O estado das coisas

Abdullah Iljazovic estudou para se tornar imã mas acabou como traficante de droga. Aos 25 anos deixou o “negócio” e dedicou-se à política na sua Brcko (lê Birch-Ko), um distrito com governo próprio na Bósnia-Herzegovina. Em dezembro foi eleito para a assembleia local, o mais jovem de sempre a receber a distinção. Usou o seu passado para persuadir os eleitores, afirmando que com ele “uma grama é sempre uma grama”.

As coisas são mais complicadas do que parecem nesta história contada pelo Financial Times. Brcko é uma zona de 99 quilómetros quadrados reclamada pelos sérvios da República Srpska e pela Federação bósnia-croata. Impede as duas metades da República Srpska de terem continuidade territorial, separando-as. O pequeno distrito tem um papel importante na manutenção dos precários equilíbrios bósnios. Iljazovic explica como funcionam as coisas: para ser um político de sucesso é preciso ser um nacionalista de um dos três grupos étnicos: bósnio, croata ou sérvio. Este estado de coisas teve uma consequência perversa: ninguém se sente seguro, todos se sentem ameaçados.

Como resultado, todos são vocais na defesa do seu grupo étnico. Mas eis o mais perverso de tudo, segundo o político vindo do submundo: este é um sítio onde cada político luta pelos seus interesses pessoais fingindo lutar pelos interesses do seu grupo. Talvez isto não seja um exclusivo de Brcko, num mundo onde os piores políticos se apaixonam por causas divisivas em vez de lutarem, com todas as divergências, pelas causas sobre as quais estamos todos de acordo (acho eu): melhor educação, mecanismos efetivos de mobilidade social, justiça eficaz, um sistema de saúde que nos proteja da doença, uma sociedade inclusiva e tolerante, um mercado capaz de responder às necessidades, um Estado forte e ágil, um novo paradigma na nossa relação com ambiente. Eis o problema: os acordos não dão bons tweets nem títulos bombásticos. O resultado está à vista: os eleitores confiam mais num dealer do que naqueles em que deviam confiar.


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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