamento externo, turismo americano). A narrativa já não é apenas sobre crescimento: é sobre adaptação.



