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Home Marketing Notícias Jogar mais uma vez: o poder social e económico da Nintendo

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Jogar mais uma vez: o poder social e económico da Nintendo

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20 Fevereiro, 2026 | 6 minutos de leitura

Em 1889, numa pequena loja em Quioto, no Japão, um jovem empresário por nome Fusajiro Yamauchi iniciou algo que, à época, parecia modesto: a produção artesanal de cartas Hanafuda, um baralho tradicional japonês. Essa pequena marca chamava‑se Nintendo. Não tinha ecrãs, nem botões, nem mundos pixelizados, apenas papel, tinta e a vontade de divertir.

Ao longo de mais de um século, a Nintendo transformou‑se numa potência global do entretenimento, atravessando revoluções tecnológicas, crises financeiras, mudanças culturais e, ainda assim, mantendo uma identidade própria — criativa, audaciosa e capaz de emocionar milhões.

Os primeiros capítulos: cartas, diversificação, e o primeiro sopro de mudança

Durante décadas, a Nintendo viveu como fabricante de cartas, com tentativas ambiciosas de diversificar para brinquedos, táxis, hotéis e muitos outros produtos, quase sempre sem sucesso. Mas era no jogo, no entretenimento e nas experiências humanas que a empresa encontraria o seu destino.

A verdadeira viragem começou nos anos 70 e 80, com a entrada na eletrónica, produção de jogos de mão e, mais tarde, consolas domésticos. Foi assim que nasceram fenómenos como o Nintendo Entertainment System (NES), responsável por resgatar o mercado dos videojogos nas Américas e Europa.

A consolidação da marca e o mundo digital

A partir dos anos 90 e 2000, a Nintendo consolidou‑se como uma força global:

  • A Nintendo DS transformou a forma de jogar com dois ecrãs e controles intuitivos.

  • A Wii, com controles de movimento, tornou os videojogos mais acessíveis às famílias.

  • E em 2017, o lançamento do Nintendo Switch marcaria uma nova era: uma consola híbrida que domina mercados e define tendências.

Essas inovações  também reforçaram o valor económico da marca.

O poder económico da Nintendo: números que contam uma história

A Nintendo, que começou como uma marca de cartas feitas à mão, hoje compete no pódio das empresas japonesas de maior destaque no mundo corporativo, tanto em valor de mercado como em resultados financeiros.

Receitas históricas

Olhar para as receitas dos últimos anos mostra a natureza cíclica associada ao lançamento de hardware e jogos:

  • Em 2024, a Nintendo gerou cerca de 11,6 mil milhões de dólares em receitas líquidas, com margem de lucro sólida aproximadamente 30% e lucros perto de 3,5 mil milhões de dólares.

  • No ano fiscal encerrado em março de 2025, as receitas caíram para cerca de 1,16 biliões de ienes (perto de 7,15 mil milhões de euros), um recuo de mais de 30% comparado com 2024, devido sobretudo à desaceleração das vendas do Switch original.

  • Em 2025/26, a Nintendo viu uma recuperação com novos produtos — e no período até Dezembro de 2025, as vendas quase dobraram para cerca de 1,9 biliões de ienes (aproximadamente 10,3 mil milhões de euros) com suporte da nova Switch 2.

Lucro: marés que sobem e descem

Os lucros da Nintendo variam conforme os ciclos de produto — especialmente consolas — mas seguem como um dos indicadores mais fortes da capacidade da marca de monetizar criatividade:

  • Em 2024, os lucros líquidos da Nintendo demonstraram robustez, com resultados fortes impulsionados pelas vendas de software e hardware.

  • Em 2025, com a transição entre gerações de consolas, o lucro caiu cerca de 43% para 278,8 mil milhões de ienes (mais ou menos 1,71 mil milhões de euros).

  • No entanto, em 2025, nos nove primeiros meses do ano fiscal, os lucros aumentaram mais de 50%, com a chegada da Switch 2 impulsionando receita e rentabilidade.

Esses números contam uma história ambiciosa: mesmo em períodos de estagnação de hardware, a Nintendo continua capaz de capturar valor através das suas franquias, serviços digitais, licenciamento e novos mercados — como filmes, parques temáticos e experiências imersivas.

Mais que lucros: a marca que inspira mundos

A verdadeira força da Nintendo está na conexão emocional com milhões de pessoas ao redor do mundo. Franchises como Super Mario, The Legend of Zelda, Pokémon ou Animal Crossing estão entranhadas na cultura global, gerando não só vendas diretas, mas também produtos licenciados, colaborações e eventos que reforçam o capital da marca.

Quando grandes franquias se transformam em filmes, parques temáticos ou experiências virtuais compartilhadas, estamos a falar de valor que ultrapassa os números contabilísticos, embora estes sejam igualmente impressionantes.

O regresso ao analógico, o vintage e a nostalgia

Vivemos numa era curiosa: fragilmente digital, mas profundamente nostálgica. Enquanto os jogos modernos avançam em tecnologia, o análogo e o vintage retornam ao centro das atenções culturais.

Jogadores colecionam consolas clássicas, procuram edições limitadas, trocam histórias sobre disquetes da infância e celebram remasters que preservam o encanto do passado.

Este movimento é um testemunho de que a experiência física, a memória tátil e o valor emocional das formas ‘antigas’ de jogar continuam a ter significado num mundo cada vez mais digital.

A Nintendo, com sua longa história e catálogo rico em clássicos, está no coração desse retorno ao vintage. Cada controlo clássico, cada menu pixelizado, cada música nostálgica de Zelda ou Mario reforça um laço entre gerações, e traduz o passado em valor presente.

Uma marca que aprende, transforma e encanta

A jornada da Nintendo é uma das mais fascinantes da história empresarial: de cartas de baralho feitas à mão no Japão do século XIX, a gigante global de entretenimento digital no século XXI; de receitas e lucros que flutuam com o ritmo das inovações; de um catálogo que atravessa fronteiras culturais; e de uma marca que abraça tanto o futuro como o passado.

A Nintendo é um lembrete vivo de que marcas fortes vão além do lucro e das receitas, e que constroem vinculações ao criarem momentos emotivos, histórias e experiências que resistem ao tempo.

É por isso que, séculos depois, o cérebro que começou por desenhar cartas coloridas ainda nos surpreende com números impressionantes e com o simples prazer de nos fazer jogar mais uma vez.

Leia os outros artigos da série:

A Coca-Cola começou numa farmácia: como nasce um ícone?

Dos teares para os chassis: como se cria uma marca icónica de automóveis?

Antes dos supercarros: saiba qual foi o primeiro produto da Lamborghini

Do papel aos telemóveis, como nasceu o ícone da Nokia?

Marcelo M. Teixeira,
Jornalista

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