Relatório internacional alerta para o impacto crescente da ansiedade, depressão e 'burnout' no mercado de trabalho. Até 2030, um terço dos trabalhadores poderá viver com uma condição de saúde mental em vários países, trazendo também impacto económico.
Prevê-se que, em países como a Austrália ou o Reino Unido, um em cada três adultos em idade ativa seja afetado por problemas de saúde mental até 2030. As pessoas nestas condições perdem, em média, cerca de dois meses de vida saudável por ano (entre 60 e 67 dias), e as perdas de produtividade associadas podem atingir 5% do PIB. O impacto já é visível nas empresas, nos níveis de absentismo e na saída progressiva de trabalhadores do mercado laboral.
Estas são algumas das conclusões do relatório The Value of Mental Health, da Zurich Insurance Group, que alerta para o impacto económico das questões de saúde mental. O estudo revela que os maiores custos associados a estes problemas se encontram fora dos sistemas formais de proteção. Destaca ainda a responsabilidade significativa que recai sobre as famílias e os indivíduos, que podem chegar a prestar até 1.275 horas de cuidados informais não remunerados por ano.
O custo invisível: perdas de produtividade podem atingir 5% do PIB
O impacto económico da saúde mental está longe de ser residual. O relatório estima que as perdas de produtividade associadas a estas condições poderão representar até 5% do PIB em alguns mercados até ao final da década. Mas o problema não está apenas nas baixas médicas. Em muitos países, a principal perda resulta da redução da participação laboral e do afastamento prolongado do trabalho.
Na Malásia, por exemplo, as perdas económicas relacionadas com saúde mental poderão atingir 34 mil milhões de ringgit até 2030, sobretudo devido à menor participação no mercado de trabalho. Pessoas com condições de saúde mental têm menos probabilidade de permanecer empregadas, criando impactos estruturais na economia e nos sistemas de proteção social.
O estudo sublinha ainda que o absentismo é apenas uma parte do problema. O chamado presenteeism – trabalhadores presentes, mas com níveis reduzidos de produtividade – continua largamente subestimado. A ansiedade, a depressão, o burnout e outras perturbações relacionadas com o stress estão entre os problemas de saúde mental mais prevalentes no contexto laboral
Saúde mental retira dias de vida saudável
A análise, feita em seis países (Alemanha, Austrália, Chile, Emirados Árabes Unidos, Malásia e Reino Unido), demonstra que as pessoas que vivem com problemas de saúde mental perdem entre 60 a 67 dias de vida saudável por ano. Isto traduz-se numa perda anual de 0,3 a 2,9 milhões de anos de vida saudável por país, o que representa entre 7% a 14% da perda geral de bem-estar. Este peso é comparável ao impacto de todos os tipos de cancro em conjunto, que representam entre 6% a 19% na maioria dos países.
A ansiedade surge como a condição mais prevalente em vários países analisados. No Reino Unido e na Austrália, representa já entre 49% e 51% dos casos registados de saúde mental, podendo ultrapassar os 56% até 2030 caso a tendência continue.
Segundo o relatório, esta evolução está ligada a uma maior capacidade de diagnóstico e reconhecimento precoce, mas também ao aumento da pressão sobre os jovens, que enfrentam contextos de maior instabilidade emocional, económica e social.
No Reino Unido, a prevalência das condições de saúde mental atinge sobretudo adolescentes e jovens adultos, num fenómeno que está a «redefinir as bases da futura força de trabalho». O estudo alerta que os problemas de saúde mental começam cada vez mais cedo — muitas vezes antes da entrada no mercado de trabalho.
Empresas tornam-se linha da frente da prevenção
Perante o aumento da pressão sobre os sistemas públicos de saúde, o papel das empresas está a mudar rapidamente. O local de trabalho deixa de ser apenas o espaço onde os problemas se tornam visíveis para passar também a ser um espaço de prevenção, apoio e recuperação.
O relatório destaca a crescente adoção de programas de apoio psicológico, linhas de assistência emocional, horários flexíveis, acompanhamento especializado e modelos de reintegração profissional.
No Reino Unido, algumas organizações já implementam estratégias focadas na prevenção precoce, incluindo redes internas de apoio à saúde mental, programas para colaboradores neurodivergentes e acompanhamento psicológico contínuo. Especialistas defendem que manter as pessoas ligadas ao trabalho, com apoio adequado, pode ser determinante para evitar afastamentos permanentes.
Intervenção precoce será decisiva na próxima década
O relatório conclui que a resposta à crise de saúde mental terá de começar mais cedo e de forma mais integrada. Apoio psicológico nas escolas, literacia emocional, acesso rápido a cuidados, serviços digitais e reforço das redes comunitárias são apontados como prioridades.
A lógica é simples: quanto mais cedo chega o apoio, menor a probabilidade de situações temporárias se transformarem em condições crónicas, afastamento laboral ou exclusão social. A saúde mental está, assim, a tornar-se uma das grandes questões estratégicas da próxima década – não apenas para governos e sistemas de saúde, mas também para empresas, líderes e economias inteiras.


