Vivemos num tempo que muitos analistas já descrevem como de mudança ingovernável. As transformações deixaram de ser episódicas, previsíveis ou totalmente planeáveis. São simultâneas, interdependentes e, muitas vezes, contraditórias. Neste contexto, liderar a mudança tornou-se um dos maiores desafios das organizações - e um dos seus principais pontos de falha.
Embora os executivos estejam habituados a liderar mudanças em ambientes complexos, até mesmo os líderes mais experientes enfrentam dificuldades. Os dados revelam bem a dimensão do problema: apenas 32% dos líderes intermédios e seniores conseguiram implementar a sua última iniciativa de mudança dentro do prazo, sem comprometer o envolvimento e o desempenho das equipas.
Do lado dos colaboradores, a desconfiança é ainda mais evidente. Quase oito em cada dez trabalhadores não acreditam que a sua organização seja capaz de mudar de forma eficaz, fruto de decisões mal-sucedidas no passado.
As investigadoras da Gartner, Kayla Velnoskey, Ingrid Laman e Carolina Valencia analisam, num artigo da Harvards Business Review, estes e outros indicadores.
A mudança ingovernável
De facto, a própria mudança continua a mudar de formas imprevisíveis e incontroláveis pelos líderes e organizações. O que acontece, segundo as investigadores, resulta da convergência de quatro fatores:
- Não só há um volume maior de mudanças, como as mudanças se acumulam e aceleram;
- Não só as mudanças estão a acontecer mais rapidamente, como também são contínuas, sem data clara de início ou fim;
- As mudanças não são apenas maiores em escala, mas também têm múltiplas interdependências;
- As mudanças não são apenas imprevisíveis, mas também são impulsionadas externamente, com impactos vindos de todos os lados: tecnologia, política, incerteza económica, tendências sociais e muito mais.

Tornar a mudança um hábito, não um evento
Face a este cenário, as organizações mais bem-sucedidas estão a abandonar a ideia de que a mudança é um momento extraordinário. Em vez disso, passaram a tratá-la como um processo contínuo, integrado no dia a dia. Liderar deixa de ser conduzir de um ponto A a um ponto B claramente definidos e passa a ser acompanhar uma jornada sem destino final fixo.
Em vez de prometer benefícios futuros cada vez menos credíveis, estes líderes criam urgência ao expor os riscos da inação. O sucesso deixa de ser medido por grandes marcos e passa a ser avaliado por pequenas vitórias consistentes, que mostram progresso real.
A comunicação assume aqui um papel crítico: clara, transparente e bem doseada. Não se trata de dizer tudo a todos o tempo todo, mas de garantir que cada equipa compreende por que razão a mudança está a acontecer, quem será impactado e como essa transformação se liga a outras já em curso.
Preparar pessoas, não entusiasmar momentos
Outro erro recorrente é tentar gerar entusiasmo para cada nova iniciativa. Num mundo de mudança constante, isso torna-se rapidamente exaustivo. O foco mais eficaz está em preparar colaboradores capazes de lidar com qualquer mudança, em qualquer momento.
A adaptação é, antes de mais, um processo emocional. Em vez de tentar eliminar o desconforto, os líderes mais eficazes ajudam as equipas a compreendê-lo e a geri-lo. Muitas resistências não são técnicas, mas identitárias: medo de perder relevância, estatuto ou reconhecimento. Quando essas preocupações são reconhecidas, a capacidade de avançar aumenta, mesmo que o desconforto permaneça.
A par do trabalho emocional, estas organizações investem no desenvolvimento de ‘reflexos de mudança’: competências transversais que permitem reagir, ajustar e aprender rapidamente. Entre elas estão a abertura a novas experiências, a gestão eficaz do tempo, a compreensão do contexto do negócio, o uso inteligente da tecnologia, a colaboração com perfis diversos e a autorregulação emocional.
Estas competências não se desenvolvem em grandes programas formais, mas em pequenos momentos do quotidiano – tarefas, ajustes de prioridades, mudanças subtis de processos – que funcionam como treino contínuo em contextos de menor pressão.
Pensar vários futuros, não apenas o próximo
Por fim, os líderes mais preparados para a mudança ingovernável não se limitam a planear a próxima transformação. Envolvem as equipas na leitura de sinais externos, tecnológicos, regulatórios ou sociais, e na construção de cenários possíveis. Este exercício desenvolve o sentido estratégico coletivo e ajuda os colaboradores a antecipar impactos e necessidades de adaptação.
Quando a mudança muda – como inevitavelmente acontece -, estas equipas não ficam à espera de instruções. Ajustam-se, redesenham processos e avançam com maior autonomia.
Num mundo onde a transformação deixou de ser exceção, a verdadeira vantagem competitiva está em tornar a mudança uma competência organizacional. Não algo a temer ou controlar, mas algo a praticar — até se tornar natural.



