Em “Contra a Guerra”, o Papa não poupa nas palavas. A guerra é pura loucura. É monstruosa. É um cancro que se autoalimenta. É um sacrilégio, pois destrói o que há de mais precioso na terra: a vida humana, a inocência das crianças, a beleza da criação. Francisco é igualmente perentório acerca das causas desse […]
Em “Contra a Guerra”, o Papa não poupa nas palavas. A guerra é pura loucura. É monstruosa. É um cancro que se autoalimenta. É um sacrilégio, pois destrói o que há de mais precioso na terra: a vida humana, a inocência das crianças, a beleza da criação. Francisco é igualmente perentório acerca das causas desse sacrilégio: “A ganância, a intolerância, a ambição de poder, a violência são os motivos conducentes à decisão de avançar para a guerra, e estes motivos são muitas vezes justificados por uma ideologia de guerra que esquece a imensurável dignidade da vida humana, de toda a vida humana, e o respeito e cuidado que lhe devemos votar”.
A guerra não é solução – escreve Francisco. Não é! Todavia, a natureza humana é munida do “gene” da bondade, mas também do da maldade. Coexistem em nós o anjo e o diabo. Eis, então, a questão existencial: como atuar quando o diabo ganancioso e soberbo ataca o anjo? Como reagir quando a soberba e a ambição putinianas abraçam a louca guerra? Tenho dúvidas sobre se a resposta mais sábia é o ramo de oliveira. Como negociar com quem nos entra porta adentro, destruindo e matando? Compreendo que a postura mais sábia será prevenir, criando condições para que o agressor não encete a guerra. Esse é o argumento de Francisco. O Papa alega que, pouco antes da invasão russa, um sábio chefe de estado lhe terá confidenciado preocupação: as movimentações da Nato, nas barbas da Rússia, estavam a acicatar impulsos imperialistas russos.
Não questiono esta interpretação das causas da guerra. Mas pergunto-me se é realista esperar que o poder imperialista atue com razoabilidade e respeito pelos vizinhos. O padrão comportamental da Rússia e seu czar, muito antes da invasão da Ucrânia, não me trazem otimismo. Conta-se que, quando Pio XII comunicou que manteria neutralidade (uma posição que é alvo de reparos legítimos) durante a II Guerra Mundial, Estaline terá perguntado “quantas divisões de infantaria tem o Papa?”. Faria Putin uma pergunta diferente? Quem fala a linguagem da guerra e do exercício do poder pela violência não costuma ser persuadido pela linguagem da paz – exceto se esta vier acompanhada de frutos que alimentam a ganância e poder. Mas, sendo a ganância e a soberba, por definição, insaciáveis, ficamos perante um paradoxo terrível: para mantermos a paz, devemos estar preparados para a guerra (Si vis pacem, para bellum).
Daqui não decorre, porém, que devamos subestimar os erros do mundo ocidental. As democracias ocidentais estão repletas de malignidade e práticas pouco recomendáveis. Assim perdem legitimidade para pregar virtudes. Até mesmo os cristãos, ao longo da história, semearam a guerra sob o signo da cruz. Ficamos, assim, perante um paradoxo nos meus argumentos: para evitar a guerra e viver em paz, é fundamental abraçar os ensinamentos de Francisco. Eles representam a semente que permite manter alguma esperança na regeneração dos humanos. E, como Francisco tem igualmente sublinhado, não são apenas os governantes os fautores da paz. Já na carta Encíclica Fratelli Tutti, a palavra “paz” é citada mais de meia centena de vezes. Francisco aí escreve que “a paz real e duradoura” requer “uma ética global de solidariedade e cooperação ao serviço de um futuro modelado pela interdependência e a corresponsabilidade na família humana inteira”. As empresas e os empresários são agentes cruciais neste processo regenerador que abraça a virtude da fraternidade. A ganância, o desrespeito e as enormes desigualdades destroem anseios de dignidade, criam tensões sociais, alimentam populismos perigosos para as próprias democracias, e alimentam sementes de guerra. Os pobres são vítimas de práticas de gestão empresarial que ignoram a crucial importância da justiça.
Teme-se agora que, como vítimas do sofrimento gerado pela inflação e pelos custos da energia, os cidadãos pobres se oponham a políticas de ajuda à Ucrânia e punição da Rússia, designadamente durante o próximo inverno. Mas conviria destruir esse risco na raiz: lutando contra a pobreza, remunerando justa e dignamente, quebrando o ciclo de desigualdade pornográfica que carateriza muitos contextos sociais e empresariais. Numerosas empresas e seus líderes abraçam causas “fraturantes” com grande expressão mediática que permitem conquistar fama, reputação de empresa socialmente responsável, e ganhos. Mas são bastante mais escassas as empresas (ditas) socialmente responsáveis que tomam a peito o combate à pobreza, na raiz: remunerando dignamente. Eis, cinicamente, uma razão explicativa: abraçar causas “fraturantes” acarreta fama e mais dinheiro – mas o combate à pobreza, nos seus alicerces, é mais dispendioso! Encerro, pois, com a mensagem das Nações Unidades alusiva a este Dia Internacional: a paz “requer a construção de sociedades onde todos os seus membros sintam que podem prosperar”.

