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Home Notícias Trabalho Semana de quatro dias: «trabalhar menos valoriza o trabalho», defende Pedro Gomes

Trabalho

Semana de quatro dias: «trabalhar menos valoriza o trabalho», defende Pedro Gomes

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28 Abril, 2026 | 5 minutos de leitura

Fez um ano, no passado dia seis de março, que faleceu José António Saraiva. A minha única interação com o polémico jornalista tinha ocorrido precisamente um ano antes, numa troca de emails sobre um artigo de opinião que escrevera, crítico da Semana de Quatro Dias, com um título provocador, ao seu estilo: «O horror ao trabalho»*.

Escrevi-lhe para explicar alguns dos benefícios económicos e empresariais da semana de quatro dias. A sua preocupação, respondeu-me, não era económica, mas filosófica. O trabalho, dizia, não pode ser visto como uma cruz ou um sacrifício. Deve ser uma realização. No fundo, o nosso valor como humanos vem do nosso trabalho. E, para ele, a redução do tempo de trabalho transmitia a ideia de que o ideal seria deixar de trabalhar ‒ o caminho para uma sociedade diletante, sem valor. 

É verdade que a nossa atividade profissional é uma importante fonte de realização, identidade e participação na sociedade. Mas Trabalho é muito mais amplo. Cuidar dos filhos, da casa ou da família, criar uma empresa, fazer voluntariado, dirigir um clube desportivo, escrever um livro, tocar guitarra numa banda, estudar para um exame, pintar um quadro ou fazer reparações em casa ‒ tudo isto é Trabalho. Alguns de nós têm a sorte de encontrar no emprego a sua paixão. Mas, para muitas pessoas, essa realização pessoal é encontrada noutras formas de Trabalho. 

O problema é que organizamos a sociedade valorizando unicamente o trabalho que decorre da atividade profissional, desvalorizando todas as restantes formas, na linguagem, na política e até nas estatísticas (por exemplo no cálculo do PIB). A semana de quatro dias não é uma tentativa de eliminar o Trabalho. Pelo contrário, é uma tentativa de o reorganizar, de o valorizar em todas as suas vertentes e de o tornar mais sustentável, num mundo em transformação marcado pelo aumento da longevidade e pela revolução da inteligência artificial. 

O aumento da esperança média de vida, combinado com a baixa fertilidade, está a criar uma pressão demográfica à qual temos dificuldade em adaptar-nos. Neste novo contexto, as carreiras podem durar 50 anos e exigem aprendizagem contínua. No entanto, a intensificação do trabalho ‒ impulsionada pela tecnologia, pela aceleração da comunicação e pela especialização ‒ criou uma pressão enorme sobre os empregos, tornado-se insustentável.

Assim, o aumento da idade da reforma ‒ que é essencial ‒ torna-se politicamente difícil, por ser tão penalizador para o trabalhador a viver no limite. O Trabalho, que nunca deveria ser um sacrifício, começa precisamente a ser vivido como tal.

Quando o sonho de muitos é trabalhar o suficiente para se reformar o mais cedo possível, vivendo do capital acumulado, é sinal de que algo precisa de mudar. 

 

A semana de trabalho de quatro dias

Trabalhar menos horas por semana na atividade profissional pode ser, paradoxalmente, uma forma de valorizar mais o Trabalho ‒ tornando-o mais produtivo, mais equilibrado e compatível com uma vida mais longa e diversificada. 

Ao mesmo tempo, a inteligência artificial está a transformar profundamente o mundo do trabalho. Não acredito na falsa promessa (algo hipócrita) de tecno-otimistas como Bill Gates, que sugerem que em breve trabalharemos apenas dois por semana, graças à inteligência artificial. Nem creio que isso seja desejável. Mas acredito que pode ser uma ferramenta poderosa para acelerar a transição para uma semana de quatro dias, ajudando-nos a encontrar um novo equilíbrio que precisamos. 

Como sublinha Daron Acemoglu, prémio Nobel de economia, o progresso tecnológico pode servir para concentrar poder numa minoria ou para melhorar as condições de vida da maioria. A forma como utilizamos essas tecnologias é uma escolha coletiva. 

Num mundo de maior longevidade, temos de repensar o valor e o uso do tempo. A semana de quatro dias não é um elogio do ócio no sentido de inatividade. A tradição filosófica da Grécia Antiga tinha outra visão. Para Aristóteles, o ócio não significava preguiça, mas a possibilidade de dedicar tempo ao pensamento, à cultura e à inovação ‒ uma condição essencial para o desenvolvimento humano. 

A semana de quatro dias não garante automaticamente esse resultado. Algumas pessoas irão simplesmente descansar mais ‒ e isso já seria positivo. Outras poderão estudar, mudar de carreira, criar uma empresa, cuidar da família ou participar mais ativamente na comunidade. O essencial é que tenham a liberdade de escolher. 

No final da nossa troca de emails, José António Saraiva escreveu: «A troca séria e civilizada de opiniões é sempre fecunda e enriquece-nos.» Dias depois, perguntou-me se eu veria inconveniente em que, num futuro texto, citasse passagens das minhas mensagens. Faltou-lhe tempo para o escrever. Escrevo-o eu agora, como homenagem a alguém que, como eu, amava o seu trabalho. 

No fim, o tempo não espera por ninguém. Cabe a cada um de nós usá-lo da melhor forma ‒ mas cabe também à sociedade criar as condições para que isso seja possível. A semana de quatro dias é uma peça essencial desse novo equilíbrio. 

 

* https://sol.iol.pt/2023/12/14/o-horror-ao-trabalho/

 

Este artigo foi publicado na edição nº 33 da revista Líder, cujo tema é ‘Condição Humana’. Subscreva a Revista Líder aqui.

Pedro Gomes,
Professor Catedrático em Economia em Birkbeck (Universidade de Londres), autor de Sexta-Feira é o Novo Sábado, co-cordenador do projeto-piloto de Flexibilização laboral na Administração Regional Autónoma dos Açores

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