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Rita Saldanha

Migração e talento: Portugal precisa de «rejuvenescer com este capital humano»

14 Janeiro, 2025 by Rita Saldanha

Como pode Portugal atrair mais talento do que aquele que sai do país e ceder a condições de competitividade para que os jovens fiquem?  Portugal garante segurança e qualidade de vida, mas a crise da habitação, a fiscalidade e a burocracia são travões para o desenvolvimento. Sem esquecer as questões culturais, no meio empresarial, onde existe «uma cultura pouco meritocrática e pouco dada à competitividade e inovação».

As palavras são de Carlos Sezões, presidente da plataforma Portugal Agora, um Think tank aberto à sociedade, cujo objetivo é debater propostas e iniciativas para um Portugal atrativo, acolhedor e integrador.

Prestes a cumprir 10 anos de atividade, a Líder conversou com o responsável da plataforma sobre a visão de um país mais cosmopolita e agregador de talento e os principais desafios que se apresentam no horizonte.

Estes são parte dos temas de uma agenda que vai estar em debate amanhã, em Lisboa, no encontro Novas Migrações e Atração de Talento que reúne especialistas e stakeholders políticos, económicos e empresariais. A conferência, uma iniciativa da Portugal Agora, serviu de mote para esta conversa e recolha de impressões.

Migrações e Talento

Segundo uma recente análise, em seis anos, o número de estrangeiros em Portugal mais do que duplicou e são agora mais de um milhão, o que representa em 2023, um aumento de 33,6%.

«Temos mesmo de atrair talento, muitas vezes do ponto de vista quantitativo. Como se diz, o país parava se não tivéssemos imigração, e é verdade». Carlos Sezões aborda a necessidade de uma visão «realista, sem preconceitos nem enviesamentos» e adverte que Portugal tem de perceber onde necessita de talento e onde pode ser menos burocrático e mais inovador.

«Não faz sentido fechar o país e tentar que um jovem de 20 e poucos anos se forme em Portugal e fique necessariamente aqui, com esta sua vida. O que temos de lutar é por condições de atratividade para que os saldos migratórios sejam positivos em quantidade e em qualidade».

Num Mundo globalizado vão sempre haver movimentos, quer de saída ou de entrada de pessoas. O que é um «bom sintoma». O que implica atrair mais gente do aquela que sai, porque existe a necessidade, no mercado de trabalho, de combate à escassez de talento.

«Países abertos ao Mundo, que tem capacidade de integração, inclusão e que são atrativos, seguramente são mais bem sucedidos do que países fechados», defende.

Advogar uma imigração com planeamento, regras explicitas nos países de origem e combater redes de tráfego ilegal, resulta, na sua perspetiva, numa «sociedade mais rica e diversa que atrairá mais talento, e pode adquirir também mais capital». Para tal, a organização defende a aplicação de políticas mais cirúrgicas e segmentadas para atrair talento, nos próximos cinco anos.

A visão da plataforma Portugal Agora é taxativa: «queremos ser um país aberto, acolhedor, que possa integrar bem», e acrescenta, «uma imigração completamente desenfreada e sem qualquer preocupações de acolhimento e integração só pode gerar situações de conflitualidade cultural ou social, como alguma ansiedade em relação à insegurança».

Sobre as migrações, pode haver pequenas pausas, como as Pandemias, ou surgir «questões político-ideológicas e culturais, de construir muros, ou tentar impedir, numa atitude de protecionismo ou nacionalismo, mas o fluxo de milhões de pessoas em busca de qualidade de vida é imparável».

Pressuposto que completa com a ideia de que «não vai haver nenhuma fortaleza na Europa, e não acredito que Portugal vá fechar-se, também não fazia qualquer tipo de sentido». Portanto, «vamos ter mais migrantes e queremos ter mais migrantes seguramente e desejavelmente, mais qualificados, porque também tem impacto na nossa Economia e sociedade». «Ter imigrantes bem integrados vai depender muito daquilo que é o esforço do Governo, mas também de toda a sociedade civil a integrar», afirma.

Estas questões multidisciplinares dependem da segurança interna e dos novos processos da AIMA (Agência para a Integração, Migrações e Asilo), bem como da rede diplomática e consular. Há que cuidar da própria integração cultural, nomeadamente no apoio dado aos imigrantes. «Portugal tem a capacidade para que as coisas corram bem, na ótica de uma coesão social e simbiose entre a população portuguesa com outras culturas», partilha.

Somos um país que necessita objetivamente de todo este sangue fresco da migração e que tenha capacidade de se rejuvenescer com este capital humano que nos ajuda a nível económico.

No campo da formação e criação de talento dentro de portas, há uma visão clara de Portugal com projetos académicos que podem levar o país «a ser a Austrália da Europa, numa perspetiva de um ensino superior virado para o mundo». E acrescenta os pontos favoráveis: segurança, um bom framework de infraestruturas de comunicação, um ensino superior que já está a modernizar-se, com uma língua franca e o inglês que permitir atrair estudantes desde a Escandinávia até o Hemisfério Sul.

«Podemos ter essa ambição de ter aqui uma indústria que pode valer mais até mais 70% do valor que tem hoje em dia, facilmente», partilha.

 

Portugal Atrativo, Empreendedor e do Conhecimento

Estar à frente do Portugal Agora é, conforme explica, o seu «lado B», pois na sua vida profissional é Managing Partner da Darefy. Parte do projeto desse a sua fundação, em 2014, Carlos Sezões conta que o objetivo na sua génese foi «balizar uma visão estratégica de um país em três grandes dimensões: Portugal Atrativo, Empreendedor e do Conhecimento». Após o período da Pandemia, foi adicionada uma nova dimensão:  o Portugal Resiliente.

A missão da plataforma é recolher propostas e iniciativas concretas, num estilo de «crowdsourcing de ideias». Como plataforma aberta à sociedade, com eventos abertos, são reunidos muitos contributos, para além do «benchmark internacional para perceber as boas práticas do que é se faz fora de Portugal».

Tentamos ser um Think tank muito pragmático, que passe do diagnóstico à estratégia e da estratégia à ação, aliás esse é o mote e assinatura do projeto: da estratégia a ação

Apesar de não ter uma perspetiva de executores, algumas das ideias já passaram à ação. «A nossa perspetiva é ser muito inclusivos  e que muitos agentes possam executar estas iniciativas e propostas. Não é necessariamente ser apenas o Estado Central ou o Governo a executar, como podem ser autarquias, fundações, universidades ou empresas.»

Ter um polo universitário em Carcavelos que atraísse estudantes de todo o Mundo, hoje NOVA SBE, tinha sido um projeto já pensado e discutido entre este fórum. Assim como outros temas como as ligações aéreas diretas entre Lisboa e China, a revisão dos sistemas fiscais relativamente às startups, na perspetiva de atração de empreendedores, focados no talento, entre outros.

«Sendo não executores, pois não temos robustez quer financeira ou de capital humano para executar, a nossa missão é colocar estes temas na agenda pública», afirma.

 

Arquivado em:Notícias, Sociedade

Isabel Barros entre os 100 melhores responsáveis de Sustentabilidade da Europa

11 Dezembro, 2024 by Rita Saldanha

Isabel Barros, administradora executiva da MC e responsável pelo pelouro da Sustentabilidade, foi reconhecida como uma das 100 Chief Sustainability Officers (CSO) mais influentes da Europa. Esta nomeação coloca a profissional como a única portuguesa a integrar a lista dos CSO Awards 2025, que distingue os líderes visionários em Sustentabilidade Corporativa.

Os CSO Awards, promovidos pelo instituto europeu Futur/io, têm como objetivo destacar os responsáveis de empresas que estão a liderar com impacto e inovação o caminho para um futuro mais sustentável.

O vencedor do prémio será conhecido a 20 de janeiro de 2025, em Davos, na Suíça, no âmbito do Fórum Económico Mundial.

Esta nomeação reflete o trabalho contínuo e a dedicação incansável da MC para assegurar que a Sustentabilidade está cada vez mais no centro da nossa estratégia, da gestão dos nossos negócios e da proposta de valor que entregamos diariamente. Pessoalmente, é uma honra estar nomeada ao lado de líderes tão inspiradores, que admiro profundamente. Apenas um compromisso conjunto dos diferentes elos da cadeia e de cada um de nós, permitirá uma resposta efetiva aos desafios da agenda da Sustentabilidade. Este tipo de iniciativa é fundamental para acelerar esta transformação

Isabel Barros, Administradora Executiva da MC

Arquivado em:Notícias, Pessoas

Leonor Sottomayor é a nova Diretora de Assuntos Institucionais da Tabaqueira

3 Dezembro, 2024 by Rita Saldanha

Leonor Sottomayor assume a liderança dos Assuntos Institucionais da Tabaqueira, subsidiária portuguesa da Philip Morris International (PMI), substituindo Rui Minhós, que a partir de janeiro de 2025 passa a assumir funções ibéricas como Diretor de Scientific Engagement para Espanha e Portugal.

A profissional, até agora Head of Public Affairs na Sonae, conta com uma experiência profissional na área de Assuntos Governamentais. Começou a sua carreira no Ministério dos Negócios Estrangeiros, como assistente política, tendo passado pela Confederação de Agricultores de Portugal, pela RAR – Refinarias de Açúcar Reunidas até chegar à SONAE, em 2015. Leonor Sottomayor é licenciada em Português e Línguas Estrangeiras Aplicadas na Universidade Católica Portuguesa e mestre em Política Internacional pelo Centre d’Études des Relations Internationales et Stratégiques (Université Paris XI, em Bruxelas).

A chegada de novo talento à Tabaqueira, altamente qualificado, com o objetivo de reforçar a relação com os nossos muitos e diversos stakeholders – outras empresas, decisores, organismos públicos, academia, parceiros sociais, economia social e sociedade civil – representa uma enorme oportunidade para construirmos novas parcerias que robustecem a nossa capacidade de pensar e de fazer melhor, ao mesmo tempo que mitigamos as externalidades negativas dos nossos produtos e das nossas operações, preparando a nossa empresa para o futuro

Marcelo Nico, Diretor-Geral da Tabaqueira

 

Arquivado em:Notícias, Pessoas

Jaime Rodríguez de Santiago é o novo Diretor-Geral da Airbnb para Espanha e Portugal

29 Novembro, 2024 by Rita Saldanha

Jaime Rodríguez de Santiago é o novo Diretor Geral para Espanha e Portugal da Airbnb Marketing Services SL. O profissional conta com 15 anos de experiência em gestão, empreendedorismo e operações internacionais em empresas do setor tecnológico.

Iniciou a sua carreira na Zhilabs, uma empresa de big data. Posteriormente, fundou a 6cero, uma plataforma de jornalismo cidadão, integrou ainda a BlaBlaCar, onde foi responsável por Espanha, Portugal e Alemanha. Mais tarde, assumiu a direção geral para a Europa do Sul e Ocidental da FreeNow.

Para além das suas responsabilidades empresariais, Jaime Rodriguez de Santiago é atualmente diretor do Programa de Liderança e Gestão do Instituto Tramontana e apresenta o Kaizen, um podcast de aprendizagem contínua.

Como empresário, tenho seguido a Airbnb de perto e sempre fiquei impressionado com os benefícios que as viagens podem trazer às comunidades. A Airbnb não só apoia as economias locais, como também promove viagens autênticas e sustentáveis. Estou ansioso por fazer parte da próxima fase do percurso da Airbnb e por destacar o potencial de Espanha e Portugal

Jaime Rodriguez de Santiago, Diretor Executivo da Airbnb Marketing Services

O Jaime é a pessoa perfeita para liderar os negócios da Airbnb em Espanha e Portugal. O seu espírito empreendedor, combinado com muitos anos de experiência a trabalhar com equipas internacionais e a escalar grandes empresas num ambiente profundamente colaborativo, será um grande trunfo para a comunidade Airbnb. Temos a sorte de contar com a criatividade e a paixão do Jaime para nos ajudar a seguir em frente

Emmanuel Marill, Diretor Regional da Airbnb para a região EMEA

 

Arquivado em:Notícias, Pessoas

«D. João V foi um líder notável – nele se vê o caminho para se tornar ele mesmo» (Pedro Sena-Lino)

26 Novembro, 2024 by Rita Saldanha

João V (1689-1750), o rei “Magnânimo”, sobe ao trono aos 17 anos e coloca Portugal no centro das luzes do estilo barroco, da riqueza e do luxo. Fantasma do despesismo, do escândalo, dos excessos, das turbulências e do sexo. Quem foi este homem e que marcas deixou na História?

Depois da Biografia de Marquês de Pombal, De Quase Nada a Quase Rei, (Contraponto), Pedro Sena-Lino publica El-Rei Eclipse, a biografia de D. João V, a partir das cartas pessoais, correspondência diplomática, jornais de época e narrativas de viajantes.

Neste livro, o biógrafo procura revelar o que fez deste homem o rei-sol: «o que fez e como fez esta pessoa para tornar-se ela mesma?» A Líder esteve presente na sessão de lançamento, no Palácio Marquês de Pombal, em Oeiras, no início de novembro, após a qual seguiu-se a entrevista com o autor.

Guilherme Oliveira Martins referiu que com Dom João V ‘temos os prolegómenos (conjunto de noções preliminares) do nosso iluminismo’ – o que está neste livro que corrobore esta afirmação?

João V foi um líder notável, sobretudo porque nele se vê o caminho para se tornar ele mesmo, os medos interiores e exteriores que escalou até que se tornasse ele mesmo. Nasceu para ser rei, foi ‘sebasticamente’ desejado, mas em muitos casos sofreu um eclipse, tão natural nos homens e nos astros, onde aprendeu a ser. Tanto, que desenhou rei e até parcialmente reino à sua imagem.

A esse processo de desocultação identitária correspondem também várias decisões que são consciente e projectadamente iluministas, e de que destaco: a Real Academia da História (de onde saíram o primeiro dicionário, a primeira descrição bibliográfica, fundamentais livros de História como a História Genealógica da Casa Real Portuguesa); enviou músicos e pintores para estudar em Roma; comprou e fundou bibliotecas que queria abertas com aulas práticas. Sonhara viajar pela Europa porque queria rasgar rios de conhecimento, como Pedro o Grande fizera pouco tempo antes na sua viagem (1697-98) pela Alemanha, Holanda e Inglaterra. Na sua vida pessoal, emerge da minha investigação o rei leitor compulsivo, sobretudo de Geografia e Matemática. Um homem que gostava de aprender como as coisas funcionavam: mete-se no meio das obras, quer aprender. Adorava conversar, perdia-se a falar com pintores, músicos, cientistas: que queria aprender. Ao contrário de Luís XIV não fazia da sua vida privada um espetáculo, embora fosse espetacular.

O que tinha D João V, tanto de luz como de sombra, que o faz ser um eclipse?

O título é uma provocação de várias formas; queria que fosse um daqueles claro-escuros barrocos, tão labirinto quanto joia. Mencionando apenas duas leituras: que dizer de D. João V que ele foi o rei-sol português é uma redução, e que a sua ação e a sua personalidade estão-nos quase ocultas, mas ainda assim emitem brilho. Era um homem convicto, corajoso, orgulhoso, mas também tomado por pesadas noites da alma. Contudo, no título queria igualmente vincar que subiu ao trono durante o eclipse da guerra, e que demorou tempo a encontrar o próprio brilho; mas também o outro eclipse, no fim da vida, durante 8 anos acamado e limitado. É um convite à desocultação. Ele também é eclipse porque não quiseram ver de frente a sua luz por vezes escura.

Não tivesse havido o ouro do Brasil, como seria este Rei?

Sobre isso não sei responder, porque entraríamos no campo da história virtual. O que juram os diplomatas franceses é que na década de 1710 se dependia tanto do ouro do Brasil que enquanto não chegavam os barcos quase se esvaziavam as caixas das esmolas em desespero. Assim conta o diplomata quase espião Viganego: «há bastante inquietação pois não há dinheiro aqui, nem na corte, nem na cidade; é quase incrível até onde esta necessidade vai. Não se pensa mais nem na paz, nem na guerra, nem nos embaixadores; só se pensa e fala na frota.»

O certo é que havia um plano cultural – das ideias que encena e realiza. Se imita Luís XIV é porque este vai procurar os modelos do império romano para se construir. D. João vai à fonte romana para recriar o tecido artístico e intelectual português. Com que fundos o teria feito não sei; mas o reinado abunda de boas medidas que talvez tivessem dado frutos e que são bem pensadas: ao seu ministro principal cardeal da Motta, contrariamente ao que se diz, não faltava um pensamento económico claro, o seu secretário Alexandre de Gusmão assinou várias visões económicas. Penso que ser Midas cegou o arquiteto que nele havia.

Referes a influência de duas mulheres ‘invisíveis’ no seu caminho. Quem era esta dupla feminina e o papel de cada uma individualmente?

A imagem frequente do rei é de um homem obcecado com a religião, beatão, de vida dupla: incontáveis as amantes, entre as quais freiras – mas que prendia os outros amantes de freiras. Achava-se acima da sua lei, e mesmo para as leis divinas achava poder ter qualquer tipo de exceção ou desconto.

O problema de D. João V é que foi usado um padrão repetitivo e redutor para o ler. E tão frequentemente, tantas reduções escondem uma amplificação. A Madre Paula representa isso: é a mulher que a ele associamos pelo escândalo de namorar uma freira de Odivelas e de ter um filho com ela, aí fazer um pequeno palácio dourado para os seus encontros, ter um filho que fez fazer Arcebispo. Escolheu-a e certamente amou-a ao seu jeito e contra todas as potências da terra e do céu.

Ora isto esconde as duas mulheres que o fizeram ser, que o tornaram ele mesmo. A mãe, a rainha D. Maria Sofia, segunda mulher de D. Pedro II, verdadeira chave perdida para compreender o final do reinado daquele e o sistema joanino. Morreu quando D. João V tinha quase 10 anos, mas educou-o na fé e na consciência de que era um grande príncipe europeu. Tudo o que a mãe decidiu em vida vai cumprir nos primeiros anos de reinado. Uma dessas decisões traz consigo precisamente a segunda mulher, prima direita de D. João V por via materna, arquiduquesa de Áustria, com quem a mãe o queria casar.

Ligando Portugal de novo ao centro da Europa, aos Habsburgo, era também pressionar a questão da igualdade entre potências católicas que será uma das obsessões joaninas. Esta mulher, D. Maria Ana, chega a Lisboa durante a Guerra da Sucessão Espanhola e encontra D. João V amancebado no Paço com uma das suas aias, a quem fizera promessas de casamento.  Se D. João sobe ao trono com ideias claras – um programa a cumprir com Roma, por exemplo, passa os primeiros anos fazendo muito pouco.

Os franceses passam a ideia de que ele vive entre devoções e sexo, ambas excessivas. Nesse sentido é um excesso do pai, um marialva exemplar, e a mãe, quase uma santa viva. É, porém, a mulher e a doença que o acordam para o papel que tem de cumprir. É ela que dinamiza o Paço com música e novos rituais, que o acompanha silenciosamente nas decisões difíceis, que sabe sempre o seu lugar, mas que não deixa de lhe apontar o que pensa, enquanto educa e prepara os filhos. Tiveram zangas longevas, por causa das múltiplas amantes e porque os assuntos internacionais se metiam entre eles. No final da vida, quando lhe passa a regência, doente, sem bem a passar (outra desfeita…), chama-lhe “à rainha minha sobre todas minha muito amada e prezada mulher”. Não sei o que teria sido sem ela. Olhamos para a fachada de Mafra e lá está: a igreja no centro, a ala da rainha de um lado e do rei de outro, iguais; uma assunção, uma prova de amor.

 

Começas pela Biografia do Marquês de Pombal, cronologicamente posterior a D. João V, e agora, deste um passo ‘atrás’ para, tal como diz José Eduardo Franco, no prefácio, ‘ligar as fontes e fazer as fontes falar’?

Creio que essa é a pergunta que um biógrafo tem como estrela polar ao longo do seu processo – e que se torna depois em page-turner, espera-se, para o leitor: o que fez, quem fez, como fez esta pessoa para tornar-se ela mesma? Como deu à luz a si mesma? E o que isso significa, para além da sua identidade?

Foi esse precisamente o motivo que me afastava de D. João V; mais, que me fez hesitar na escolha sobre ele, que me levou tanto tempo na biografia a começar a conseguir compreendê-lo. É que D. João é um homem que nasce no cargo, vem ao mundo para o trono; é quase messiânicamente aguardado e trombeteado pelo Padre Vieira. Interessava-me mais compreender como um homem passara da quase irrelevância para a luz, e mais, criara uma identidade única para si mesmo, na sua representação e no sistema de poder – como foi o caso de Sebastião José. O seu trono de ministro, foi feito da matéria de muita exclusão, mas também da madeira de muitos caixões por si selados. D. João V, por seu turno, parecia-me, como dizem os brasileiros, um “filhinho de papai”, nascido no ouro. Nada mais errado, compreendi-o depois de terminar a biografia. Em dimensões diferentes, com opostos obstáculos, D. João V teve até maiores dificuldades em tornar-se ele mesmo do que Sebastião José. Depois de ver Sebastião José construir-se do quase nada, era um desafio perceber o mundo onde ele emergiu contra tantas adversidades, e compreender o rei que nascera para isso. Um reverso inescapável.

Que pontos em comum encontras entre os dois homens e o que julgas ser incompatível?

No tempo em que ambos confluíram, D. João V entreviu o talento de Sebastião José, mas não conseguiu ver o homem que em boa parte o eclipsaria.  D. João gostaria de ter tido as luzes de Londres e Viena que Sebastião José bebeu com dor. Ambos aprenderam com solidão, mas tiveram extraordinárias mulheres que lhes abriram consciências.

Quando Sebastião José tem de decidir, o modelo é muito joanino, sendo que ele não é rei. Sebastião José é um alpinista que se cima com ventos favoráveis e uma capacidade de trabalho tirânica e titânica. Unia visão e a ação de raríssima forma. D. João V teria apreciado isso, mas gostava ele mesmo de fazer e decidir. E gostava de sábios e de gente verdadeira, da puta ao sábio. Era um homem de amizades fortes e afetivas, com imenso sentido de humor (e um mau humor épico). Percebe-se que recebeu da Mãe um amor incondicional e do Pai uma certa leveza, um gosto pela vida, mas triste. Com os seus amigos não era rei: com o astrónomo Carbone discutia descobertas astronómicas e mandava aos embaixadores pedidos que encontrassem novos artigos e dados cosmológicos. Metia as mãos na terra, engenheiro, vivendo em Mafra num quartinho simples. Tinha crises místicas e fechava-se na Arrábida como um monge. Já de Sebastião José disse celebremente antes de morrer a mulher de D. João V: «refalsado».

Como biógrafo, acreditas que ‘o poder do mais pequeno gesto gera consequências intergeracionais irreversíveis’. Que gestos, pela mão de D. João V, ressoam até hoje?

É um redemoinho que sofregamente liga a minha memória e a minha imaginação abraçados num vórtice: pensar como um gesto, uma decisão, uma hesitação, causaram tanto dano na vida de tantos, e sucessivamente. Na biografia de Sebastião José, o silêncio de Lisboa custou-lhe em Londres e Viena a saúde e grandes ideias que se tivessem ido em frente teriam causado grandes diferenças, como a criação de uma Companhia Oriental.

Nesta biografia, cada início de manhã de trabalho, quando me detinha à secretária, olhos fechados, antes de começar a trabalhar, limitado por um cansaço quase de Sísifo, podia por vezes quase entrever essa tapeçaria finíssima, mas a cada segundo adensando-se: eram vidas que se entrecruzavam e que esbatiam e esfarelavam, por causa de atos tão banais. O vórtice é maior quando o poder e a riqueza estão concentrados em demasia nas mãos de um ser só. Os pobres trabalhadores que morriam sem comida nem condições em Mafra: quantas crianças ficaram por nascer, quantos filhos desse projeto poderiam ter gerado tantos outros artesãos ou artistas?

A biografia desses seres esmagados e esquecidos – eram essas que eu gostaria de contar. Entendo a biografia histórica literária como uma forma de intervenção. Se é evidência limitante e classista que me foco num rei, no topo da pirâmide e não no leito de invisíveis e cadáveres sobre quem o seu poder se construiu é porque me move a urgência de compreender como e de que modo a sua personalidade, como raios, se intrometeu e como no seu raio de ação.

 

A biografia desperta e gera uma luta que deveria ser incansável pela igualdade de oportunidades. Com que erros do passado podemos aprender?

Gostaria de pensar que eu escavo o passado quebrado para o voltar a unir como um espelho de consciência. Ao alargar a consciência pessoal, expande-se a de pertencer a uma comunidade, espraia-se a nossa consciência coletiva. Não suporto biografias romanceadas porque encanar a perna à verdade é não crescer, é não ver a partir dos factos e permitir uma consciência real e alargada.

A biografia não é apenas descrição da vida – é representação da vida para que a consciência acorde do seu eclipse e uma nova consciência pessoal possa emergir. E até uma alertada consciência coletiva, sobre as feridas dos nossos líderes que se tornaram operativas e nossas, parte da nossa identidade comum. De como mecanismos feridos pessoais se tornaram vícios que bloqueiam um fluir de comunicação e de progresso. Não apenas aprendemos com as vidas dos outros – elas não são apenas monumentos, mas falhas tectónicas para nos acordar e nos expandir.

Nas notas finais da tua apresentação, referes: ‘Este não é o livro que eu queria ter escrito. É um livro que fica muito aquém do que eu gostaria de ter feito’. Se pudesses voltar atrás o que terias feito diferente?

Não se trata tanto de fazer de forma diferente: há uma técnica, entre escavação de arquivos, stalking de passos perdidos e obsessões arquitetónicas de construção que já fazem parte de mim. A biografia forma, mas também educa e amplia. Este livro precisava de uma década em vez de quatro anos para ser escrito. Esse tempo, infelizmente, eu não lhe poderia dar. Espero que eu tenha aberto suficientes escadas para leitores e escritores as explorarem.

Afirmas que por agora, as biografias acabaram, mas o que gostarias ainda de escrever?

Agora quero reaprender: quero ver o tempo escrever em mim. Não me sirvo da escrita, sirvo-a. Aguardo, escutando, o que o tempo e o silêncio me quiserem dar para que trabalhe: aqui estou, à porta da História.

 

 

Arquivado em:Entrevistas, Leadership, Notícias

Voltar a tornar a América grande: as primeiras impressões

6 Novembro, 2024 by Rita Saldanha

Donald Trump é eleito o 47º Presidente dos EUA naquele que é o regresso mais surpreendente da história política do país. As primeiras reações fizeram eco um pouco por todo o Mundo, com o The Economist a referir o presidente reeleito como uma «lenda política», «um criminoso condenado que tentou subverter as eleições presidenciais de 2020» e que agora está prestes a regressar à Casa Branca.

No âmbito da sua atividade profissional, Donald Trump foi condenado em Nova Iorque por mais de 30 crimes e nesse capítulo torna-se no primeiro Presidente, condenado e com cadastro, a ser escolhido pelo povo americano.

Foi após ter confirmado o Estado da Pensilvânia que Trump declarou a vitória dos Republicanos, num discurso feito ontem ao final da noite, na Florida «Esta é uma vitória magnífica para o povo americano que nos permitiu voltar a tornar a América grande. Por algum motivo fizemos história hoje, e é claro que alcançamos a mais incrível vitória política. Vamos ajudar o nosso país a curar-se. Temos um país que precisa de muita ajuda. Vamos reparar as nossas fronteiras, tenho de reparar tudo no nosso país», referindo-se à América viver uma «Era de ouro».

Fonte: The Economist

Os resultados oficiais dão uma vitória ao candidato republicano, com 277 votos e 224 para a democrata Kamala Harris, relevando uma «mudança para vermelho» por todo o país. De acordo com o NY Times, Trump melhorou a margem de votos em 2367 condados, apenas decrescendo em 240 condados, quando comparado com as eleições em 2020. Como avançava o The Economist: «Trump pode até ter conquistado o voto popular, algo que não aconteceu na sua primeira vitória, em 2016».

Na véspera das eleições, Marcelo Rebelo de Sousa, manifestava a sua preocupação em declarações à RTP2: «Vou dizer porque estou preocupado. Por uma razão simples, enquanto um se vencer, isso significa um mau relacionamento com a Europa. Do outro lado encontramos uma posição que é de maior colaboração entre os Estados Unidos da América e a Europa. Isso faz a diferença, sobretudo no momento em que a Europa não está bem economicamente».

Hoje, ao início da manhã, já se fizeram sentir reações nos mercados, com as ações da Tesla a disparar 14% na Bolsa de Frankfurt, para além do dólar, e com o petróleo a baixar 1%. A emigração ilegal, a guerra da Ucrânia, a saúde das mulheres e as políticas de impostos são alguns dos temas que vão agora estar, mais do que nunca, no foco da política nacional e internacional.

Oito anos depois Donald Trump regressa à Casa Branca

Donald Trump vai assumir o cargo de presidente dos Estados Unidos da América durante quatro anos, ocupando o lugar na Casa Branca a partir de janeiro de 2025.

O que vai estar em jogo?

Ao longo dos próximos dias, a Líder partilha a opinião de alguns Conselheiros e personalidades públicas.

America First. Europe Last?

Por Carolina Afonso, CEO Gato Preto e Professora ISEG

A vitória de Trump em 2024 marca o seu regresso à presidência dos EUA e representa um novo teste para a Europa. Sob o lema “America First”, Trump coloca em destaque os interesses americanos, obrigando os europeus a reverem as suas estratégias em áreas essenciais como segurança, economia e clima. Na sua primeira presidência, Trump criticou frequentemente os países europeus por “não pagarem a sua parte” na NATO, o que levantou dúvidas sobre o compromisso dos EUA com a segurança do continente. Agora, com o seu regresso, renasce a urgência de uma “autonomia estratégica” europeia, uma ideia debatida mas que exige um compromisso financeiro e político por parte da União Europeia, num cenário de desacordos internos.

No plano económico, é expectável um reforço do protecionismo que caracterizou o primeiro mandato de Trump. Durante esse período, os EUA impuseram taxas a vários produtos europeus, como automóveis e bens agrícolas, para tentar reduzir a dependência do exterior e fortalecer o mercado interno. Se esta política se intensificar, a Europa enfrentará desafios acrescidos, já que o mercado americano continua a ser fundamental para muitas das suas exportações.

O tema climático é outra área de possível conflito. Trump retirou os EUA do Acordo de Paris no seu primeiro mandato e, com o seu regresso, existem receios de que a luta contra as alterações climáticas volta a não ser prioritária. A União Europeia, que se posiciona como líder na transição ecológica, poderá ver-se isolada nos seus objetivos ambientais, dificultando uma cooperação global efetiva neste domínio.

A nível diplomático, a postura de Trump também implica novas pressões para a Europa. Trump mostrou preferência por acordos bilaterais e uma certa proximidade com líderes autoritários, uma abordagem que poderá dificultar a coesão de respostas multilaterais e obrigar a UE a tomar posições mais independentes em crises globais, desde as tensões no Médio Oriente até às rivalidades com a China. Além disso, o seu sucesso poderá alimentar o crescimento de movimentos populistas e nacionalistas na Europa, como os que já ganham força em países como França e Itália, desafiando a unidade e a estabilidade da União Europeia.

Outro ponto de impacto será o setor da tecnologia e inovação. Com o provável endurecimento das relações entre EUA e China, Trump poderá pressionar os países europeus a alinharem-se mais com os interesses tecnológicos americanos, colocando em causa a neutralidade estratégica da Europa e aumentando a pressão sobre as suas empresas.

Desta forma, o regresso de Trump obriga a Europa a enfrentar uma nova realidade. Se, por um lado, a sua abordagem mais agressiva e protecionista representa um desafio, por outro, torna clara a necessidade de uma estratégia europeia mais independente. Assim, em resposta à questão “America First. Europe Last?”, o futuro depende cada vez mais da capacidade da Europa de encontrar uma liderança forte e coesa. A Europa não tem de ficar para trás, mas só conseguirá manter a sua relevância global se reforçar a sua autonomia e resiliência perante a nova era de “América Primeiro”.

 

“A panela a ferver”

Por Nelson Ferreira Pires, General Manager da Jaba Recordati

O Mundo parece uma “panela a ferver” e com a vitória de Trump – que deve ser respeitada pois os eleitores americanos são os decisores – apenas vai “aumentar” a temperatura. A dimensão da “esperada” vitória mostra uma América “decidida” e não “dividida”. Ganha a presidência, o senado e tem a maioria do supremo tribunal.

Julgo que, internamente, vai começar por “corroer” as instituições americanas para as dominar, como o supremo tribunal. Vamos voltar ao “primado do petróleo”, ao isolamento geoestratégico mundial e ao protecionismo comercial, mas também a um possível risco de dívida pública (a maior do Mundo).

Falta ainda saber qual é a equipa que Trump vai selecionar, que pode influenciar muito o futuro das suas decisões. O foco da política externa vai virar-se para a Ásia e Médio Oriente, pelo que a Europa vai ficar em 2º lugar em termos políticos, económicos e militares, o que constitui uma ameaça, mas também uma oportunidade, pois a Europa não tem uma elevada dívida pública. Por outro lado, a Europa será obrigada a olhar para o relatório Draghi e sair do seu conforto e rotina, do seu mosaico de interesses por país, executando o plano de ação de forma coordenada e planeada, complementando por estado-membro e “federalizando” as decisões.

Em suma, a “panela está a ferver” para a Europa e resto do Mundo. Vamos ver se a Europa sabe aproveitar a oportunidade, tornando-se numa verdadeira comunidade europeia!

 

O dia do retrocesso

Mariana Canto e Castro, Human Resources Director & Head of Legal Department, Randstad Portugal

A vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais norte americanas é um duro golpe para a democracia daquele país, com graves repercussões em todo o mundo.

Os EUA intitulam-se “land of the free, home of the brave”; não o demonstraram com esta escolha, pois é esta escolha que ao longo do seu mandato irá destruir esse mesmo conceito (novamente).

Os EUA são, também, um dos raros países do mundo que consagram na sua constituição o direito do “pursuit of happiness”: não é com uma escolha destas que o vão conseguir; nem sequer aqueles que ontem votaram neste homem.

Há que perdoar-lhes, pois, de facto não sabem o que fazem.

 

O povo americano votou livre e democraticamente e elegeu o seu Presidente

Isabel Neves, Business Angels Club

Isabel Neves, Presidente do Clube de Business Angels de Lisboa e Membro da Direção da Investors Portugal

 

Goste-se ou não, temos de respeitar a decisão de um povo soberano. Os Americanos demonstram com o seu voto que estão mais preocupados com a Economia do país do que com os direitos Humanos ou com os direitos das Mulheres.

Com Trump eleito, serão reforçadas políticas protecionistas e será travada a cooperação internacional, no âmbito do comércio, das questões ambientais e mesmo das alianças tradicionais, impactando diretamente as relações comerciais e geopolíticas, os fluxos migratórios e a economia global.

As suas políticas voltadas para o nacionalismo, protecionismo e desregulamentação terão assim implicações profundas para a economia mundial, nas relações internacionais e nas questões globais, como as alterações climáticas e os direitos humanos. Na política interna, a vitória de Trump gerará maior polarização política, maior divisão social e intensificação das tensões sociais, com a sua abordagem aos temas da emigração, direitos civis e justiça social.

Na política externa, Trump apostará no isolacionismo e nacionalismo, enfraquecendo as organizações internacionais, como a ONU, a NATO, e os acordos multilaterais, como o Acordo de Paris sobre o clima. A eleição de Trump resulta assim num cenário mais imprevisível e turbulento, tanto internamente nos EUA quanto no palco global. Deixo um desabafo ainda sobre estas eleições Presidenciais Norte Americanas: que nenhuma Mulher conte com os votos das outras Mulheres para a sua eleição como Presidente de uma Nação, nos EUA ou em qualquer outra parte do mundo.

 

De novo Trump: quando a realidade ultrapassa as narrativas (pela segunda vez)

Vânia Guerreiro, Head of Brand, Communication & Happiness da iServices

As eleições presidenciais nos Estados Unidos, que terminaram com a vitória de Donald Trump, trouxeram à tona uma preocupação crescente com a credibilidade dos media e com a capacidade de oferecer uma análise realmente neutra. Durante meses, os media e os comentadores destacaram uma “corrida equilibrada” entre Trump e Kamala Harris, criando uma expectativa de que Harris teria uma chance real de vitória. No entanto, essa interpretação não refletiu a realidade e expôs mais uma vez as fragilidades de um jornalismo cada vez mais desacreditado, que se afastou da objetividade ao tentar promover uma narrativa conveniente. Isto revela uma realidade que me preocupa em particular: haverá hoje, em Portugal, uma enorme falta de capacidade para se noticiar a política de forma imparcial e objetiva?

Sendo liberal, humanista e moderada, confesso que sempre tive sentimentos contraditórios sobre ambas as candidaturas. Por um lado, Trump causa-me óbvias reservas pelo seu caráter instável, divisivo e polarizador. Por outro, Kamala Harris mostrou-se vaga e pouco convincente, especialmente em temas centrais como a economia. Enquanto Trump, com toda a sua controvérsia, mobilizou e comunicou, inteligentemente, sempre para as suas bases, Harris não conseguiu comunicar com os indecisos uma visão clara e transformadora para o país. Esta falta de clareza acabou por lhe custar votos – uma realidade que, de alguma forma, foi ignorada pela narrativa mediática predominante.

Como cidadã portuguesa – que nunca viveu nos EUA e que apenas conhece o país na qualidade de turista e de observadora atenta – não sei ainda qual será o  verdadeiro impacto do resultado eleitoral nos EUA e no Mundo. Por este motivo, a minha análise não pretende fazer futurologia (não possuo estudos para tal). Mas posso fazer outra coisa: analisar as análises e comentar os comentadores do jornalismo nacional.

 

O desfasamento entre as análises e a realidade

A questão fundamental reside no desfasamento entre o que era projetado pelos órgãos de comunicação social e o que realmente se passava. Já em 2016, tínhamos assistido a uma tendência para subestimar Trump e as suas bases eleitorais. Em 2016, acreditava-se que Hillary Clinton era a favorita, uma impressão amplamente disseminada pelos media. Agora, em 2024, assistimos ao mesmo erro, com Harris a ser vista como uma candidata forte, quando na realidade os eleitores americanos a viram de maneira bem diferente. Essa insistência numa visão favorável aos democratas levanta dúvidas sobre a imparcialidade dos media e da análise que é feita para o público.

 

A dependência perigosa das sondagens

As sondagens desempenharam, mais uma vez, um papel enganador. Se é verdade que são ferramentas úteis, o jornalismo e os comentadores tornaram-se excessivamente dependentes destas previsões, esquecendo que a amostragem e a interpretação dos dados podem ser falíveis. As sondagens sugeriam os empates técnicos, mas o resultado real mostrou uma vantagem clara para Trump. Essa dependência das sondagens não só distorceu a perceção pública como alimentou uma narrativa que acabaria por se revelar incorreta.

 

Os media e a falta de imparcialidade

Numa paisagem mediática que inclui atualmente cinco canais de notícias em Portugal e um ambiente global de constante análise e comentário, surge a necessidade de refletir, também, sobre a nossa imparcialidade. Ao longo da campanha, foi notória a “torcida” mediática portuguesa por Harris, muitas vezes apresentada como a mais viável para vencer. Essa preferência foi visível no tom e nas inúmeras narrativas abordadas. Para muitos analistas e jornalistas, Harris parecia representar uma escolha “mais segura”. Mas essa preferência, em vez de informar, apenas condiciona a capacidade de oferecer uma análise verdadeira e equilibrada.

 

A falta de neutralidade e a perda de credibilidade

A consequência mais evidente desta falta de imparcialidade e análise rigorosa é a perda de confiança nos media.  Esta falha de leitura do cenário político parece derivar de uma crise de credibilidade mais profunda, algo que Jeff Bezos, atual proprietário do The Washington Post, reconheceu no seu recente artigo de opinião. Como Bezos bem destacou, “o jornalismo é agora a profissão menos confiável de todas. Algo que estão a fazer claramente não está a funcionar.” A confiança dos leitores e espectadores é essencial, e quando ela falha, a capacidade dos media de influenciar e informar de maneira isenta é posta em causa. Para Bezos é claro que há um esforço necessário para reconquistar essa confiança, algo que exige autocrítica e, acima de tudo, uma análise comprometida com a realidade e não com percepções enviesadas.

 

Como podemos acreditar na análise jornalística se, repetidamente, as previsões se revelam erradas?

Ao exagerar as fraquezas de um candidato e ignorar as falhas do outro, os media arriscam alienar o público e criar uma perceção de que estão cada vez mais afastados da realidade das pessoas. A neutralidade, uma das pedras basilares do bom jornalismo, parece ter sido substituída nas últimas duas décadas por narrativas idealizadas. É este desfasamento entre a realidade e a perceção que explica por que os media continuam a fracassar na tarefa de oferecer uma análise neutra.

 

Um apelo à análise objetiva

Se queremos um jornalismo que informe e forme opiniões de forma honesta, é necessário que todos os seus profissionais saibam fazer uma autocrítica. Os media precisam de reconsiderar a forma como abordam as eleições, as campanhas, os partidos e os políticos em geral, resistindo à tentação de criar favoritos ou de favorecer as narrativas que consideram as “mais corretas”. Talvez, então, possamos contar com análises mais objetivas e menos tendenciosas, restabelecendo a confiança do público na imparcialidade da informação.

A crise de credibilidade dos media não se limita ao The Washington Post. Afeta não só toda a indústria americana, mas também a portuguesa. Em consequência, o público está a recorrer a fontes alternativas de informação, como podcasts, redes sociais e outras fontes de “notícias” não verificadas, onde, muitas vezes, a precisão dos fatos é sacrificada em prol da velocidade de disseminação. Se o objetivo dos media é informar e não orientar o público de acordo com as suas preferências, então, todos os profissionais de jornalismo e de comunicação mediática necessitam de exercitar “novos músculos”. Isso significa rever práticas, refocar-se em análises fundamentadas e comprometer-se a transmitir os factos de forma imparcial, em vez de se deixarem envolver pelas emoções e pela narrativa dominante dos “especialistas em tudo”.

 

Aos órgãos de comunicação social portugueses deixo o meu apelo: que as falhas recentes sirvam de lição.

Se não queremos aprofundar ainda mais as divisões sociais e colocar a nossa própria democracia em risco, precisamos de um jornalismo forte, isento e comprometido com a verdade. Os media têm a responsabilidade de informar o público, fiscalizar o poder e promover a transparência. Por isso são o quarto poder, e o nosso país precisa que o saibam exercer com responsabilidade e consciência.

 

Arquivado em:Notícias, Política

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