É uma sinfonia única, composição natural que ressoa profundamente na alma humana. Cada onda quebrada na costa traz consigo uma história, uma memória, um eco de energia gerada e propagada. O som do mar tem uma sonoridade própria, fruto do vento, profundidade, navios e vida marinha, cujos contributos são capturados no momento. Suave como um […]
É uma sinfonia única, composição natural que ressoa profundamente na alma humana. Cada onda quebrada na costa traz consigo uma história, uma memória, um eco de energia gerada e propagada. O som do mar tem uma sonoridade própria, fruto do vento, profundidade, navios e vida marinha, cujos contributos são capturados no momento. Suave como um sussurro ou poderoso como um rugido, convida à contemplação e à reflexão. Recordemos o passado e com base nas suas lições procuremos no presente fazer por um futuro melhor.
Fenómeno natural que permite testemunhar a beleza e força da natureza, para muitos, o cantar do mar é um refúgio, fonte de inspiração. Tem o poder de acalmar a mente e promover a reflexão, um tesouro considerando a multitude de ruídos e distrações que diariamente nos perseguem. Para mim é ainda essencial ao exercício da minha profissão, oficial da Marinha Portuguesa, submarinista.
Desde os primórdios que o mar é via de comunicação, fonte de recursos, equilíbrio ambiental do Planeta e palco das manifestações de interesse de diferentes Estados e nações.
Vetores marcados por revoluções tecnológicas e avanços científicos que, lentamente, nos têm permitido conhecê-lo melhor sem nunca o dominar. Infelizmente, nem sempre o conhecimento foi aplicado de forma ética e responsável sendo inúmeros os exemplos de sobre-exploração, a par da sua poluição das mais diversas formas, que comprometeram e comprometem gerações vindouras. É uma obrigação para com os nossos filhos e netos fazer melhor.
Somado, já vivi mais de um ano sob as ondas, envolto em mar, afastado de família, telemóvel e redes sociais, durante semanas de cada vez, partilhadas com mais de 30 pessoas, na barriga de um submarino. Massa metálica com menos de 70 metros, não tem janelinhas redondas com vista para o exterior, como tão frequentemente me perguntam (quiçá inspirados em desenhos animados). Dias e noites distinguem-se pelo desligar de luzes nuns compartimentos e diminuição da sua intensidade noutros. Gráficos, desenhados em monitores, pintam os sons que o mar propaga, os sonares processam e permitem, com um misto de arte e ciência transmitida entre gerações, identificar diferentes tipos de navios que sulcam os mares patrulhados, distinguindo-os das muitas espécies marinhas. Tem sido uma experiência enriquecedora de liderança e gestão de pessoas, cuja descrição e transposição para o mundo empresarial poderá ser encontrada brilhantemente descrita por André Marquet no seu livro Turn the Ship Around. A missão, recebida pelo Comandante, é partilhada com a guarnição, equipa que transcende a soma das individualidades, que a cada momento, sabendo o propósito, contribui proactivamente para o seu cumprimento.
Ainda a propósito do meu ofício partilho uma obra, um legado de um egrégio avô quinhentista, a Arte da Guerra no Mar, escrita pelo Padre Fernando Oliveira, em 1555, que também considero som do mar. Na linha de Maquiavel, Fernando Oliveira, escreveu um tratado, dirigido a el Rei D. João III, em que se afasta da religiosidade e dos códigos medievais de honra da cavalaria, para tratar com racionalidade e realismo o emprego do poder naval ao serviço de finalidades políticas ligadas ao interesse nacional. É interessante constatar que, não obstante o realismo presente na sua obra, não se aparta da sua condição de clérigo socorrendo-se de pensadores cristãos e referências bíblicas para tratar de questões éticas e morais relacionadas com o uso da força. Não escreveu esta obra para sustentar conceptualmente a política e a estratégia de prosperidade e de afirmação internacional de Portugal. Antes, usou-a para criticar, onde entendeu necessário, a desvinculação da política e da estratégia nacional relativamente aos interesses de natureza marítima, afirmando ser essa a razão do declínio de Portugal em meados do século XVI. Razão que contribuiu certamente para ter sido preso, mais do que uma vez, e para que apesar dos seus extraordinários contributos para o pensamento estratégico naval e marítimo, a sua obra tenha caído praticamente no esquecimento e muitos dos sábios conselhos nela constantes desprezados.
É um tratado, curto mas rico, composto por um prólogo e duas partes revestidas de conteúdo eminentemente estratégico que tratam “da intenção e apercebimento da guerra do mar” e “das armadas, batalhas marítimas e seus ardis”. Com duas edições modernas, enriquecidas com uma análise do seu conteúdo por eminentes oficiais de Marinha. Convido, no contexto desta revista, a leitura de quatro capítulos da primeira parte (Do ofício de Almirante; Dos homens do mar; Dos capitães do mar e do seu poder; De como devem ser escolhidos, e assentados os soldados; Do exercício dos soldados) que considero indutores de reflexão para líderes. Muito me alegrará um dia ver a obra deste Padre, a par de Sun Tzu e Maquiavel, inspirar a edição de manuais de liderança e estratégia empresarial.
O som do mar também nos lembra da fragilidade dos ecossistemas marinhos. A poluição e a exploração excessiva dos recursos oceânicos ameaçam não apenas a vida marinha, mas também a nossa subsistência. Deve ser uma chamada à ação, um lembrete de que a sua preservação é essencial para a saúde do nosso Planeta e para o bem-estar das futuras gerações.
É essencial reconhecer o som do mar, uma das baladas do Planeta, enquanto apelo e inspiração para enfrentar os desafios do século cultivando uma relação respeitosa e sustentável com o mar. Os oceanos são património comum da Humanidade, consequentemente, a sua preservação e proteção da biodiversidade marinha são responsabilidades partilhadas de que não nos podemos isentar.
Da próxima vez que ouvirmos o mar, lembremo-nos da importância de não esquecer lições da história, comprometamo-nos firmemente com a educação, sejamos perseverantes, assertivos para assim contribuir para um Mundo onde o crescimento económico e a proteção ambiental coexistam em harmonia. Deixemos um legado digno de ser lembrado!
Este artigo faz parte da edição de outono da revista Líder, com o tema Humanity is Calling – Be Silent, Decide with Truth. Subscreva a Líder aqui.

