Já se passaram vinte anos desde o início do nosso fascínio pelas redes sociais, do nascimento de um otimismo desenfreado e de uma confiança cega nas promessas da conectividade. O encanto de «dar às pessoas o poder de construir comunidades e aproximar o mundo» começou a desvanecer–se com as revelações de Edward Snowden (2013), o caso Cambridge Analytica (2018) e a chegada de Elon Musk ao Twitter (2022).
Além disso, a proliferação de plataformas e a ubiquidade dos telemóveis acabaram por produzir um efeito de saturação que se somou às críticas pela gestão dos dados dos utilizadores, à intervenção algorítmica nos murais e a uma crescente deterioração da qualidade das conversas produzidas pelas intromissões publicitárias e pelos utilizadores tóxicos.
Construir uma marca pessoal através da presença digital deixou gradualmente de ser um exercício lúdico e tornou-se uma tarefa cada vez mais complexa e exigente, que levou à superexposição da própria vida nas redes e a uma dependência doentia de notificações e métricas.
Explica-se, em reação a este contexto, que tenha ganhado força a prática, popularizada por Cal Newport, do minimalismo digital, uma filosofia do uso da tecnologia que incentiva a concentrar a vida online em algumas atividades bem escolhidas e esquecer o resto: «Os minimalistas não se preocupam em perder as pequenas coisas; o que realmente os preocupa é diminuir as grandes coisas que eles já sabem, com toda a certeza, que tornam uma vida boa».
Por isso, enquanto se abandonam rotinas para recuperar a soberania sobre a própria vida, sobre os dispositivos e as redes, torna-se necessário recuperar as práticas que foram deslocadas pela revolução digital: a leitura tranquila de textos longos, a visualização de filmes ou séries e as conversas sem interrupções para consultar o telemóvel, os jogos de tabuleiro, as caminhadas ou corridas sem tecnologia, a contemplação e a criação artística, os passatempos.
Como estabeleceu John Maeda na primeira das suas leis da simplicidade: «A maneira mais simples de alcançar a simplicidade é através da redução racional». Assim, em relação à conectividade, cabe perguntar-se:
Que aplicações instaladas no telemóvel deixaram de ser essenciais?
Que notificações podem ser desativadas?
Que redes deixaram de agregar valor?
Que contactos se tornaram fontes tóxicas?
Digital Detox
Simplificar a relação com as tecnologias de conectividade é hoje uma das formas básicas que a literacia digital assume. Viver num mundo hiperconetado exige, paradoxalmente, aprender a estabelecer espaços e tempos livres de conexão para que o utilizador não se torne um servo da tecnologia que supostamente o ajuda.
Não se trata de defender a desconexão total, que em muitos casos não é possível nem desejável, mas sim a adoção de desconexões periódicas voluntárias. Uma dieta de desintoxicação digital (digital detox) que, entre outros benefícios, permite recuperar o controlo sobre o único bem que não escala em toda a economia da informação: o tempo de atenção.
Repensar a relação de cada um com as tecnologias de conectividade (a Internet, os dispositivos móveis e as plataformas sociais) em termos de simplificação exige reconhecer até que ponto as máquinas conquistaram os espaços e tempos quotidianos, enquanto exige uma redefinição do papel atribuído a esses meios em relação aos objetivos vitais dos seus utilizadores.
Ao desencanto que caracteriza a atual experiência do utilizador nas redes sociais segue-se um novo ciclo de fascínio, desta vez pelas promessas da Inteligência Artificial. Agora, o que está a ser posto à prova é a capacidade dos utilizadores de aplicar o que aprenderam após as inúmeras revoluções digitais que se seguiram à chegada da Internet.
Será necessário regular as expectativas diante do novo tsunami tecnológico para que a grande onda não volte a inundar os territórios que, graças à simplificação, conseguiram preservar-se do avanço das redes. O minimalismo digital pode ser a última linha de defesa para garantir a soberania dos homens sobre as máquinas e para recuperar o controlo sobre o próprio tempo, sempre limitado, e a valiosa atenção, reclamada por todos.
Este artigo foi publicado na edição nº 32 da revista Líder, cujo tema é ‘Simplificar’. Subscreva a Revista Líder aqui.


