De Sapiens a Digital e até onde?

“Vidas que até agora foram desesperadas e sem esperança têm agora um sentido. Aqui, na prisão de segurança máxima da Florida, a uns 500 metros da cadeira elétrica, estamos a realizar os nossos sonhos. É quase Natal, mas a Logoterapia foi a minha Aleluia pascal.”

Carta do prisioneiro 552022 a Vicktor Frankl

Esta pergunta poderá levar-nos por muitos caminhos, tantos que o grande problema é escolher um deles, ou melhor até, encontrar um deles, o certo. Pode nem haver caminho certo. Os nossos tempos não podem ter uma abordagem simples e linear, merecem um pensamento complexo tal como defende Edgar Morin, Antropólogo e Filósofo, e também Daniel Innerarity, Filósofo Político. Um pensamento complexo, ou seja, um pensamento onde se entendam os elementos que estão densamente inter-relacionados e isso significa aprender com a Biologia, com a Filosofia e com todas as disciplinas que tratem da Natureza e do Homem.

Quando a nossa pergunta de capa nos convoca para sabermos: Sapiens a Digital e até onde?  O repto é para nos interrogarmos sobre o que falta ainda descobrir ou o que precisamos nós de descobrir ainda. Nesta pergunta cabem quase tudo e até a questão última do sentido, o sentido que precisamos de encontrar para que a vida seja aceitável ou vivível. Perguntas onde cabem perguntas como se fossem bonecas russas. Viktor E. Frankl, nos anos 70 tratava este tema do sentido através da Logoterapia, ou seja, a Terapia do Sentido. A Psicoterapia seria sempre incompleta se tratasse apenas psicoses e neuroses e não olhasse para a questão do sentido. O homo sapiens pode ter resolvidas as suas necessidades materiais e amorosas, mas se não tiver resolvida a questão do sentido, a sua razão de viver, a sua compreensão do sentido da vida, isso pode levá-lo ao caos, ao desespero.

Eu diria que nesta abordagem, Frankl junta claramente a Psicologia e a Filosofia no desejo de cura pelo sentido. Curar os Homens é dar-lhes instrumentos para saberem encontrar um sentido, uma razão válida para acordar todos os dias com um propósito. A sabedoria necessária para conseguir lidar com o sofrimento resultante da constante necessidade de ter uma razão para viver. Frankl distingue, por isso, o homo sapiens do homo patiens, aquele é o homem “sábio que tem conhecimento, que sabe como alcançar o êxito… como ter sucesso no dinheiro e amor. O homo sapiens move-se entre o extremo positivo do êxito, e o seu homólogo negativo, o fracasso. Já o homo patiens sabe como sofrer, como transformar até os seus sofrimentos num êxito humano. E, por isso, de acordo com Frankl, “movimenta-se num eixo perpendicular ao eixo do êxito/fracasso. Move-se num eixo que vai para lá do dos polos de realização e de desespero.” Realização vista como concretização de sentido e desespero como indicador de falta de sentido.

O Homem realizado é aquele que consegue lidar com o sofrimento sem se desesperar, porque sabe que não é suficiente resolver as necessidades materiais e amorosas para que tudo fique bem. O Homem realizado enfrenta as questões do sentido e responde-lhes dia a dia, como se pudesse renascer sempre que encontra um motivo para viver. De sapiens a digital até à realização permanente, à descoberta contínua, uma Logoterapia sem fim.


Por Catarina G. Barosa, Diretora Editorial da Tema Central

Editorial publicado na edição de verão da revista Líder.

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