Como nos comportamos em público pode parecer um bicho de sete cabeças. Quando chegamos perto de um grupo de pessoas, conhecidos ou amigos, como vamos cumprimentar? Em 2019, muito provavelmente não estaríamos a pensar que abraçar seria um risco ou que fazemos se alguém quiser experimentar a nossa bebida. Em dois anos, as pessoas esqueceram-se […]
Como nos comportamos em público pode parecer um bicho de sete cabeças. Quando chegamos perto de um grupo de pessoas, conhecidos ou amigos, como vamos cumprimentar? Em 2019, muito provavelmente não estaríamos a pensar que abraçar seria um risco ou que fazemos se alguém quiser experimentar a nossa bebida. Em dois anos, as pessoas esqueceram-se de como falar umas com as outras, como interagir, e o escritor britânico Joel Golby aponta um caminho para, que aos poucos, se reaprenda a sermos mais humanos em “So, can I eat on the bus again? And other pressing questions for the return of real life”, publicado no The Guardian. E explica que se existe algo que necessitamos repensar e praticar desde já, é a empatia.
A interação é importante neste papel. Sim, é necessário aproximarmo-nos uns dos outros, mas de forma a entender como cada um se sente mais seguro. Se não se sentir confortável em dar um aperto de mão, seja proactivo e faça uma saudação sem contato, que pode ser um toque de cotovelos ou um namastê. Comer em público, principalmente se estiver com o tempo apertado, e tiver de o fazer em movimento, também tem os seus “quês” de embaraçoso. É o tirar a máscara, pôr a máscara, e esperar por não ter olhares reprovadores ou ter de ouvir um discurso moralista sobre a irresponsabilidade de não usar máscara na via pública.
E nos transportes públicos, especialmente nestes últimos tempos, as pessoas atuam de forma particularmente bizarra. Existem aquelas que usam luvas para não tocarem diretamente nas superfícies, que usam exatamente as mesmas luvas para mexer no telemóvel, as que preferem ficar de pé, no meio de uma multidão, a sentar-se num dos bancos de quatro lugares, para respeitar o distanciamento físico.
Iniciar uma relação, ou até mesmo disponibilizarmo-nos para conhecer alguém, tem sido um processo desafiante. Fosse por ser praticamente ilegal tocar no braço de uma pessoa, fosse pelas restrições que impediam as pessoas de frequentar estabelecimentos de entretenimento e cultura. Por outro lado, se trouxe desvantagens, também fez com que muitos procurassem por conexões mais significativas, e se atribuísse maior importância ao “olhar para as pessoas”.
Entre estas e outras novas realidades, até que ponto é ainda normal estarmos ansiosos com o voltar à normalidade? Após dois anos de medidas que garantiam que o mundo exterior e a vida social eram terreno perigoso e que o ato responsável era abstrairmo-nos do que é, na realidade, parte da natureza humana, podemos ainda sentir aversão ou receio de reiniciar contacto com pessoas que ansiávamos ver, ir a encontros sem máscaras ou até abraçar um ente querido. O certo é que estamos todos a aprender o que é uma sociedade num mundo pós-pandemia, pós vacina, e a dizer “não obrigado” a algo que ainda não nos deixa confortáveis.
As restrições podem estar a diminuir, mas o mesmo não foi feito nas nossas mentes. Desejamos voltar aos tempos que consideramos normais, mas receamo-los de igual modo, o que nos leva a perguntar…e agora?

