Uns dias fora, numa conferência, deram-me a oportunidade de conversar com alguns colegas residentes em França, franceses mas também estrangeiros, sobre os motins dos últimos dias. A versão dos acontecimentos que me pareceu mais lúcida separa duas fases: Fase 1: Um jovem foi assassinado e o agente policial que o matou foi detido; Fase 2: […]
Uns dias fora, numa conferência, deram-me a oportunidade de conversar com alguns colegas residentes em França, franceses mas também estrangeiros, sobre os motins dos últimos dias. A versão dos acontecimentos que me pareceu mais lúcida separa duas fases:
Fase 1: Um jovem foi assassinado e o agente policial que o matou foi detido;
Fase 2: O acontecimento deu origem a graves confrontos.
Os acontecimentos da fase 1 foram graves, mas mereceram o tratamento devido. Os acontecimentos da fase 2 são igualmente graves e merecem reflexão. Para a extrema esquerda, os motins são fruto do instinto revolucionário e da sede de justiça dos jovens racializados. Para a extrema-direita, trata-se simplesmente de destruição e saque a lojas de produtos que interessam a estes jovens delinquentes.
Para quem não está em nenhum extremo, esta é uma situação que aconselha ficar calado. Mas ficar calado não resolve nenhum problema.
Eis algumas notas a retirar: (1) se toda a violência é inaceitável, a violência policial é-o duplamente porque envolve os únicos detentores legítimos do uso da força num estado de direito. Essa força deve ser usada com proporção.
(2) Todos temos agência, isto é, somos responsáveis por aquilo que fazemos. Isto inclui-me a mim e a si, bem como ao jovem Nahel e aos envolvidos nos motins.
Destruir a propriedade de gente por vezes pobre não é um ato de revolucionária nobreza.
(3) A inclusão é importante, mas a responsabilidade pessoal também;
(4) a avó de Nahel é um exemplo de sabedoria;
(5) ignorar que existe um problema e romantizar a violência fazendo dos perpetradores vítimas, é atirar a extrema-direita para o poder. Se calhar já não vamos a tempo de inverter a marcha e um dia alguém virá recordar como os extremos dançaram juntos até entregarem o poder a quem não deviam.

