O Mote Perceber a natureza da guerra não é fácil. E hoje, com a invasão russa da Ucrânia, deparamo-nos bem com essa dificuldade. Para além dos diferentes ângulos de análise, há muitas variáveis a equacionar que dificultam a tarefa. Mas é a conjugação de todos estes elementos que permite a leitura essencial de um conflito. […]
O Mote
Perceber a natureza da guerra não é fácil. E hoje, com a invasão russa da Ucrânia, deparamo-nos bem com essa dificuldade. Para além dos diferentes ângulos de análise, há muitas variáveis a equacionar que dificultam a tarefa. Mas é a conjugação de todos estes elementos que permite a leitura essencial de um conflito. Contudo, as visões surgem demasiado parcelares. Alavancam apenas numa perspetiva: a jurídica, a geopolítica, a militar, a humanitária… Ou seja, a natureza da guerra escapa-nos.
Carl von Clausewitz tentou resolver este problema. Em 1832 é publicado Vom Kriege onde apresentou uma Teoria da Guerra. Segundo o general prussiano, um conflito bélico é a continuação da política, mas por outros meios. Ou seja, a vontade de poder, associada a ideias que a catalisem, é a razão para a guerra. Logo, enquanto houver exercício de domínio, haverá conflito e guerra. E começa a fazer-se-nos luz sobre a decisão de Putin.
O Modelo
Clausewitz sugere-nos um modelo interpretativo da guerra. Apresenta-nos a “maravilhosa” trindade (wunderliche Dreifaltigkeit). Ou seja, podemos perceber a natureza da guerra na dinâmica entre três elementos-tipo: a violência primordial, o ódio e a inimizade; o jogo entre o acaso e a probabilidade; e, por último, a racionalidade, que poderá ser representada pela dimensão ideológico–política. São três categorias que, dialeticamente, poderão ser lidas como uma combinação entre paixão, força e razão. Ou, se quisermos, um sistema que, em abstrato, deverá encontrar equilíbrio entre fatores irracionais, arracionais e racionais. Clausewitz associou cada uma destas variáveis a formas estruturadas de ação humana. No caso da violência primordial, ao povo. No que toca ao acaso e à probabilidade, às forças armadas. E, por fim, no que diz respeito à racionalidade política, há uma associação aos Governos e aos Estados.
Ora, a conjugação destes três elementos (violência primordial, o jogo entre o acaso e a probabilidade e a dimensão racional) é, para o general prussiano, a marca da imprevisibilidade da guerra. Aliás, compara-a ao dinamismo da atração magnética. Sugere que o desenrolar da guerra é como um pêndulo sobre os três pontos de atração que compõem esta trindade: balança sobre eles de uma forma não padronizada. O percurso deste balancear nunca é determinado por uma força só, mas pela interação das três. E a intensidade de cada uma é bastante variável. Desta forma, demonstra-se o comportamento não linear da guerra. Portanto, tudo depende da intensidade valorativa que cada fação atribui à vitória. Resumindo, a superioridade militar ou a justeza da causa, por si só, não são sinónimos de triunfo bélico.
A Aplicação
Consoante o contexto onde se desenrola o conflito, mais peso terá determinado fator. Por exemplo, numa guerra justificada por ocupação territorial, o peso da violência primordial é muito diferente entre as partes. Veja-se no caso da Ucrânia. Ou então, objetivos políticos muito ambiciosos poderão ser um obstáculo na condução da guerra, pois nem sempre acatam suficiente “paixão” que permita a persecução da vitória – como pode vir a ser no caso da Rússia.
Mas as guerras que tenham como pano de fundo motivações consideradas vitais (catalisadas em princípios políticos, ou seja, de acordo com a razão) levam a que a “paixão” se transforme numa ação estratégica implacável, facilmente aniquiladora de
um adversário que não tenha o mesmo grau motivacional – e aí, por exemplo, percebemos quer o empenhamento das forças ucranianas da defesa de soberania, quer a narrativa de um certo lebensraum que impeliu Putin para a invasão. Portanto, motivações menos pungentes poderão restringir a influência da vertente irracional como ação estratégica, mas retiram força anímica à motivação de combate.
O caráter multifacetado e o dinamismo fazem da “maravilhosa2″ trindade uma ferramenta analítica eficaz para se perceber a natureza da guerra. Realça que as forças que a espoletam e conduzem desenrolam–se entre o racional e as influências irracionais da emoção humana, passando pelos tais efeitos arracionais da sorte e do “acaso”. Estes três elementos estão bem presentes em todos os conflitos armados, dos convencionais aos não-convencionais.
Apliquemo-los, com todas as variáveis inerentes, na leitura desta guerra.
A Conclusão
Para finalizar, lembramos ainda que, de acordo com o general, a guerra é um camaleão. Pode mudar de cor, mas é constante na essência. O seu caráter é que sofre alterações, adapta-se ao contexto. Portanto, alterações tecnológicas, inovações táticas ou estratégicas (como poder aéreo, nuclearização, etc.) não alteram a essência de uma guerra. A forma de a fazer é que está (e estará) em permanente mudança. E isso depende de fatores conjunturais, não de fatores essenciais. Consoante o contexto, as partes em confronto hão de variar, assim como os objetivos de luta e as armas utilizadas. Contudo, a guerra, na sua essência, frisamos, não muda. Por isso, cada guerra deverá ser entendida de acordo com o contexto em que se insere, e não isoladamente.
Uma Teoria Geral da Guerra, como a de Clausewitz, apenas dá a ideia sobre aquilo que se deve procurar. Não aponta particularidades. Essas, apenas deverão ser encontradas caso a caso. E também não especifica o que se deve fazer – aborda o como pensar acerca do que se deve fazer. A guerra é, portanto, um fenómeno em si. A dimensão bélica, jurídica ou geopolítica é apenas um dos vários aspetos que a compõem. E esses, naturalmente, sofrem processos de mutação e adaptação. Tentemos, pois, lê-los à luz desta “maravilhosa” trindade para melhor perceber a natureza desta e de outras guerras.
Foi isto que fizemos neste dossier.
Este artigo foi publicado na edição de primavera da revista Líder
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