Confiar? Porquê?

A divulgação dos resultados do estudo “Os valores dos portugueses” suscitou, justificadamente, alguma comoção. Concluímos entre outras coisas que não temos uma cultura cívica e que a confiança na nossa sociedade é um bem escasso. Estes dados não surpreendem e estão em linha com o que se sabia.

Sobre a cultura cívica e associativa a questão é: para quê perder tempo se o Estado pode resolver? A ideia de que o Estado pode resolver tudo está profundamente entranhada na nossa sociedade. Uma querida e saudosa tia explicava-me um dia que o desemprego existia porque o Estado queria. Mas o que poderia o Estado fazer? Abrir fábricas, respondia ela. Talvez já tenhamos estado mais longe da visão da minha tia, que um dia até poderá ter razão a título póstumo.

Sobre a confiança: como podemos nós confiar num país em que os dados sobre os manifestantes são entregues às respetivas embaixadas? Explicaram-nos, entretanto, que afinal os dados só deviam ter sido passados às polícias – pior a emenda que o soneto. Em resumo, a democracia já terá visto melhores dias. Se se juntar esta peça de informação à nova lei da censura, bem podemos perguntar se é assim que o Estado quer aumentar a confiança dos cidadãos.

P.S. Em linha com estas novas lógicas, o Vietname, esse exemplo de democracia, acaba de introduzir normas que encorajam os utilizadores das redes sociais a promover “a beleza das paisagens, da cultura e das pessoas do Vietname, e partilhar boas histórias sobre boas pessoas”.

P.S. 2. Já terei por acaso partilhado convosco, queridos leitores, como são lindas as paisagens deste nosso Portugal? Esta semana já não há espaço mas para a semana ficam prometidas lindas histórias sobre este país maravilhoso.


Por Miguel Pina e Cunha, Diretor da revista Líder

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