Há pouco mais de um ano, as preocupações da liderança eram um pouco diferentes das que hoje tem perante si. Uma altura em que se geria tarefas, prazos, objetivos e pessoas, mantendo-as motivadas o suficiente para cumprirem os indicadores de gestão. E num piscar de olhos fomos empurrados para a era virtual. Aprendemos novas dinâmicas, […]
Há pouco mais de um ano, as preocupações da liderança eram um pouco diferentes das que hoje tem perante si. Uma altura em que se geria tarefas, prazos, objetivos e pessoas, mantendo-as motivadas o suficiente para cumprirem os indicadores de gestão.
E num piscar de olhos fomos empurrados para a era virtual. Aprendemos novas dinâmicas, competências e métodos, criamos novas rotinas e outros hábitos. E durante esta adaptação, as equipas olharam para a liderança em busca de apoio e orientação.

Também a liderança teve de se reinventar. A distância dificulta a monitorização e acompanhamento do trabalho. Não é possível saber o que cada pessoa está a fazer, se está a trabalhar ou a gerir algo da vida pessoal. Não há padrões nem normas, mas sim muita elasticidade e confiança.
E um ano passou, passamos da incerteza de sair à rua para a certeza de o futuro passar pelo remoto. O que antes era “um dia destes vamos trabalhar assim” passou a ser a realidade, o futuro virou presente. Com toda a certeza podemos dizer que a curva de aprendizagem foi vertiginosa, aprimorou-se conhecimento, mas ficou uma clara necessidade de upskilling e de reskilling.
No que toca à liderança, também é necessário um perfil diferente, mais conectado com as competências comportamentais do que com as técnicas, com inteligência emocional, empatia, flexibilidade e uma grande capacidade de comunicação. Que consiga influenciar a equipa e não a controlar.
Convergir o marketing e a liderança
Hoje, espera-se uma liderança um-para-um, visto que os recursos humanos se aproximam cada vez mais do marketing, diria que é preciso agregar o modelo human to human nos relacionamentos, trabalhando as conexões como se fosse marketing de proximidade.
Sendo omnicanal na forma como utiliza os meios e a tecnologia para comunicar com cada elemento da equipa e adaptando o estilo de comunicação aos diferentes canais para criar rapport.
Bryan Kramer com o modelo H2H (human to human) mostra-nos que as pessoas necessitam de fazer parte de algo, de ter uma experiência que adicione valor ao que estão a adquirir. De conhecer, compreender e poder influenciar com o seu contributo ou a sua opinião. O objetivo final é garantir a satisfação com o objetivo de fidelizar a pessoa e levá-la a impulsionar a marca.
É isso que deve fazer a liderança remota, trabalhar a sua marca pessoal e o seu marketing digital, de forma consciente e personalizada. Nada revela melhor a estratégia de liderança do que a forma como comunica, não só diretamente mas também quando não está presente.
A era da Liderança Humanizada
As circunstâncias atuais provocaram incerteza, angústia e isolamento, tornou-se ainda mais importante a humanização do estilo de liderança. Não falamos de gerir pessoas, mas de realmente liderá-las.
Estar fisicamente distante da organização e da realidade do negócio, pode tornar invisíveis os elos que ligam as diferentes tarefas, estes podem tornar-se abstratos, impedindo as pessoas de compreender o seu papel no todo, e conduzindo a uma perda da identidade corporativa. Nunca foi tão importante (re)integrar as diferentes pessoas em equipas, fazendo-as sentirem-se próximas na distância e não solitárias e distantes. A própria continuidade do negócio depende disso.
Alessandra Rosa escreveu “crises são verdadeiros celeiros de oportunidades para aprendermos”. A insegurança e a dificuldade em adaptar-se a estes novos desafios fazem com que esperem respostas rápidas e soluções que ainda não existem. A liderança não pode ser vista como invencível, inabalável ou como um super-ser-humano, com respostas imediatas, capaz de resolver todo e qualquer problema, e ainda motivar a equipa e apoiá-la em todas as questões emocionais. É necessário que mostre o seu lado humano, a vulnerabilidade e até a incerteza que sente, o processo de adaptação é de todos e o líder deve.se mostrar como um elemento da equipa.
Mais importante que apresentar soluções, é continuar a comunicar permanentemente com as pessoas. Segundo um estudo da Harvard Business Review, 70% dos norte-americanos referiu que se sentiam mais conectados (engaged) quando a liderança comunicava a estratégia e se mantinha em constante contacto, mesmo não tendo todas as respostas.
As pessoas precisam de se sentir orientadas e atualizadas, entendendo que o caminho não está traçado mas sentindo o propósito da sua jornada. A comunicação deve transmitir confiança, empatia e transparência, orientando as pessoas para os objetivos individuais mas também coletivos. Afinal, o foco da liderança não está apenas nas pessoas, “tem a ver com mudar a maneira de pensar para entregar resultados, fazendo com que as pessoas se sintam parte do negócio” (Alessandra Rosa).
Falar humano
“It takes a lot of hard work to make something so complex look so easy. Some call it brilliance, but perhaps we should call it speaking human” (Bryan Kramer – There is No B2B or B2C: It’s Human to Human #H2H).
Com isto refiro-me a dar contexto, e nada melhor que ser um excelente storyteller. Uma história bem contada ajuda a entender como algo se encaixa nas experiências de cada um e a dar contexto às decisões que são tomadas. Elas preenchem os espaços em branco, criam relevância e dão cor ao que está a ser falado, tal como faz um vendedor para vender algo.
Voltando à marca própria, é essencial que a comunicação seja feita com autenticidade. Tudo o que é partilhado ou comunicado deve ser fiel à marca e ao estilo da liderança, para haver consonância entre o propósito e os objetivos. Não vale a pena abreviar ou apressar o processo, é importante ponderar e trabalhar de forma estratégica, entrando no mundo da equipa e fazendo a comunicação ressoar de forma natural e sem esforço.
Não é o conteúdo mas a forma como é comunicado, refletindo em como será recebido e até interpretado. O conteúdo apresenta a informação mas é o contexto que conecta com a pessoa e cria ligação. Apesar da volatilidade do contexto, e também porque as pessoas mudam, sendo autêntico na forma como se comunica é possível criar experiências com significado e das quais as pessoas queiram fazer parte.
Não esquecendo que para ser eficaz, é preciso saber ouvir, mais concretamente escutar ativamente. As pessoas têm as maiores expectativas em relação à liderança, não são necessários questionários, estratégias, ou relatórios para conhecer o que pensam. Basta procurar a informação onde ela sempre esteve, a liderança deve ser corajosa e resiliente o suficiente para conversar, escutar e responder. Receber feedback é um presente precioso, principalmente focado em feedforward.
A liderança está perante desafios psicológicos e relacionais, o seu papel passa por não generalizar a forma como comunica. Voltando ao marketing, é fundamental entender o cliente e melhorar a forma como se relaciona com ele. Deve conseguir liderar pessoas, equipas e trabalho remoto.

Por Zoraida Ebrahimo, Formação e Desenvolvimento

