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Home Notícias Política Gigantes militares nos Açores: estará Trump a preparar algo maior?

Política

Gigantes militares nos Açores: estará Trump a preparar algo maior?

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23 Fevereiro, 2026 | 6 minutos de leitura

Ao cair da noite na ilha Terceira, as luzes da pista da Base das Lajes recortam-se contra o Atlântico como um traço luminoso no meio da escuridão. Durante décadas, aquela infraestrutura foi sinónimo de cooperação transatlântica, logística discreta e rotina estratégica. Mas nas últimas semanas, o silêncio habitual deu lugar a interrogações.

Movimentos acrescidos de aeronaves militares norte-americanas — incluindo reabastecedores e caças — foram reportados por diferentes plataformas de monitorização aérea e noticiados por diversos meios. Reportagens internacionais confirmaram a presença de meios logísticos de grande dimensão na Europa e nas Lajes, incluindo a aterragem de um C-5M Super Galaxy — um dos maiores aviões de transporte da Força Aérea dos Estados Unidos. Estes movimentos são interpretados por analistas como parte de um reforço de capacidades logísticas e aéreas no continente europeu. Estará Trump a preparar algo maior?

Os registos de tráfego aéreo militar revelam um reforço da presença norte-americana nas Lajes nas últimas semanas, coincidindo com um período de instabilidade no Médio Oriente. Apesar da visibilidade dos movimentos, permanece por esclarecer oficialmente o objetivo estratégico concreto desta intensificação.

Contudo, em Lisboa, o tema não passou despercebido. Já o ano passado, o PCP tinha exigido um «pronto e urgente esclarecimento» sobre o uso da Base das Lajes pelos Estados Unidos, alertando para o risco de Portugal poder ser envolvido, ainda que indiretamente, em operações militares externas..

A questão regressa agora com nova intensidade. E num contexto geopolítico muito mais volátil.

Ormuz, Indo-Pacífico e a lógica da pressão máxima

O pano de fundo é complexo. O estreito de Ormuz — por onde passa uma fatia significativa do petróleo mundial — voltou a ser apontado como potencial epicentro de uma escalada entre Washington e Teerão. Ao mesmo tempo, o Indo-Pacífico continua a ser um eixo prioritário da estratégia norte-americana, nomeadamente através de patrulhamentos conjuntos com aliados como as Filipinas no Mar do Sul da China.

Perante esta multiplicidade de cenários, importa separar perceção de realidade operacional.

Tiago André Lopes, Professor Auxiliar de Relações Internacionais na Universidade Lusíada do Porto e comentador da CNN Portugal, introduz cautela.

«Não temos informação completa sobre o número de caças que passa por mês, por exemplo, pela Base das Lajes, pelo que temos de ter alguma cautela quanto ao uso de expressões como ‘aumento anormal’.»

Ainda assim, o académico admite que a intensificação da utilização da base pode estar ligada a diferentes teatros estratégicos.

«O aumento eventual da passagem de aeronaves dos EUA pelas Lajes pode, de facto, ter que ver com uma eventual operação militar a partir do estreito de Ormuz, mas pode também ter que ver com ações de patrulhamento conjunto [EUA + Filipinas] no Mar do Sul da China. Inclino-me para pensar que são ambos os cenários, ao mesmo tempo.»

A leitura é reveladora: as Lajes podem estar a servir como plataforma de flexibilidade estratégica num momento em que os Estados Unidos mantêm pressão simultânea em múltiplos pontos do globo.

Trump, negociação e dissuasão aérea

A tensão com o Irão é um elemento central da equação. O Presidente norte-americano tem mantido uma postura de pressão máxima, alternando entre retórica negocial e sinalizações de força.

Para Tiago André Lopes, o cálculo político é claro:

«Parece-me evidente que o Presidente Trump não quer abdicar de ter todos os instrumentos negociais em cima da mesa e, por isso, apesar dos progressos sem sede negocial, e dos perigos que um ataque destes acarreta — enumerados por vários aliados dos EUA na região (Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Iraque e Jordânia não são favoráveis a um ataque ao Irão) e fora dela (Reino Unido, Alemanha, França mostraram-se publicamente contra a ideia do ataque) — não podemos descartar já a possibilidade de um ataque conduzido com recurso a meios aéreos.»

A movimentação de aeronaves pode, assim, funcionar como instrumento de dissuasão. Ou como preparação logística. Ou como ambas as coisas.

Portugal entre a NATO e o risco estratégico

A Base das Lajes não é apenas uma infraestrutura nacional. É parte integrante da arquitetura estratégica da NATO. E isso condiciona a margem de manobra política portuguesa.

«A utilização da Base das Lajes faz parte das obrigações de Portugal para com os EUA, no quadro da NATO», sublinha o professor. «A sua utilização acarreta sempre riscos para a segurança nacional, mas a proibição do uso da mesma poria em causa a natureza da participação portuguesa na NATO.»

Nas últimas semanas, dois fatores terão aumentado o peso estratégico das Lajes.

«Por um lado, o Reino Unido proibiu a utilização das suas bases militares para o lançamento de um ataque direto dos EUA contra o Irão — até porque este ataque seria sempre ilegal e ilegítimo ao abrigo do direito internacional público. Por outro lado, os países da região onde os EUA têm bases e pessoal militar rejeitaram, pública e formalmente, a possibilidade do uso dessas bases para ataques ao Irão. Nesse sentido, a Base das Lajes permite aos EUA contornar as dificuldades operacionais e de logística com que se têm deparado.»

A análise é incisiva: quando outros aliados impõem limites políticos e jurídicos, as Lajes ganham centralidade como alternativa operacional no eixo transatlântico.

Uma pista no meio do Atlântico  e no centro da geopolítica

A Base das Lajes já foi determinante na Segunda Guerra Mundial, na Guerra Fria e nas intervenções no Médio Oriente. A sua importância nunca desapareceu; apenas os focos de tensão mudaram.

Hoje, perante um mundo fragmentado, com múltiplos teatros de rivalidade simultânea, o Atlântico volta a ser corredor estratégico. E a Terceira, uma vez mais, deixa de ser periferia para se tornar ponto nodal.

Portugal não decide a geopolítica global, mas participa nela, pelas alianças que escolheu, pelas infraestruturas que disponibiliza e pelos compromissos que assume.

Nas Lajes, os aviões levantam voo quase em silêncio. Mas o ruído estratégico que produzem fazem tremer a terra muito para além da pista.

Marcelo M. Teixeira,
Jornalista

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