“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”, José Saramago (1995), Ensaio sobre a Cegueira. É desta forma que José Saramago inicia a viagem por um ensaio em que sentimos a angústia de não ver e onde percebemos que visão é sinónimo de poder. A visão é fundamental para nos orientarmos. Para seguir no caminho […]
“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”, José Saramago (1995), Ensaio sobre a Cegueira.
É desta forma que José Saramago inicia a viagem por um ensaio em que sentimos a angústia de não ver e onde percebemos que visão é sinónimo de poder.
A visão é fundamental para nos orientarmos. Para seguir no caminho certo e para evitar perigos que estão à nossa frente. É vital para seguir novos caminhos e ter sucesso no desconhecido. No mesmo livro, Saramago explica que a visão, numa análise mais altruísta, “é a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”. Porém, não é apenas aquilo que vemos com os olhos abertos, mas também aquilo que vemos de olhos fechados.
Visão é capacidade de influenciar. Visão é capacidade de motivar. Visão é margem para errar. Visão é combustível para avançar. Visão é liderança.
Não há líder sem visão, mas também não há visão sem um líder. No entanto, é comum estarmos num ambiente cheio de líderes sem visão, ou repleto de visões sem líder. É por isso que muitas organizações não progridem. Podem até crescer, mas não avançam. Não raras vezes, isto acontece porque a liderança é apenas um status-quo. É-se líder por decreto e não por ambição, intuição ou reconhecimento dos seus pares. Nos momentos de incerteza, ser líder, tem sempre de significar ser o exemplo, ser o primeiro da fila a puxar a corda para colocar a pedra pesada no topo da pirâmide. Significa ter visão para conduzir pelo melhor caminho quem o segue, ter coragem para dar o primeiro passo, mesmo quando não se sabe ao certo o caminho. A primeira visão de um líder, tem de ser o sucesso de quem o segue e nunca o seu próprio sucesso. É neste ponto crítico que as lideranças têm a sua prova de fogo e que se diferenciam os líderes natos daqueles que são instituídos por decreto. É aqui que se percebe quem são os líderes escudo e os líderes escudados.
Mark Cuban, famoso empreendedor norte americano que, entre outras coisas, é conhecido por ser o dono da equipa de NBA Dallas Mavericks, contou numa entrevista que, após a aquisição de equipa por 285 milhões de dólares, não se preocupou em ter um grande escritório ou uma grande secretária. Em vez disso, instalou-se no meio da equipa de vendas, numa mesa igual à de todos os outros, com um telefone igual ao de todos os outros e com uma lista onde constavam os contactos de antigos clientes/adeptos da equipa que deixaram de ir aos jogos. Começou a ligar, um a um, em frente a toda a equipa de vendas, a explicar os novos preços e pacotes de bilhetes e a promover um conjunto de novos serviços, com objetivo de angariar antigos clientes e convencê-los a voltar ao pavilhão para verem a sua equipa favorita. Segundo ele, se vai pedir algo à equipa, ele próprio será o primeiro a fazê-lo e explicou que, desta forma, está a alinhar os objetivos comuns, através do exemplo e da motivação que daí advém, com os objetivos individuais de cada pessoa da sua equipa. Por mais simples que possa parecer, com esta ação, um dos homens mais ricos dos EUA, não só deu exemplo, como se expôs à vulnerabilidade que o insucesso de determinadas ações nos pode colocar. No entanto, nada disso estava no mindset de Mark e porquê? Porque é um líder com visão.
Claro que o medo e a incerteza são parte de qualquer na liderança. Mas esses sentimentos não podem levar a que o líder use a sua equipa para se proteger. O líder que não tem a coragem para ser a ponta aguçada da flecha e que, por medo, se torna o arco de arremesso, deixou de ser líder. O líder tem de ser sempre a força motriz que motiva a equipa a avançar.
Ser líder não significa ter todas as respostas, ou saber todos os caminhos. Ser líder não significa querer para si todo o poder e ser o ditador de todas as regras. Ser líder significa ser humano. Por isso, deixemos os líderes serem humanos e sentirem-se confortáveis a assumir vulnerabilidades. Tiremos dos líderes a responsabilidade de todo o sucesso ou de todo o fracasso. O líder conduz, mas também deixa outros conduzir.
O segredo da liderança, não está em ter apenas um bom líder e uma boa visão. O segredo, reside na capacidade de criar um ecossistema de relações humanas. Sejamos humanos. Humanizemos os nossos líderes, assumamos a responsabilidade de ser o líder que há em cada um de nós.
A liderança precisa de visão. Abram os olhos, vejam e avancem.


