Um Estado que obriga a mostrar o rosto é tão opressor quanto aquele que obriga a escondê-lo. Há temas que não cabem num decreto. Cabem apenas na consciência. Em Portugal, discute-se agora a proibição da burca. Fala-se de segurança, de emancipação, de modernidade. Fala-se de libertar a mulher, de proteger igualdade, de defender a identidade […]
Um Estado que obriga a mostrar o rosto é tão opressor quanto aquele que obriga a escondê-lo.
Há temas que não cabem num decreto. Cabem apenas na consciência. Em Portugal, discute-se agora a proibição da burca. Fala-se de segurança, de emancipação, de modernidade. Fala-se de libertar a mulher, de proteger igualdade, de defender a identidade europeia. Mas, no meio de tantos argumentos, talvez nos tenhamos esquecido de fazer a pergunta essencial: o que é, afinal, a liberdade?
As religiões sempre foram espelho das contradições humanas. Criaram hospitais e travaram guerras, construíram templos e ergueram fogueiras. Durante séculos, a mulher foi símbolo de pureza e de pecado, musa e propriedade, milagre e ameaça.
O cristianismo confinou-a ao recato, o islamismo cobriu-lhe o corpo, o judaísmo fez dela guardiã da casa, o hinduísmo transformou-a em deusa e serva ao mesmo tempo.
As religiões evoluíram, umas mais depressa do que outras. Umas libertaram, outras ainda prendem. Mas todas, de uma forma ou de outra, tentaram definir o que a mulher deve ser.
E agora é a democracia que tenta fazer o mesmo. Em nome da liberdade, decide o que é aceitável. Em nome da igualdade, impõe novas formas de obediência. Aquilo que as religiões não proíbem, o Estado começa a proibir. E, sob o pretexto de proteger, o poder volta a regular o corpo feminino, como se ele fosse território público.
A mulher que é forçada a cobrir-se vive uma injustiça. Mas a mulher que é proibida de o fazer vive outra. A diferença é subtil, mas vital. Num caso, é o fanatismo que dita as regras; no outro, é a própria democracia que se torna fanática de si mesma.
Talvez George Orwell tivesse previsto isto quando escreveu que a linguagem é o primeiro instrumento do controlo. As palavras mudam. Liberdade passa a significar obediência. Igualdade passa a significar uniformidade. A democracia, convencida da sua virtude, começa a decidir o que é fé, o que é respeito, o que é civilizado. E assim, a mesma estrutura que outrora combatia a imposição da Igreja passa a
impor a sua própria doutrina laica.
O problema nunca foi o véu. O problema é o medo do diferente.
Temos dificuldade em aceitar o que não compreendemos, e então preferimos eliminar o desconforto através da lei. Mas a verdadeira liberdade não é confortável, é complexa. E exige maturidade para admitir que nem todas as escolhas com que discordamos são erradas.
Em vez de proibir, talvez devêssemos exigir mais. Sanções, sim, mas para os Estados e religiões que negam educação, que mutilam meninas, que casam crianças, que prendem mulheres por quererem conduzir. Esses são os verdadeiros inimigos da liberdade, e não a mulher que escolhe cobrir o rosto por fé ou tradição.
O que está em causa não é o tecido que tapa o rosto. É o olhar que o julga. E se a democracia começa a legislar sobre aquilo que as pessoas vestem, acreditam ou amam, talvez ela própria já esteja a tornar-se naquilo que sempre prometeu combater.
A igualdade não é fazer de todos o mesmo molde. É permitir que cada uma escolha o seu caminho, sem medo de ser diferente. A mulher que decide mostrar o rosto e a mulher que decide escondê-lo exercem o mesmo direito: o de serem donas de si próprias.
A liberdade não precisa de ser bonita, precisa de ser verdadeira. Um Estado que obriga a mostrar o rosto é tão opressor quanto aquele que obriga a escondê-lo.
Entre ambos, o que se perde é o essencial: a dignidade da escolha.


