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Rita Saldanha

Dia Mundial da Poupança: conheça estratégias para as pessoas e as empresas

31 Outubro, 2024 by Rita Saldanha

Um terço dos colaboradores considera que o estado mental é afetado pelos seus problemas financeiros e 42% diz conseguir viver tranquilamente face ao aumento do custo de vida. Controlar as finanças pessoais e as contas de uma empresa traz bem estar e torna as organizações mais competitivas.

A propósito do Dia Mundial da Poupança, que hoje se celebra, a Líder partilha alguns conselhos, tanto para as empresas como para as finanças pessoas.

Veja aqui:

Para as empresas 

A Era Group indica três estratégias para ajudar as empresas a enfrentar tempos de incerteza sem comprometer a qualidade dos seus produtos e/ou serviços nem prejudicar os seus resultados.

Monitorizar as despesas regular e detalhadamente

Ao examinar com regularidade sobre a forma como os recursos são aplicados, as empresas conseguem identificar áreas de despesa excessiva, ineficiências e oportunidades para otimização de custos. Esta análise detalhada permite que se tomem decisões informadas, evitando desperdícios e garantindo que o orçamento disponível é direcionado para áreas que promovam o crescimento e a inovação. Além disso, através de uma constante monitorização promove-se uma cultura de melhoria contínua na qual as empresas incentivam todos os departamentos a contribuir para uma gestão financeira mais eficiente e equilibrada, consoante as áreas de atuação.

 

Análise profunda à gestão da cadeia de abastecimento

Uma estratégia crucial para otimizar custos e garantir maior eficiência operacional envolve uma análise profunda à cadeia de abastecimento. Estima-se que cerca de 70% das despesas de uma empresa média sejam gastas com fornecedores, pelo que avaliar regularmente a cadeia de abastecimento e garantir que se adequa às necessidades e realidade financeira do negócio são passos fundamentais para compreender se se está a adquirir os recursos certos e indispensáveis, por um preço justo e no momento certo. Além de uma melhor gestão de recursos, esta prática é crucial para fortalecer relações com parceiros que, reconhecendo o compromisso da empresa com a sustentabilidade financeira, podem oferecer condições mais flexíveis e personalizadas, sem que o compromisso com a qualidade do serviço ou produto seja descurada.

 

Investir em novas tecnologias

A adoção de novas tecnologias é uma das estratégias mais eficazes para otimizar processos e reduzir custos a longo prazo. Com a implementação de ferramentas como a Inteligência Artificial (IA) e a análise avançada de dados, as empresas conseguem agilizar tarefas repetitivas, melhorar a eficiência operacional e mitigar erros que resultam em custos adicionais. A automatização de tarefas, por exemplo, permite que estas sejam feitas de forma mais rápida e precisa, reduzindo a necessidade de trabalho manual em várias etapas internas e rotineiras. A IA, por sua vez, oferece insights e análises preditivas que ajudam na tomada de decisões estratégicas, antecipando riscos operacionais e tendências de consumo. Outras ferramentas, como o cloud computing, permitem o armazenamento de dados com maior segurança e acessibilidade.

 

Para as pessoas 

Para a GoodHabitz aumentar a literacia e o conhecimento financeiro tornaram-se cada vez mais essenciais e deixa três pistas.

Poupar de forma automática

Transferir uma percentagem mensal fixa para uma conta poupança é o primeiro passo para poupar de forma constante e estar preparado para qualquer imprevisto financeiro que possa surgir. Apostar em maior disciplina financeira conduz a maiores poupanças.

 

Implementar um orçamento pessoal eficaz

Um dos primeiros passos é compreender como o dinheiro é gasto. Criar um orçamento eficaz é essencial para identificar gastos desnecessários e criar prioridades financeiras. O principal objetivo desta estratégia é fornecer uma visão mais clara da distribuição dos recursos, proporcionando a tomada de decisões financeiras mais conscientes e responsáveis.

 

Adotar um consumo inteligente

É fundamental controlar os gastos impulsivos e tomar decisões de compra mais inteligentes, para uma gestão financeira eficaz. A implementação de práticas que auxiliem os colaboradores a avaliar de forma minuciosa as suas necessidades antes da realização de uma compra, pode fazer toda a diferença. Através desta prática é possível não só incentivar a poupança, como também promover decisões de compra mais alinhadas com os objetivos financeiros.

Arquivado em:Notícias

iServices está a recrutar Técnicos de Eletrotécnica em vários pontos do país

28 Outubro, 2024 by Rita Saldanha

As vagas para Técnicos de Eletrotécnica consideram as cidades de Lisboa, Caldas da Rainha, Guarda, Porto, Aveiro e Tavira, locais onde a marca abrirá novas lojas, ainda em 2024. As posições em aberto consideram as seguintes condições: formação inicial remunerada, seguro de saúde, contrato de trabalho efetivo e prémios mensais, além de benefícios e oportunidades de progressão na carreira.

Os interessados devem enviar o seu currículo para recrutamento@iservices.pt

Fundada em 2011, a iServices conta com uma equipa de mais de 400 colaboradores e uma rede de 82 lojas. A marca está presente em Portugal, Espanha, França e Bélgica. Além dos serviços de reparação, oferece ainda uma gama de equipamentos recondicionados e um portfólio de acessórios e gadgets, que complementam o diagnóstico gratuito e sem compromisso que antecede sempre qualquer reparação.

Arquivado em:Líder Corner, Notícias

«Putin não tem medo da NATO. Putin tem medo da Liberdade» (Oleksandra Matviichuk)

28 Outubro, 2024 by Rita Saldanha

Defensora dos direitos humanos, há mais de 20 anos, Oleksandra Matviichuk trabalha para proteger os direitos fundamentais na Ucrânia. O seu trabalho no Center for Civil Liberties foi reconhecido, em 2022, com a atribuição do Prémio Nobel da Paz.

As Democracias devem ganhar as guerras. A ordem mundial, baseada na Carta das Nações Unidas e no Direito internacional, está a colapsar diante os nossos olhos. O Conselho de Segurança da ONU está paralisado. É fácil prever que mais guerras e conflitos surgirão em diferentes partes do mundo, porque toda a estrutura internacional está a ceder

A advogada, que vive em Kiev, esteve presente nas Conferências do Estoril, com a palestra How to uphold human rights amid war onde partilhou as lições da guerra e deixou um emotivo apelo a todos os presentes.

Lições da luta pela Justiça e pela Dignidade na Ucrânia 

«Ouço frequentemente que as liberdades e os direitos humanos são importantes, mas os benefícios económicos, os interesses políticos e as preocupações de segurança são ainda mais significativas», as palavras de Oleksandra Matviichuk soaram pela audiência.

E logo aponta para a Rússia como um Estado que «viola grosseiramente os direitos humanos», o que se torna uma ameaça, não só para os seus próprios cidadãos, como para o resto do Mundo. A situação de conflito e de tensão, num cenário «sem precedentes na Europa pós-guerra», faz a advogada ucraniana, encontrar-se numa situação onde «nem a lei funciona».

Denuncia os crimes sistematicamente perpetrados pelas tropas russas em território ucraniano – «estão a raptar, roubar, violar e matar civis nos territórios ocupados», perante o sistema das Nações Unidas que não o consegue travar.

Esta guerra transformou as pessoas em números, pois a dimensão dos crimes cresceu de tal forma que se tornou impossível reconhecer todas as histórias. Mas as pessoas têm nomes, e por isso é tão importante contar essas histórias

Partilha a história de Ilya, um rapaz de 10 anos que com a Mãe se escondeu na cave da sua casa em Mariupol, para escapar aos bombardeamentos russos. Estavam no inverno, não havia forma de aquecimento, deitaram-se num sofá durante várias horas. A mãe tinha sido ferida na cabeça e acabou por morrer, enquanto mordia os braços do filho, de forma a manter-se quente.

«Quantas pessoas, que vivem no século 21, servem para definir um ser humano?», pergunta de forma emotiva Oleksandra Matviichuk. «As suas vidas, a sua liberdade e humanidade, têm algum valor? A resposta a esta pergunta definirá o nosso futuro comum», enfatiza,  dando o exemplo não só da Ucrânia como do Irão, China, Sudão ou Nicarágua.

No Mundo, cerca de 80% das pessoas vivem em sociedades não livres ou parcialmente livres, o que significa que as pessoas com o verdadeiro direito de escolher são uma minoria. A Declaração Universal dos Direitos Humanos é colocada em causa até nas Democracias mais desenvolvidas, o que podemos fazer?

E deixa três pontos de debate:

Primeiro, «defender a liberdade e a democracia». Há dez anos, milhares de pessoas na Ucrânia revoltaram-se contra os regimes pró-russos e pró-soviéticos e a Rússia ocupou a Crimeia. Há dois anos, ampliou-se esta guerra para uma invasão em larga escala. «Putin não tem medo da NATO. Putin tem medo da ideia de liberdade», declara.

Segundo, «estamos a lidar com desinformação proveniente de toda a União Soviética». Kiev, cidade onde reside, é constantemente bombardeada, não apenas por mísseis russos, mas também pela Força Aérea e aponta para os países de regimes autoritários, como a China, Síria e Coreia do Norte.

E em terceiro lugar, «para prevenir o pior, precisamos de justiça». ‘Nunca mais’ (never again) foi o slogan associado às lições do Holocausto e de outros genocídios que levou à criação do sistema das Nações Unidas e a assinatura de acordos internacionais.

A ideia de que cada pessoa é livre e igual em dignidade e direitos ajudou a caracterizar o novo humanismo do pós-guerra. Entretanto, o terror totalitário soviético nunca foi condenado ou punido. Se queremos prevenir guerras, temos de banir os Estados e os seus líderes que iniciam essas guerras. É senso comum

Imagem: Conferências do Estoril

O sentido de urgência é enorme e não se pode esperar pelo fim da guerra, para que seja feita justiça. E deixa o apelo para a criação de um «Tribunal especial para as agressões que responsabilize Putin, Bashar al-Assad e outros criminosos».

É necessário «começar a reformar o sistema internacional para proteger as pessoas contra regimes étnicos autoritários». A guerra da Rússia contra a Ucrânia não é apenas uma guerra entre dois Estados. É uma guerra entre dois sistemas: o autoritarismo e a democracia.

E deixa ainda a ressalva de que as pessoas comuns podem mudar a História. «Podemos não confiar nos instrumentos legais, ainda se pode confiar nas pessoas. As pessoas comuns têm um impacto muito maior do que imaginam. É apenas ao ajudarmo-nos uns aos outros que realmente podemos sentir o que significa ser humano», conclui.

Logo após a sua apresentação, a Líder teve a oportunidade de uma breve conversa com a laureada.

«Quando se está numa guerra, poucas coisas têm valor – uma delas é a capacidade de sermos humanos»

Quando a Organização que lidera foi fundada (2007), a Oleksandra era ainda muito jovem. De que forma encontrou a inspiração e a vontade de ter impacto e de lutar pelos Direitos Humanos na Ucrânia?

Enquanto estudava tive contacto com pessoas que faziam parte de um movimento de dissidentes soviéticos. Um movimento muito forte de intelectuais na União Soviética que não tinham outros instrumentos, a não ser as suas palavras e a sua posição. E usaram corajosamente estes instrumentos contra toda a máquina totalitária soviética. De repente, vi-me rodeada de pessoas que faziam parte dos meus livros de História. Pessoas que dizem o que pensam e fazem o que dizem. Pessoas que têm coragem para lutar pela sua dignidade humana. Porque foram reprimidas. Alguns foram presos, outros mortos, outros foram forçados a tratamentos psicológicos. As carreiras foram destruídas, as famílias separadas, mas eles não desistiram. Foi uma lição tão importante para mim que decidi estudar direito e continuar esta luta pela liberdade e pela justiça.

E os seus Pais também a apoiaram?

Sinceramente, os meus pais queriam que eu fosse uma pessoa ‘normal’. Ficaram contentes quando disse que queria ser advogada, pois achavam que poderia fazer carreira, ser rica, ter estabilidade e segurança. Na verdade, ficaram desapontados quando disse que queria ser advogada em Direitos Humanos. Não entendiam o porquê, era uma das melhores alunas da Universidade, mas agora respeitam o que faço.

Quando começou o período de guerra, já estava a trabalhar no Center for Civil Liberties. Estavam preparados para o que viria a acontecer?

Bem, todos sabíamos que a guerra em grande escala estava para começar. Mas há uma grande diferença entre saber e estar preparado. Quando começou, percebi que não estava preparada, mesmo eu, com todo o meu conhecimento e competências. Documentei crimes de guerra durante oito anos, entrevistei centenas de pessoas que sobreviveram ao cativeiro russo, que me contaram como foram espancadas, violadas, enfiadas em caixas de madeira, como lhes cortaram os dedos, arrancaram as unhas, aplicaram choques elétricos na zona genital. Uma mulher contou-me como lhe retiraram um olho com uma colher.

Com esta bagagem, e conhecimento, do que os russos fazem nos territórios ocupados e na guerra, eu não estava preparada. Porque enfrentámos uma quantidade enorme de dor humana. Ainda é inacreditável.

 

Sim, não é possível no século 21 ainda ouvir estas histórias. Como podemos evitar que esta realidade se normalize?

Temos de perceber que, de alguma forma, isto não é normal. Há um lado do Mundo onde as pessoas são sujeitas a mortes, violência sexual, tortura. Não é normal. Não podemos habituar-nos a isso, nem podemos aceitar. Acho que as pessoas tentam normalizar este mal porque não acreditam nos seus próprios esforços. Começam a pensar “o que posso fazer? não posso parar a guerra.” Mas a verdade é que precisamos de todos os esforços. Somos humanos, não somos deuses. Provavelmente, sozinho não posso mudar esta guerra. Mas sem os meus esforços individuais, nada mudará. E repito, as pessoas têm um enorme poder. Precisamos da vossa ajuda e do vosso apoio. E há centenas de maneiras de ser útil.

Pode partilhar formas de como o podemos fazer?

Posso mencionar o que o povo português já tem feito durante estes anos. É uma boa oportunidade para agradecer. Obrigada por tudo o que têm feito, pelo vosso coração, pela vossa solidariedade. Sei que em Portugal as pessoas escrevem sobre o que se passa na Ucrânia. Recolhem fundos para apoiar iniciativas no terreno. Abriram as suas casas e os seus corações aos refugiados ucranianos.

Quando se está numa guerra, percebe-se que muitas coisas que achávamos importantes não são nada importantes. Há apenas algumas coisas que têm valor. Uma delas é a capacidade de sermos humanos. E quando ajudamos uns aos outros, nesse momento, temos esse sentimento.

 

Imagem destaque: Conferências Estoril

Arquivado em:Artigos

Eleições norte-americanas: o que pode estar em jogo?

28 Outubro, 2024 by Rita Saldanha

O que é que se pode dizer sobre as próximas eleições presidenciais norte- americanas de 2024, que não tenha sido já dito tanto na paisagem mediática generalista como na especializada? Que o próprio regime democrático parece estar a ser votado? Check. E amplamente discutido (Brookings, 2024; Ignatieff, 2024; Levitsky & Ziblatt, 2019, 2023). Que o futuro da NATO, da Aliança Transatlântica e da integridade territorial da Ucrânia podem estar em jogo, dependendo da vontade do eleitor americano médio em apenas cinco ou seis Estados-chave do “campo de batalha”? Check, também amplamente discutido (ECFR, 2023; Gerson, 2024; Lindsay & CFR, 2024).

Por isso, não é uma tarefa fácil dizer algo relativamente novo sobre as eleições nos EUA, que estão a cerca de 60 dias de distância. Embora muito tenha sido discutido e os Media portugueses pareçam convergir para as potenciais ameaças à Democracia norte-americana, há pouca análise sobre visões alternativas tendo e conta as origens mais enraizadas de tais ameaças.

Este número especial da revista Líder analisa as eleições através do prisma do “populismo” ou da “ameaça populista”, que é entendido, de um modo geral, como uma ideologia pouco centrada que talvez descreva melhor uma forma de fazer política, em vez de um programa político específico per se (Muude e Kaltwasser, 2017; Moffitt, 2017). Outros académicos foram convidados a discutir este fenómeno aqui nesta edição (Malamud), pelo que não vou aprofundar este fenómeno social e político, mas o que gostaria de abordar é até que ponto as políticas populistas ou a chamada “ameaça populista” são de facto relevantes para compreender a candidatura Trump e as eleições presidenciais dos EUA em 2024.

Na minha opinião, de todos os escritos sobre a melhor forma de compreender o que está em jogo nas eleições presidenciais dos EUA, penso que o artigo de Ignatieff de 2024 no Journal of Democracy é talvez um dos mais exatos. Nele, Ignatieff lembra-nos que a posição mais consensual aqui em Portugal (como em toda a Europa), de que o populismo autoritário representa a crise democrática, e que esta crise pode ser resolvida com a sua derrota eleitoral, precisa realmente de ser reconsiderada.

Em vez de se concentrar na “ameaça populista” e na melhor forma de ensurdecer os seus representantes nas urnas, Ignatieff (entre outros) sugere que precisamos de levar a sério o facto de muitos populistas autoritários se verem a si próprios como os verdadeiros democratas, que pensam que nós – as elites profissionais liberais que normalmente defendem os “soft guardrails” (Levitsky & Ziblatt, 2019) da Democracia liberal – somos a verdadeira ameaça à Democracia. Como tal, ele sugere que as chamadas elites liberais e os defensores do status quo democrático precisam de fazer um sério exame de consciência institucional. Como assim?

Em primeiro lugar, a menos que se tenha vivido debaixo de uma rocha nos últimos 30-40 anos, o aumento dramático da desigualdade económica interna na maioria dos países da OCDE (Milanovic, Qureshi, Piketty, entre outros) significou que a classe média e as sociedades socialmente móveis que foram construídas após a Segunda Guerra Mundial em países como os EUA foram colocadas cada vez mais sob pressão, atingindo níveis de desigualdade não vistos desde a década de 1920.

Desde o início da década de 1980, e através do aumento da globalização, do offshoring e de políticas que incentivaram o financiamento de ativos especulativos, os rendimentos baseados no capital têm tido um desempenho excecional em comparação com os rendimentos baseados no trabalho, tendo estes últimos perdido terreno. Nos EUA, por exemplo, a percentagem de rendimento dos 1% mais ricos mais do que duplicou desde o início da década de 1980, com a percentagem de riqueza a aumentar para quase 40%.

Os rendimentos da classe média foram espremidos e o trabalhador típico viu os seus salários reais estagnarem em grande medida (Qureshi, 2017). Esta tendência é talvez mais bem ilustrada pelos padrões do Índice de Gini nos EUA, que passou de 34,7 em 1980 para 41,5 em 2019, o mais desigual de todos os países da OCDE, de longe (Banco Mundial).

No entanto, o aumento da desigualdade interna não explica tudo sobre o fenómeno populista nos EUA, nem serve de explicação para os fenómenos populistas noutros países, uma vez que surgiram partidos e movimentos populistas em muitos países onde o Índice de Gini tem vindo a descer, como em Portugal. Então, o que se pode passar mais?

A existência de dificuldades económicas não é um requisito para garantir a simpatia pela candidatura Trump, pelo que parece intuitivo que também precisamos de prestar atenção aos processos comunicativos e performativos que os movimentos populistas abraçam no corpo político para tentar compreender melhor as próximas eleições nos EUA.

Académicos como Cas Muude e Bem Moffitt (2017) escreveram longamente sobre este aspeto mais Gramsciano do momento populista. É uma forma de articular queixas e de fazer política que apela a um vasto leque de atores políticos, eleitores e partidos, até mesmo pelo filho bilionário de um magnata do imobiliário que, no entanto, consegue fazer passar os seus cortes de impostos aos ricos como se fosse o campeão dos “pequenotes”. Dizer aos eleitores de Trump que estão a ser enganados, ou que são estúpidos ou “deploráveis” por terem votado em alguém como Trump é, acreditem em mim, em última análise, tanto autodestrutivo como errado, e o jornalista Miguel Carvalho (2024) ou estudiosos como o Riccardo Marchi (2020) têm dito o mesmo sobre o votante do Chega em Portugal.

São pessoas que se sentem legitimamente prejudicadas e desiludidas com o chamado consenso bipartidário que costumava dominar o discurso político e o comportamento do Congresso dos EUA. Esse consenso tem vindo a desaparecer como nunca, atingindo níveis de polarização política que começam a parecer-se cada vez mais com a Alemanha de Weimar antes de 1933. Assim, se nem a economia nem as instituições políticas que tantos de nós, americanos, fomos ensinados desde tenra idade a venerar como “as maiores da história do Mundo” não estão a funcionar para quase metade do eleitorado dos EUA, então talvez seja altura de reconsiderar se estas instituições que herdámos de uma sociedade esclavagista dos séculos XVIII e XIX são, afinal, assim tão sacrossantas?

Os cientistas políticos elaboraram uma longa lista de questões que nos leva a considerar as razões pelas quais os eleitores se podem sentir desiludidos com as estruturas e os atores políticos dominantes, a começar pelo Colégio Eleitoral antidemocrático ou pelas táticas de “gerrymandering” utilizadas por ambos os partidos para desenhar os distritos congressionais de acordo com os eleitores que desejam.

A questão aqui é que, embora o populismo e a sua relativa “ameaça” possam ser uma lente popular através da qual se analisam estas e as recentes eleições nos EUA, o que pode estar realmente a conduzir à raiva dos eleitores, ao desânimo e a uma procura de qualquer candidato que pareça representar “qualquer mudança significativa”, é o resultado de um fracasso geracional repetido por parte dos guardiões de um status quo, que recusa reformar-se seriamente.

Como os nossos amigos do movimento ambientalista têm tentado lembrar-nos, a nossa relutância em implementar seriamente reformas nos nossos sistemas económicos e de produção está agora a pôr em perigo esses sistemas como um todo. Não olhem para cima!

Nota: Michael Baum escreve na sua capacidade pessoal e académica, enquanto Professor da Universidade Católica Portuguesa (UCP). As suas opiniões e análises não refletem as posições da UCP nem da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD).

 

Este artigo faz parte da edição de outono da revista Líder, publicada em setembro 2024, com o tema Humanity is Calling – Be Silent, Decide with Truth. Subscreva a Líder aqui.

Arquivado em:Artigos, Leading Politics

Utilizadores de IA são mais felizes na sua relação com o trabalho

28 Outubro, 2024 by Rita Saldanha

Apenas 28% dos knowledge workers de vários sectores a nível global têm uma relação saudável com o trabalho. Contudo, a utilização da IA entre estes trabalhadores aumentou para 66% em 2024 vs 38%, em 2023, e os que utilizam esta tecnologia estão 11 pontos percentuais mais satisfeitos com a sua relação com o trabalho do que os colegas que não a utilizam.

Os trabalhadores do conhecimento (knowledge workers), são aqueles que geram valor nas organizações através do seu conhecimento. A análise deste setor foi considerada no 2024 Work Relationship Index (Índice de Relações de Trabalho), elaborado pela HP, um estudo que explora a relação do mundo com o trabalho, junto de 15.600 inquiridos em 12 países.

Os resultados apontam para duas potenciais soluções para melhorar as relações com o trabalho: IA e experiências de trabalho personalizadas.

Experiências de trabalho personalizadas

Pelo menos dois terços dos trabalhadores manifestaram o desejo de ter experiências de trabalho personalizadas, incluindo espaços de trabalho adaptados, acesso às tecnologias preferidas e ambientes de trabalho flexíveis. Segundo o relatório, estas experiências são cruciais para melhorar as relações com o trabalho e têm implicações positivas tanto para os trabalhadores como para as empresas:

  • 64% dos knowledge workers afirmam que, se o trabalho fosse adaptado ou personalizado de acordo com as suas necessidades e preferências pessoais, investiriam mais no crescimento da sua empresa.
  • 69% dos trabalhadores do sector do conhecimento consideram que melhoraria o seu bem-estar geral.
  • 68% dos knowledge workers afirmaram que isso os incentivaria a permanecer mais tempo nos seus atuais empregadores.

Este desejo de personalização é de tal forma forte que 87% dos knowledge workers estariam dispostos a abdicar de parte do seu salário para o obter. Em média, os trabalhadores estariam dispostos a abdicar até 14% do seu salário, sendo que os trabalhadores da Geração Z estariam dispostos a abdicar até 19%.

 

IA abre novas oportunidades

Os knowledge workers que utilizam a IA estão a ver os benefícios, incluindo uma relação mais saudável com o trabalho:

  • 73% sentem que a IA facilita o seu trabalho e quase 7 em cada 10 (69%) estão a personalizar a sua utilização da IA para serem mais produtivos, o que indica que pode ser um ingrediente para desbloquear uma experiência de trabalho mais personalizada.
  • 60% afirmam que a IA desempenha um papel fundamental na melhoria do equilíbrio entre a vida profissional e a vida privada.
  • 68% dizem que abre novas oportunidades para desfrutarem do trabalho.

 

Líderes empresariais têm falta de confiança – mas mulheres estão mais bem classificadas 

Os países que registaram um aumento no índice individual de relações de trabalho registaram uma ligeira melhoria nos seis principais fatores de uma relação saudável com o trabalho – sobretudo nos fatores Liderança e Realização.

O estudo revela que a confiança na liderança sénior continua a ser um fator crítico para uma relação de trabalho saudável, mas que existe um desfasamento entre o reconhecimento da importância das competências humanas e a confiança dos líderes para as concretizar.

Embora mais de 90% dos líderes reconheçam os benefícios da empatia, apenas 44% se sentem confiantes nas suas capacidades humanas. E apenas 28% dos trabalhadores veem constantemente empatia por parte dos seus líderes, apesar de 78% a valorizarem muito.

No entanto, a investigação deste ano revelou um ponto positivo: as mulheres líderes. Em média, as mulheres líderes empresariais são +10 pontos mais confiantes nas suas competências técnicas (técnicas, informáticas, de apresentação, etc.) e +13 pontos mais confiantes nas competências humanas do que os seus homólogos masculinos.

Além disso, a confiança das mulheres líderes empresariais em ambas as competências aumentou no último ano (+10 pontos nas competências humanas, +4 pontos nas competências técnicas), enquanto a confiança dos homens líderes empresariais permaneceu estagnada nas competências humanas e diminuiu nas competências técnicas (-3 pontos).

Arquivado em:Notícias, Trabalho

Um guia para construir um futuro organizacional ecocêntrico

28 Outubro, 2024 by Rita Saldanha

Não é difícil prever que as alterações climáticas continuarão a perturbar as redes de abastecimento mundiais e poucas organizações estarão a salvo desta tendência. A liderança sustentável é uma abordagem que pretende combater estas questões ao fazer delas uma prioridade nos valores da organização.

Esta abordagem de gestão tem especial foco em Environmental, Social and Corporate Governance (ESG) e pretende encontrar soluções para os desafios ambientais, sociais e económicos do Mundo, reconhecendo os diretores e gestores como uma peça essencial neste processo.

Um líder sustentável compreende e aceita a crescente complexidade do mundo organizacional, tornando-se adaptável às mudanças e influências exteriores. Mais importante ainda, é um pensador a longo prazo que vê as pessoas e o ambiente como partes integrantes da empresa.

Estas duas questões são a força motriz desta estratégia e fazem com que se priorize o impacto da organização nas gerações futuras, não apenas no presente.

Por outro lado, as empresas que escolhem não tomar medidas razoáveis para atingir os objetivos de sustentabilidade estão a ficar para trás. A opinião pública, parceiros e consumidores, valorizam cada vez mais valores e objetivos relacionados com ESG e são extremamente críticos.

Para atingir uma liderança sustentável, existem cinco princípios gerais, de acordo com a empresa global de educação Emeritus:

  1. Ter uma mentalidade ecocêntrica, sistémica e de longo prazo

Nutrir uma mentalidade ecocêntrica (ou ecológica) sublinha o facto de os seres humanos serem uma componente do ecossistema global e indissociáveis do seu meio ambiente. Os líderes de topo devem inspirar os profissionais emergentes a incorporar esta perspetiva na sua visão do Mundo para reduzir o impacto negativo que as pessoas têm no ambiente.

  1. Estabelecer uma rede de liderança transfronteiriça

Os líderes de sustentabilidade estabelecem uma rede de liderança transfronteiriça, colaborando com líderes em diferentes funções. Executivos de projetos, líderes de opinião, especialistas na matéria e consultores de confiança podem fazer parte deste grupo de liderança. Ao coordenarem os pontos de ação, reforçarem as ligações e transformarem as estratégias-chave em ações que apelam a vários grupos de partes interessadas, os líderes de sustentabilidade criam uma visão partilhada para alcançar a mudança.

  1. Exercer influência sem autoridade

A chave para a liderança sustentável é a influência, não a autoridade. Os líderes focados na sustentabilidade têm de exercer a sua influência junto de grupos vastos e diversificados de pessoas, entre as quais poderão não ter qualquer autoridade. Por conseguinte, os líderes devem desenvolver um poder credível, envolvendo-se estrategicamente nas redes sociais para estabelecer uma relação com os colaboradores e exercer influência sem ter qualquer autoridade formal.

  1. Abraçar a complexidade e a mudança

Uma das principais competências dos líderes é distinguir entre vários tipos de liderança e selecionar o estilo adequado para resolver os problemas, em função da natureza do desafio. Assim, os líderes de sustentabilidade devem estar à vontade para trabalhar com várias complexidades que envolvem fatores como as necessidades das partes interessadas, o panorama político, os interesses concorrentes e os sistemas naturais.

  1. Reconhecer a importância de liderar a si mesmo

Dar prioridade à autoliderança, aumentando a autoconsciência dos valores e objetivos sustentáveis, é uma componente fundamental do desenvolvimento da liderança sustentável. Os líderes de sustentabilidade que compreendem a importância de se liderarem a si próprios têm uma noção clara dos objetivos e valores ecocêntricos e estão motivados para encorajar os outros a descobrirem os seus.

O papel do coaching: como fomentar uma liderança sustentável?

Para atingir estes objetivos, o coaching focado em ESG pode melhorar significativamente a liderança sustentável ao promover uma mentalidade que integra objetivos ambientais, sociais e económicos de longo prazo nos processos de tomada de decisão. Através de orientação personalizada e práticas de reflexão, os líderes são encorajados a alinhar os seus valores pessoais com práticas empresariais sustentáveis, promovendo uma cultura de responsabilidade e comportamento ético.

Um líder sustentável deve procurar cinco atributos: Mentalidade de sustentabilidade, que implica um forte sentido de objetivos e foco; Pensamento sistémico, que envolve a capacidade intelectual de observar e de se concentrar na questão ambiental mais vasta; Construção de relações, na medida em que compreende pessoas de diferentes culturas, apoiando a diversidade e construindo relações produtivas e duradouras com as partes interessadas; Continuidade do empenho, uma vez que estes desafios requerem uma gestão adaptativa a longo prazo; Comunicação eficaz, de forma a criar uma visão partilhada, gestão de conflitos e capacidade de motivar e convencer outras pessoas.

Além disso, o coaching para a liderança sustentável equipa os líderes com as competências necessárias para inspirar e envolver as suas equipas em iniciativas de sustentabilidade. Ao desenvolver competências em áreas como o pensamento sistémico, o envolvimento dos stakeholders, e a liderança adaptativa, os coaches ajudam os líderes a navegar por desafios complexo e a conduzir mudanças significativas.

Este tipo de coaching encoraja os líderes a promover uma cultura organizacional inclusiva e inovadora onde a sustentabilidade é uma visão partilhada. Uma estratégia bem delineada previne ainda o green washing, ao garantir que os valores relacionados com ESG estão impressos no dia-a-dia da organização.

Como resultado, as organizações que adotem uma liderança sustentável estão mais bem posicionadas para alcançar um crescimento sustentável, melhorar sua reputação e contribuir positivamente para a sociedade e meio ambiente.

 

Este artigo faz parte da edição de outono da revista Líder, com o tema Humanity is Calling – Be Silent, Decide with Truth. Subscreva a Líder aqui.

 

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