Até ao dia das eleições legislativas, 30 de janeiro, a Líder vai publicar diariamente as opiniões e contributos de várias personalidades a quem foi lançado o desafio de responderem à pergunta: O que precisamos mudar? Homens, mulheres, jovens, séniores, caucasianos, negros, crentes e não crentes, qualquer que seja a orientação sexual terão a sua opinião […]
Até ao dia das eleições legislativas, 30 de janeiro, a Líder vai publicar diariamente as opiniões e contributos de várias personalidades a quem foi lançado o desafio de responderem à pergunta: O que precisamos mudar? Homens, mulheres, jovens, séniores, caucasianos, negros, crentes e não crentes, qualquer que seja a orientação sexual terão a sua opinião na Líder e serão capa. Na verdade, esta iniciativa surge no seguimento de uma capa publicada por outro órgão de comunicação social onde só era refletida a opinião de homens, 14 homens. A justificação foi a ausência de respostas de mulheres. A Líder contactou 14 mulheres e responderam 12. A taxa de participação foi de 85,7% . A seguir continuaremos com mais 14 personalidades de cada um dos grupos referidos. Na Líder, a capa é para Todos.

Patrícia Matos, jornalista na TVI durante vários anos e atualmente Head Of Communications MEP Francisco Guerreiro na European Parliament
Ouvi muito, nos últimos tempos, que ‘a vida não dá o que queremos, a vida dá o que precisamos’. Faço parte do grupo de pessoas que tem aprendido lições, que tem encarado dificuldades e tem percebido esta frase t-o-d-o-s os dias!
A pergunta é para um milhão de euros: De que é que Portugal precisa?
Precisa de soluções.
Políticas. Portugal precisa de um Governo estável, sem jogos de poder e com elevado sentido de Estado. Governos curtos aumentam a instabilidade e, ao invés, diminuem a já pouca confiança na classe política. O país precisa de quem promova mais as acções e menos as palavras, as promessas, o que pode ficar para (ainda) mais tarde na lista das prioridades. Precisa de quem sirva a política e não se sirva, apenas, dela. Quem quer que ganhe estas eleições e, não faço apostas, vai ter a árdua tarefa de manter o equilíbrio entre o que é melhor para o partido e o que é melhor para o país. Corremos o risco de voto pelo descontentamento servir para reforçar o populismo, cada vez mais (assustadoramente) crescente em Portugal.
Sustentáveis. Estamos a 6 anos de alcançar o ponto de não retorno, a nível ambiental. O planeta não aguenta tanto consumo desenfreado, tanta produção sem escoamento, tanta poluição, tanta falta de respeito. O aquecimento global é uma realidade. Estima-se que, até 2030, a crise climática possa colocar em situação em pobreza extrema mais de 100 milhões de pessoas, em todo o mundo. Em Portugal, por exemplo, a chuva das últimas semanas não chega para manter o nível das barragens. No Algarve, a situação mais crítica está na Barragem da Bravura, com 14% da capacidade. Não dá, sequer, para a agricultura.
Portugal sofre como um doente hipertenso: toma medicação diária, mas, como não vê resultados imediatos, uns dias vai saltando as recomendações do médico porque ‘só uma vez não faz mal’.
Precisa de humanidade.
A minha mãe está na linha da frente dos cuidados a doentes com covid, integrou há poucos dias, uma equipa de intervenção que vai, exclusivamente, prestar auxílio a utentes. Nesse momento, ligou-me nervosa, tem conseguido fintar esta doença e gostaríamos que assim continuasse. Perguntou o que eu achava da decisão que tinha tomado.
Eu respirei fundo, tentei que não percebesse o meu nervosismo (acredito ter conseguido) e disse-lhe: “Eu faria o mesmo que tu”. E faria.
O que é que esta história tem de novidade? É que nem toda a gente acede a prestar apoio, pelo risco associado. Hesitaram o humanismo, dar a mão no momento-chave, naquele em que é mais preciso. Acredito que é quando a esperança desaparece e os olhos de uma pessoa se esvaziam de crença que podemos fazer a diferença. A incerteza dos dias fica atenuada se alguém estender o carinho, o amor, em forma de cuidado, de presença que, por vezes, também, é de risco.
A minha vizinha da frente tem 84 anos e algumas dificuldades de mobilidade e, com a pandemia, sai ainda menos vezes de casa. No início de 2020 perguntei o que podia fazer, se é que podia fazer algo, para a ajudar. Ela disse que não, não podia fazer nada, que bastava conversar um bocadinho, que já ficava contente com a minha presença e agradecia. Uns dias mais tarde, lembrou-se de algo em que eu lhe podia ser útil.
– Se me pudesse comprar umas revistas, todas as semanas, eu ficava muito agradecida. Não é pelas fofocas, é pelos jogos, gosto muito de fazer os jogos, mantém-me ocupada e com o cérebro activo, disse.
Enquanto estive em Portugal esforcei-me, para todas as semanas, entregar as revistas, como me pedira. Uma vez, no seu aniversário, comprei vários livros de sopas de letras. Chorou de riso, de alegria e os seus olhos ganharam uma vida que não lhes conhecia, até então. Cuidar é estar lá, é estar atento, é estar disponível quando o mundo inteiro está demasiado ocupado.
Precisa de comunicar.
“Bom dia, fofos”.
Foi assim que me dirigi aos colegas de estúdio, antes do início de cada emissão. A resposta não se fazia esperar.
– “Bom dia, fofa”.
Estava instalada a gargalhada e a boa disposição. Nada poderia falhar. Foi assim que aguentámos 10 anos de luta intensas contra o sono, falta de energia, falta de vontade. Trabalhar com pessoas motivadas é como trabalhar com pessoas amadas- ganham coragem e estímulo para cada dia.
Andamos tão distraídos com o ruído de todos os dias e esquecemos que comunicar é simples. Só queremos estar online, ter a aprovação de quem nem conhecemos, colecionar reacções que servem para rigorosamente nada.
Acredito, piamente, que com uma boa comunicação conseguimos ir a qualquer lado. A comunicação é como o silêncio na guerra: ilumina tudo. Um estudo da Harvard Business Review realizado com mais de 400 pessoas nos Estados Unidos da América e no Canadá revela que a comunicação ‘in-person’ é 67% mais eficaz para conseguir apoio do que um vídeo, áudio contra 48% que acedeu ao compromisso
via online. Os investigadores concluíram que nada consegue ser mais eficaz que a presença, com a envolvência, a empatia, a capacidade de ouvir. O que seria se aplicássemos isto em todas as áreas da nossa vida.
Em tempos de pandemia, estar presente significa muitas coisas- é a parte boa e a parte má. Mas podemos ver no veneno o antídoto e aproveitar para desenvolver outros métodos de comunicação mais capazes, mais rápidos, mais humanos. Afinal, “conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas na hora de chegar a um coração, seja apenas um coração”.



