O cenário de crise internacional gerado pela Guerra na Ucrânia coloca cerca de 40% dos portugueses sem margem financeira, caso exista um agravamento da situação. E devido à guerra, 73% admite que os seus hábitos de consumo foram afetados, pelo menos, em parte.
Estas são parte das conclusões de um estudo da Deco Proteste, organização de defesa do consumidor, que analisou o impacto da guerra na Ucrânia na vida dos consumidores portugueses, através de um inquérito online realizado em maio de 2022. De acordo com os dados obtidos, quatro em cada dez inquiridos dizem não ter margem financeira, se a crise se agravar. Ainda assim, sete em dez são a favor das sanções à Rússia. Cerca de três quartos dos cerca de 1050 participantes revelam que a invasão russa, em marcha desde fevereiro, tem afetado, pelo menos, parcialmente, a sua qualidade de vida.
Conduzido em paralelo na Bélgica, em Espanha e em Itália, o estudo mostra que a conjuntura está a afetar uma importante proporção de europeus. O receio de gastar dinheiro nestes tempos incertos foi uma das consequências que a guerra trouxe – 81% dos portugueses confirmam esta preocupação. No entanto, a proporção é muito mais baixa nos restantes países incluídos na análise, oscilando entre os 58% da Bélgica e os 63% de Espanha.
O inquérito aponta para que os portugueses estejam a cortar no que consideram supérfluo. Em termos gerais, verificou-se que 73% reconheceu que parte dos seus hábitos de consumo foram afetados. Por exemplo, a alimentação tem sido uma das esferas mais afetadas pela inflação, com mais de metade dos inquiridos a escolherem marcas mais baratas no supermercado, como as das insígnias (53%), e com 40% a cortarem nos alimentos que não entendem como essenciais, como é o caso do álcool, dos doces e dos salgados.
Em casa, a água e a energia também são usadas com mais moderação e 46% dos participantes afirmam desligar mais vezes os eletrodomésticos ou evitar usá-los. Nas deslocações, metade dos inquiridos revelam usar menos o carro e 35% alegam fazer uma condução mais económica. As atividades sociais, culturais e de lazer também sofreram uma redução prudencial e a compra de produtos de lazer e de vestuário está em compasso de espera ou foi mesmo cancelada. Quanto à educação, constata-se que um em dez participantes tem passado por mais dificuldades quanto ao pagamento das despesas de educação dos filhos.
Para já, a saúde é a área em que os portugueses menos ajustes se dispõem a fazer. Segundo os resultados, os cuidados dentários, a compra de óculos ou aparelhos auditivos, as consultas e as sessões de psicoterapia têm sido adiados ou cancelados num moderado número de situações. De entre os inquiridos, 64% dizem-se ainda afetados no plano da saúde mental, com a maioria a estimar a continuação do aumento dos preços da energia (91%) e dos combustíveis (89%), duas variáveis que podem agravar o custo de vida.
Mas os portugueses percebem que não é só pela guerra que os preços estão a subir: 87% consideram que muitos produtos sem relação com o conflito estão agora mais caros. Ao futuro económico incerto, soma-se o receio de um cenário nuclear, presente na mente de 75% dos portugueses, contrastando com a visão dos participantes de outros países europeus – apenas 56% a 67% de belgas, italianos e espanhóis revelam idêntico estado de espírito.
A subida dos preços traz incerteza para o futuro próximo. Quase um em quatro dos europeus que participaram no estudo descrevem a situação financeira do seu agregado familiar como difícil, e 39% afirmam que estão pior do que há um ano. Em termos europeus, são 35% os que dizem não ter margem de manobra financeira, se a situação se agravar, valor ligeiramente abaixo da realidade portuguesa (40 por cento).
Apesar de o panorama não se mostrar favorável, belgas, espanhóis, italianos e portugueses mostram solidariedade com os ucranianos. O futuro dos consumidores está a mudar significativamente e o mesmo se pode dizer do futuro das organizações de consumidores. Para que os europeus não percam liberdade de escolha nem bem-estar, é necessário continuar a desenvolver soluções à medida das suas necessidades, mas também trabalhar com os mais relevantes e responsáveis intervenientes no mercado.
Ao todo, foram recolhidas as opiniões e as experiências de 4191 cidadãos portugueses, belgas, espanhóis e italianos, com idades entre os 25 e os 74 anos.
“É preciso garantir que temos a capacidade de incorporar nas empresas novas formas de organização dos tempos de trabalho. Vamos testar, numa lógica voluntária e aberta, diferentes modelos de organização, em que Portugal será um País laboratório de novas formas de trabalho.” Ana Mendes Godinho, Ministra do Trabalho, da Solidariedade e Segurança Social, partilhou os próximos desafios do mercado de trabalho, no âmbito da Leading People – International HR Conference, “Act Now for Human Health”.