Bernat Castany Prado parecia alguém que já tinha começado a falar antes de chegar. Não trouxe slides, trouxe urgência. E começou com um pedido de desculpas sobre o discurso preparado: «Desculpem que seja tão longo, não tive tempo para o fazer mais curto», citando Charlotte Brontë. Era mais do que uma ironia bem escolhida — […]
Bernat Castany Prado parecia alguém que já tinha começado a falar antes de chegar. Não trouxe slides, trouxe urgência. E começou com um pedido de desculpas sobre o discurso preparado: «Desculpem que seja tão longo, não tive tempo para o fazer mais curto», citando Charlotte Brontë. Era mais do que uma ironia bem escolhida — era um aviso de estilo. A sua filosofia não é dobrada a régua. Vem com terra nas unhas.
Sob o mote ‘Poder sob Pressão — Uma Filosofia Prática do Medo e da Coragem’, no Auditório Maria de Jesus Barroso, na Casa das Histórias Paula Rego, no Festival de Filosofia Espanto, Bernat Castany Prado ensinou que parar também é poder. Que rir é ganhar força. E que filosofar, afinal, é resistir com coragem.
O medo e o riso andam de mãos dadas
Falou-nos de jardineiros. Ou melhor, da sua ausência. Em Vitória, norte de Espanha, os funcionários municipais das flores entraram em greve. E o que aconteceu? A cidade explodiu em cor. Rebentaram as flores, os cheiros, os verdes. «A cidade ficou mais viva sem que ninguém a controlasse. Parar é, às vezes, o que permite crescer», disse. A imagem foi tudo menos decorativa. Era uma tese. Era o manifesto de uma filosofia que se quer prática, rebelde, e profundamente política.
Para Castany Prado, o medo e o riso não são opostos. São irmãos. «O medo e o riso são duas faces da mesma moeda», disse. Rimos quando ganhamos potência — como um bebé que se levanta e ri da sua própria força. E temos medo quando sentimos que essa potência se está a perder — como quem percebe que já não cresce, já não muda, já não espanta. O medo, afinal, é um alerta.
«Todas as flechas ferem. A última mata.» Ele cita os antigos. E depois Lovecraft. Porque há medos que vêm do obscuro, do que não entendemos. E esses são os mais perigosos: roubam-nos o chão. Mas, insiste, «o medo não é o inimigo. É um sensor. Um rombo que bate numa parede e muda de direção.» O problema? Quando o sensor está avariado. Quando o medo é fabricado, induzido, manipulado.
Os mercadores do medo
É aí que entram os «mercadores do medo» — políticos, moralistas, empreendedores de vigilância. Gente que, como disse, “sabe mexer nos fios do nosso interior». Gente que lucra com a nossa ansiedade, que vende patriotismo e câmaras de segurança como quem vende calmantes. «Esta filosofia é prática. E sendo prática, é política.» Castany Prado não foge da palavra. É na arena política que o medo se revela mais destrutivo.
O medo, explica, desarticula as quatro grandes dimensões do pensamento: conhecimento, realidade, ética e política. «O medo deforma o saber, simplifica o mundo, impede o prazer e destrói a política.» Em vez de pensamento livre, dogma. Em vez de realidade complexa, dualismos redutores. Em vez de prazer, ansiedade. Em vez de democracia, obediência.
Coragem: não a ausência de medo, mas o seu reconhecimento
A sua proposta? Recuperar as quatro virtudes cardeais da filosofia antiga. Como bússola e armadura.
- Phronesis – a sabedoria prática, saber o que queremos.
- Andreia – a coragem. «Não é a ausência de medo, mas a decisão de que algo é mais importante do que ele», citando Ortega.
- Sophrosyne – a temperança, para não sermos arrastados pelo entusiasmo ou pela dor.
- Dikaiosyne – a justiça, não como lei, mas como relação. Dar a cada coisa o seu lugar. Pensar em conjunto.
A filosofia, para Castany Prado, só é verdadeira se for vivida. «Pensar a sério também dá medo. Dá medo desmontar as nossas crenças, descobrir que o mundo é mais frágil do que imaginávamos. Mas a coragem é isso: começar apesar do medo. E continuar.»
Contra o dogma, filaleceia
No seu mapa de resistência ao medo, Castany propõe uma «fórmula da Coca-Cola» da filosofia, inspirada em Lucrécio:
- Uma filaleceia, amor pela realidade, como ponto de partida — olhar o mundo com espanto, não com cinismo.
- Um ceticismo lúcido, contra dogmas e fantasias políticas ou religiosas.
- Um hedonismo generoso, que cultive um prazer consciente, não narcísico.
- Uma política do «solidário solitário», nas palavras de Camus — coletiva, mas sem apagar a liberdade individual.
Tudo isto contra a anestesia moderna: «Vivemos num mundo que tenta abafar os nossos medos com ruído, consumo, distrações. Mas talvez devêssemos, como os antigos, reaprender a estar com o medo. A escutá-lo. A deixá-lo orientar — mas sem o deixar mandar.»
Terminar como os heróis: in media res
Castany Prado terminou como começou: sem ponto final. «A filosofia começou por se desviar da epopeia. Mas precisa de recuperá-la», disse. E explicou porquê:
- Porque o herói começa no seu ponto mais baixo.
- Porque parte em busca de grandeza.
- Porque precisa de coragem.
- E porque sabe terminar em qualquer momento.
«Também a filosofia precisa de ser valente. Valente quer dizer: magnânima. E deve saber terminar in media res.» Como agora.
Bernat Castany Prado falou-nos de medo, mas falou com coragem. Lembrou-nos que parar também é fazer. Que rir também é lutar. Que filosofar é, acima de tudo, uma prática do valor — e não apenas do saber. E que há flores que só nascem depois da greve.


