Voz de comando

O meu avô materno era da Armada e tinha uma frase que nunca esqueci: “ordem e contra ordem gera a desordem”. Toda a gente percebe esta máxima, que ele aplicava em casa quando filhos ou netos divergiam sobre o que fazer a propósito de qualquer assunto. Uma, e apenas uma, orientação tinha de ser dada.

Acontece que em Portugal essa voz – a voz de comando – perdeu-se. Se quiserem exemplos, lembro o caso do procurador europeu ou, mais recentemente, a triste figura de um homem inteligente, como o ministro da Educação, a defender a arqueologia soviética da igualdade (se não há aulas à distância para alguns, não há para nenhuns), para depois o primeiro-ministro, com a sua descontração habitual, dizer com o ar mais sério do mundo que nunca tinham sido proibidas aulas à distância a ninguém.

O que houve aqui? Ordem (do ministro); contra ordem (do primeiro-ministro) e desordem total, porque alguns colégios que conheço nunca interromperam o ensino virtual, ao passo que outros cumpriram o que pensaram ser uma determinação do ministro da Educação. Prejudicados – porque por muito desejo e retórica sobre igualdade que exista, há sempre quem ganhe e quem perca – foram os cumpridores; beneficiados, os que mandaram às urtigas o que disse Tiago Brandão Rodrigues.

Ou seja, a desordem total.

Aliás, em muitos outros aspetos se repete a falta de voz de comando: enquanto alguns dos apoiantes do Governo reivindicavam a requisição civil dos hospitais privados, outros achavam que o SNS dava conta do recado sozinho. Acabou-se, no meio da confusão, por fazer o que era mais avisado: um acordo. Mas, tarde de mais. Quando o número de mortos já rondava os 300 por dia.

A voz de comando está quebrada, o primeiro-ministro já não tem o peso que teve, embora mantenha a habilidade de sempre. Mas as habilidades têm o defeito de cansar quem as vê demasiado repetidas. No País, apenas uma pessoa tem legitimidade e envergadura política para ter essa voz: Marcelo Rebelo de Sousa, depois da vitória retumbante – mais percentagem e mais votos, apesar da abstenção – que conseguiu nas eleições da semana passada.

É para ele que os olhos, os ouvidos e todos os sentidos dos portugueses estão dirigidos. Será capaz de recompor a cadeia de comando, de repor na linha o descarrilamento que sentimos? Ou será mais um a contribuir para a desordem, através de ordens e contra ordens?

Acredito que Marcelo não desiluda. Que entenda que o grande problema do País não é a eutanásia que se discutiu no Parlamento (quando o foco de toda a gente está em salvar vidas), ou a ascensão da extrema-direita que se discute nas redes sociais (apesar de 11,9% serem preocupantes). A grande questão é encontrar um rumo certo, decidido, partilhado. Para combater a pandemia, para combater o desastre económico, para distribuir com sensatez e justiça os milhões que veem da Europa.

Voz de comando, democrática, claro, sabendo ouvir os outros, mas sem medo de desagradar a muitos. É o que nos falta e o que já poucos nos podem oferecer.


Por Henrique Monteiro, jornalista e antigo diretor do Expresso

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