Como pode Portugal atrair mais talento do que aquele que sai do país e ceder a condições de competitividade para que os jovens fiquem? Portugal garante segurança e qualidade de vida, mas a crise da habitação, a fiscalidade e a burocracia são travões para o desenvolvimento. Sem esquecer as questões culturais, no meio empresarial, onde existe «uma cultura pouco meritocrática e pouco dada à competitividade e inovação».
As palavras são de Carlos Sezões, presidente da plataforma Portugal Agora, um Think tank aberto à sociedade, cujo objetivo é debater propostas e iniciativas para um Portugal atrativo, acolhedor e integrador.
Prestes a cumprir 10 anos de atividade, a Líder conversou com o responsável da plataforma sobre a visão de um país mais cosmopolita e agregador de talento e os principais desafios que se apresentam no horizonte.

Estes são parte dos temas de uma agenda que vai estar em debate amanhã, em Lisboa, no encontro Novas Migrações e Atração de Talento que reúne especialistas e stakeholders políticos, económicos e empresariais. A conferência, uma iniciativa da Portugal Agora, serviu de mote para esta conversa e recolha de impressões.
Migrações e Talento
Segundo uma recente análise, em seis anos, o número de estrangeiros em Portugal mais do que duplicou e são agora mais de um milhão, o que representa em 2023, um aumento de 33,6%.
«Temos mesmo de atrair talento, muitas vezes do ponto de vista quantitativo. Como se diz, o país parava se não tivéssemos imigração, e é verdade». Carlos Sezões aborda a necessidade de uma visão «realista, sem preconceitos nem enviesamentos» e adverte que Portugal tem de perceber onde necessita de talento e onde pode ser menos burocrático e mais inovador.
«Não faz sentido fechar o país e tentar que um jovem de 20 e poucos anos se forme em Portugal e fique necessariamente aqui, com esta sua vida. O que temos de lutar é por condições de atratividade para que os saldos migratórios sejam positivos em quantidade e em qualidade».
Num Mundo globalizado vão sempre haver movimentos, quer de saída ou de entrada de pessoas. O que é um «bom sintoma». O que implica atrair mais gente do aquela que sai, porque existe a necessidade, no mercado de trabalho, de combate à escassez de talento.
«Países abertos ao Mundo, que tem capacidade de integração, inclusão e que são atrativos, seguramente são mais bem sucedidos do que países fechados», defende.
Advogar uma imigração com planeamento, regras explicitas nos países de origem e combater redes de tráfego ilegal, resulta, na sua perspetiva, numa «sociedade mais rica e diversa que atrairá mais talento, e pode adquirir também mais capital». Para tal, a organização defende a aplicação de políticas mais cirúrgicas e segmentadas para atrair talento, nos próximos cinco anos.
A visão da plataforma Portugal Agora é taxativa: «queremos ser um país aberto, acolhedor, que possa integrar bem», e acrescenta, «uma imigração completamente desenfreada e sem qualquer preocupações de acolhimento e integração só pode gerar situações de conflitualidade cultural ou social, como alguma ansiedade em relação à insegurança».
Sobre as migrações, pode haver pequenas pausas, como as Pandemias, ou surgir «questões político-ideológicas e culturais, de construir muros, ou tentar impedir, numa atitude de protecionismo ou nacionalismo, mas o fluxo de milhões de pessoas em busca de qualidade de vida é imparável».
Pressuposto que completa com a ideia de que «não vai haver nenhuma fortaleza na Europa, e não acredito que Portugal vá fechar-se, também não fazia qualquer tipo de sentido». Portanto, «vamos ter mais migrantes e queremos ter mais migrantes seguramente e desejavelmente, mais qualificados, porque também tem impacto na nossa Economia e sociedade». «Ter imigrantes bem integrados vai depender muito daquilo que é o esforço do Governo, mas também de toda a sociedade civil a integrar», afirma.
Estas questões multidisciplinares dependem da segurança interna e dos novos processos da AIMA (Agência para a Integração, Migrações e Asilo), bem como da rede diplomática e consular. Há que cuidar da própria integração cultural, nomeadamente no apoio dado aos imigrantes. «Portugal tem a capacidade para que as coisas corram bem, na ótica de uma coesão social e simbiose entre a população portuguesa com outras culturas», partilha.
Somos um país que necessita objetivamente de todo este sangue fresco da migração e que tenha capacidade de se rejuvenescer com este capital humano que nos ajuda a nível económico.
No campo da formação e criação de talento dentro de portas, há uma visão clara de Portugal com projetos académicos que podem levar o país «a ser a Austrália da Europa, numa perspetiva de um ensino superior virado para o mundo». E acrescenta os pontos favoráveis: segurança, um bom framework de infraestruturas de comunicação, um ensino superior que já está a modernizar-se, com uma língua franca e o inglês que permitir atrair estudantes desde a Escandinávia até o Hemisfério Sul.
«Podemos ter essa ambição de ter aqui uma indústria que pode valer mais até mais 70% do valor que tem hoje em dia, facilmente», partilha.
Portugal Atrativo, Empreendedor e do Conhecimento
Estar à frente do Portugal Agora é, conforme explica, o seu «lado B», pois na sua vida profissional é Managing Partner da Darefy. Parte do projeto desse a sua fundação, em 2014, Carlos Sezões conta que o objetivo na sua génese foi «balizar uma visão estratégica de um país em três grandes dimensões: Portugal Atrativo, Empreendedor e do Conhecimento». Após o período da Pandemia, foi adicionada uma nova dimensão: o Portugal Resiliente.
A missão da plataforma é recolher propostas e iniciativas concretas, num estilo de «crowdsourcing de ideias». Como plataforma aberta à sociedade, com eventos abertos, são reunidos muitos contributos, para além do «benchmark internacional para perceber as boas práticas do que é se faz fora de Portugal».
Tentamos ser um Think tank muito pragmático, que passe do diagnóstico à estratégia e da estratégia à ação, aliás esse é o mote e assinatura do projeto: da estratégia a ação
Apesar de não ter uma perspetiva de executores, algumas das ideias já passaram à ação. «A nossa perspetiva é ser muito inclusivos e que muitos agentes possam executar estas iniciativas e propostas. Não é necessariamente ser apenas o Estado Central ou o Governo a executar, como podem ser autarquias, fundações, universidades ou empresas.»
Ter um polo universitário em Carcavelos que atraísse estudantes de todo o Mundo, hoje NOVA SBE, tinha sido um projeto já pensado e discutido entre este fórum. Assim como outros temas como as ligações aéreas diretas entre Lisboa e China, a revisão dos sistemas fiscais relativamente às startups, na perspetiva de atração de empreendedores, focados no talento, entre outros.
«Sendo não executores, pois não temos robustez quer financeira ou de capital humano para executar, a nossa missão é colocar estes temas na agenda pública», afirma.







