As sondagens das presidenciais mexem todos os dias, os comentários aceleram, os cenários afinam-se à hora de fecho. Há quem suba dois pontos, quem estagne, quem dependa agora de um erro alheio. Num cargo onde o poder é sobretudo simbólico, relacional e moral, a decisão organiza-se em torno de presença e o que passa a contar é a forma como cada candidato entende a autoridade, a maneira como a exerce em discurso, a ideia de liderança que transporta antes mesmo de chegar ao poder.
Foi a partir dessa intuição que nasceu o exercício publicado pela Líder na última semana: onze candidatos, onze frases sobre liderança. À medida que o domingo se aproxima, esse exercício ganha outra profundidade. As frases começam a formar padrões que remetem para algo mais antigo do que a própria democracia moderna, com as grandes ideias sobre comunidade e responsabilidade a sondarem a filosofia.
Para perceber melhor essas nuances, detalhámos cada frase, associando-a ao filósofo cuja visão de liderança ou poder mais se aproxima da postura de cada candidato.
André Pestana – Coragem contra privilégios
Frase: «É preciso ter coragem de enfrentar os privilégios de uma minoria»
Análise: Pestana posiciona-se como o defensor da justiça social e da igualdade, crítico das estruturas instaladas. A sua liderança é ética e de confrontação contra desigualdades sistemáticas.
Filósofo compatível: Jean-Jacques Rousseau.
Porquê: Rousseau defendia que a legitimidade do poder deriva da vontade geral e da igualdade; André Pestana encarna a ideia de liderança voltada para a comunidade e a redistribuição de privilégios.
André Ventura – Murros e polarização
Frase: «Sou o Presidente que quer dar um murro na mesa»
Análise: Ventura propõe uma liderança assertiva e polarizadora, centrada em identidade e ordem moral restrita, assumindo uma postura antissistema e, simultaneamente, exclusiva.
Filósofo compatível: Maquiavel
Porquê: Maquiavel concebia a liderança como exercício pragmático do poder, onde eficácia e imposição às vezes sobrepõem-se à moral tradicional. Ventura é o exemplo contemporâneo do líder que prioriza resultados e força simbólica.
António Filipe – Constituição e dever
Frase: «A Constituição não precisa de ser revista, mas tem de ser cumprida»
Análise: Liderança normativa, centrada em deveres e direitos; foco na implementação prática da lei e proteção social.
Filósofo compatível: Immanuel Kant
Porquê: Kant valorizava a ação moral orientada por princípios universais. António Filipe entende a presidência como dever ético de assegurar direitos fundamentais, acima do pragmatismo político.
António José Seguro – Ética e agregação
Frase: «As eleições presidenciais não são de partidos, são de pessoas»
Análise: Seguro sublinha a liderança como agregação e mediação, buscando confiança e proximidade com os cidadãos, evitando divisões partidárias.
Filósofo compatível: Aristóteles
Porquê: Aristóteles via a liderança como prática da virtude em comunidade; Seguro valoriza equilíbrio, prudência e construção coletiva, priorizando o bem comum.
Catarina Martins – Igualdade e foco social
Frase: «Ouvimos atacar os imigrantes porque não se quer debater a economia que temos»
Análise: Martins desafia discursos populistas, defendendo políticas de Estado social, igualdade e atenção à economia real.
Filósofo compatível: Hannah Arendt
Porquê: Arendt via a ação política como espaço de julgamento coletivo e responsabilidade ética. Catarina Martins interpreta liderança como debate público e defesa de direitos, confrontando narrativas simplistas.
Henrique Gouveia e Melo – Rigor e transparência
Frase: «Podem confiar em mim para ser um Presidente que exige rigor, transparência e responsabilização»
Análise: Liderança institucional, focada em clareza, confiança e consistência.
Filósofo compatível: John Locke
Porquê: Locke valorizava regras, contrato social e confiança pública. Gouveia e Melo enfatiza integridade e transparência na administração do poder, como guardião das instituições.
Humberto Correia – Voz e experiência
Frase: «O maior problema do povo português é a habitação»
Análise: Liderança empática, enraizada na experiência social e sensibilidade às desigualdades concretas.
Filósofo compatível: Jean-Jacques Rousseau
Porquê: Rousseau defendia que a liderança deveria atender às necessidades reais do povo; Humberto Correia articula esta ideia em políticas concretas de habitação e justiça social.
João Cotrim de Figueiredo – Modernização e futuro
Frase: «Um país de pessoas paradas é um país parado»
Análise: Liderança orientada para inovação, crescimento e responsabilização.
Filósofo compatível: Friedrich Nietzsche
Porquê: Nietzsche valoriza a ação, o impulso vital e a transformação. Cotrim promove ambição e progresso como eixo da liderança presidencial.
Jorge Pinto – Alternativa e justiça social
Frase: «Os portugueses estão fartos de ter de escolher entre o menos mau»
Análise: Liderança de alternativa, crítica ao status quo, defensora de direitos sociais e sustentabilidade.
Filósofo compatível: Jean-Jacques Rousseau / Karl Marx (mistura)
Porquê: Combina a preocupação de Rousseau com a vontade coletiva e a justiça social com a crítica marxista ao conformismo e desigualdade.
Manuel João Vieira – Irreverência e cultura
Frase: «Só desisto se for eleito»
Análise: Liderança lúdica, simbólica e cultural, mais performativa que política.
Filósofo compatível: Michel de Montaigne
Porquê: Reflete a liderança como expressão de liberdade e sátira, menos institucional, mais ligada à cultura e ao comportamento humano.
Luís Marques Mendes – Experiência e estabilidade
Frase: «Se vencer, sou eu quem vai para Belém e não o PSD»
Análise: Liderança institucional, prudente e estratégica, centrada na experiência e capacidade de mediar crises.
Filósofo compatível: Thomas Hobbes
Porquê: Hobbes valorizava autoridade central e estabilidade como pré-condição para a ordem. Marques Mendes enfatiza a segurança do Estado e a maturidade na gestão de crises.
Eleições no domingo
As urnas abrem no domingo e decidirão o próximo Presidente da República, mas a eleição dificilmente ficará resolvida à primeira. As sondagens apontam para um cenário de segunda volta, com três candidaturas a concentrarem a disputa final: André Ventura, António José Seguro e João Cotrim de Figueiredo. Até lá, as últimas aparições e comentários continuarão a desenhar cenários e a medir perceções.
Aqui, o poder não se exerce por decreto, mas por influência; não cria leis, mas molda decisões. É por isso que a escolha ultrapassa o cálculo imediato. O Presidente que sair destas eleições será, antes de tudo, uma figura de autoridade moral, um intérprete do país em momentos de crise, um mediador entre instituições e cidadãos. É por isso que as frases importam, funcionam como um retrato em negativo. Mostra menos o que se promete fazer e mais a forma como se pensa o poder. No domingo, será essa noção de liderança — íntima, discursiva, reveladora — que muitos eleitores carregarão até à urna.


