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Abel Campos: «A lei deve estar sempre ao serviço da ética, e não o contrário»

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16 Outubro, 2025 | 5 minutos de leitura

Abel Campos é um dos líderes em destaque da edição nº 31 da Revista Líder, cujo tema é ‘Decidir’, uma vez que o seu ofício consiste, precisamente, em tomar decisões. É Secretário-Geral Adjunto do Tribunal Europeu de Direitos Humanos, contexto onde cada decisão tem impacto direto na vida das pessoas e que exige um equilíbrio […]

Abel Campos é um dos líderes em destaque da edição nº 31 da Revista Líder, cujo tema é ‘Decidir’, uma vez que o seu ofício consiste, precisamente, em tomar decisões. É Secretário-Geral Adjunto do Tribunal Europeu de Direitos Humanos, contexto onde cada decisão tem impacto direto na vida das pessoas e que exige um equilíbrio delicado entre razão, ética e responsabilidade institucional. Entre boas e más decisões e escutar a intuição, o caminho vai-se fazendo, uma escolha consciente de cada vez.

 

O processo de decisão nem sempre é linear. Que papel desempenham os valores pessoais nas decisões que se tomam em contextos profissionais?

Gosto de me definir como um pragmático com princípios. A nossa visão do mundo estará sempre na base, por vezes até de forma inconsciente, da nossa tomada de decisão. Mas o pragmatismo (qual a decisão mais útil e eficaz para resolver o meu problema concreto?) deverá estar sempre presente na equação, sobretudo para quem, como eu, trabalha num contexto profissional internacional/multicultural.

Liderar com impacto exige mais do que convicções: exige a capacidade de transformar complexidade em soluções eficazes e orientadas para resultados.

É nesse equilíbrio entre valores e ação que se constrói uma liderança relevante, capaz de inspirar confiança e promover mudanças significativas.

 

Como distinguimos uma boa decisão de uma decisão segura?

Não distinguimos. A única distinção importante é entre boas e más decisões. Sabendo que, por vezes, aquela que se afigurava na altura como uma boa decisão vem a revelar-se, mais tarde, menos boa ou até má. Porque somos humanos e erramos. Mas, como aprendemos com os erros, a nossa decisão tornar-se-á cada vez mais segura.

 

Como lida com a pressão do tempo e da urgência em processos que exigem ponderação e impacto duradouro?

Existe um ditado cuja ideia é comum a várias culturas, mas que os franceses exprimem com admirável (e raro) espírito de síntese: por vezes, é urgente esperar. Priorizar encontra-se na essência de qualquer processo de gestão. Nenhuma situação,  por mais urgente que pareça, dispensa uma escala de prioridade. Ter critérios pré-definidos para apreciar e determinar essa escala pode ajudar. A pressão é constante, nunca desaparecerá. Regra geral, quanto maior o impacto da decisão maior a necessidade de ponderação. Quanto menos tempo disponível, maior a necessidade de se concentrar nessa e apenas nessa tarefa. Como? Priorizando.

 

Já teve de tomar uma decisão em que a resposta legal não coincidia com a eticamente mais justa?

A lei deve estar sempre ao serviço da ética, e não o contrário. Só assim se alcança a almejada justiça. É inegável que por vezes, sobretudo tratando-se de situações administrativas delicadas,  a aplicação estrita da legalidade formal pode conduzir  a decisões desproporcionais e injustas. O Direito possui ferramentas interpretativas que permitem uma resposta equilibrada a tais dilemas. Mas devemos ter linhas vermelhas. Quando, mesmo após uma interpretação conforme aos princípios éticos e ao espírito da norma, a solução legal se revela injusta, a via adequada é mudar a lei. Nunca violá-la.

 

As decisões pressupõem escolhas que por sua vez determinam caminhos. E a intuição onde fica?

A intuição é a bússola. Antecede a razão, funcionando como uma forma de conhecimento imediato, não articulado por argumentos, mas percebido por sensações e convicções internas. Em contextos complexos, onde os dados são insuficientes ou as variáveis incertas, a intuição actua como um mecanismo de orientação, oferecendo uma percepção que transcende a lógica formal. Atenção, não é irracional: é fruto da experiência acumulada, da sensibilidade e da capacidade de reconhecer padrões.

 

Organização: Tribunal Europeu de Direitos Humanos (TEDH)

Função: Secretário-Geral adjunto do TEDH

Idade: 60

Educação Académica: Licenciatura em Direito e Curso Complementar de Ciências Jurídico-Económicas

O que faz quando tem tempo livre: Leitor voraz, cinéfilo compulsivo, ouvinte atento de música boa e sportinguista incondicional

Livros da sua vida: Tantos, mas, talvez por deformação profissional, acabo por voltar sempre a Crime e Castigo (Dostoievski) e O Processo (Kafka)

Podcasts: Caminhos Globais (declaração de interesses:  participei num dos episódios), vários do Expresso e do Público e o meu absoluto favorito, Soul Music (BBC Radio Four)

Viagem de sonho: como qualquer grande amante de ficção científica, a interplanetária

Líder que o inspira: Nelson Mandela

 

Este artigo foi publicado na edição nº 31 da revista Líder, cujo tema é ‘Decidir’. Subscreva a Revista Líder aqui.

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