Parece haver na Humanidade uma propensão para ditar aos outros o modo como devem viver as suas vidas – segundo um conjunto de princípios baseados nas leis de Deus ou da sociedade. Compreende-se, claro, que se estimulem princípios positivos. Quando esses princípios se tornam regras, arriscamos, todavia, que uns queiram impor a outros modos de […]
Parece haver na Humanidade uma propensão para ditar aos outros o modo como devem viver as suas vidas – segundo um conjunto de princípios baseados nas leis de Deus ou da sociedade. Compreende-se, claro, que se estimulem princípios positivos. Quando esses princípios se tornam regras, arriscamos, todavia, que uns queiram impor a outros modos de ver, em sua opinião, superiores. Acontece que o superior para uma pessoa pode ser inaceitável para outra.
Por exemplo, apesar de termos leis sobre o consumo de tabaco equilibradas, acaba de regressar a sanha anti-tabaco, para proteger todos, incluindo os que não querem ser protegidos. Num certo sentido, claro, faz sentido. Mas numa sociedade tão ferozmente defensora da autonomia individual num vasto espectro de dimensões, esta perseguição aos fumadores é desproporcional. Note-se: caminhamos para a despenalização do uso de drogas recreativas mas banimos aquilo de que não gostamos: o tabaco, o álcool, a caça, as touradas. Curiosamente, a pressão sobre o tabaco corre em paralelo com a possibilidade de descriminalização das drogas sintéticas – que aliás me parece uma orientação muito assisada.
De resto, o proibicionismo baseado na superioridade moral também chegou às eleições turcas, com Erdogan a acusar o seu concorrente de, entre outras coisas, consumir álcool. Se, sem procurarmos muito, pensarmos no não-fumador Hitler e no seu inimigo Churchill, poderemos concluir que as virtudes e os virtuosos têm muito que se lhes diga. Obrigar os outros a seguirem a minha cartilha virtuosa talvez não seja o caminho para a virtude. Tenhamos cautela com aquilo que desejamos.
P.S.: A propósito da deriva anti-democrática na Turquia, a seguir com atenção, leia-se A Turquia sob Erdogan, de Dimitar Bechev


